Estados Unidos da Jihad: livro retrata o terrorista que mora ao lado

Michiko Kakutani

  • The Lowell Sun / Robin Young/AP

    Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, responsáveis pelos atentados na Maratona de Boston

    Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, responsáveis pelos atentados na Maratona de Boston

Desde 11 de setembro de 2001, conta Peter Bergen em seu livro recente e oportuno, 330 pessoas nos Estados Unidos foram acusadas de algum tipo de crime terrorista e jihadista e, surpreendentemente, quatro em cada cinco eram cidadãs norte-americanas ou residentes legais permanentes.

Bergen afirma que muitas crenças sobre esses militantes não se sustentam: a maioria dos jihadistas nos Estados Unidos não era de jovens indignados sem obrigações familiares, e a decisão de se engajar no terrorismo, na maior parte, não estava enraizada em alguma experiência traumática de vida. Segundo a pesquisa de Bergen, a idade média era de 29 anos, e mais de um terço dos acusados eram casados, muitos deles com filhos. Além disso, mais de um em cada seis apoiadores do Estado Islâmico no país eram mulheres.

Segundo Bergen, os jihadistas norte-americanos tem "em média a mesma escolaridade e estabilidade emocional que um cidadão típico. Eles são norte-americanos comuns."

O último livro de Bergen, "United States of Jihad" ["Estados Unidos da Jihad", em tradução livre], é uma espécie de anatomia dos terroristas norte-americanos. Alguns são bem conhecidos do público, como os responsáveis pelo atentado à Maratona de Boston, Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev; outros são menos conhecidos, como Zachary Chesser, da Virgínia, que se declarou culpado em 2010 por apoiar a Al Shabab, filial da Al Qaeda na Somália, e por incitar a violência contra os criadores de "South Park".

Autor de quatro livros sobre o terrorismo (incluindo "The Longest War" ["A Guerra Mais Longa", em tradução livre], um olhar sucinto mas panorâmico sobre o 11 de Setembro, a evolução da Al Qaeda e as guerras no Afeganistão e no Iraque), Bergen escreve com autoridade e amplitude, com base em suas muitas fontes na comunidade de inteligência, e colocando acontecimentos recentes, como os ataques de San Bernardino, na Califórnia, dentro do contexto de dinâmicas maiores na guerra contra o terror. Seus perfis de jihadistas –assim como os dos sequestradores do 11 de Setembro no livro de Terry McDermott, "Perfect Soldiers" ["Soldados Perfeitos"], de 2005-- deixam o leitor com uma noção angustiante sobre a banalidade do mal e uma consciência irritante dos erros cometidos pelas autoridades.

Partes deste volume são conhecidas pelos leitores que acompanham o assunto. As seções sobre Anwar al-Awlaki --um clérigo nascido nos Estados Unidos que fazia propaganda jihadista na internet e se tornou um agente do alto escalão da Al Qaeda no Iêmen, e que foi morto por um ataque de drone dos EUA em 2011-- devem muito ao livro extremamente detalhado do repórter do "New York Times" Scott Shane, "Objective Troy" ["Objetivo Tróia", em tradução livre], de 2015.

Como Shane, Bergen analisa o papel poderoso que al-Awlaki teria, em vida e postumamente, inspirando outros jihadistas. Ele também desconstrói o arco de radicalização de Al-Awlaki e fornece um relato igualmente detalhado dos caminhos percorridos por outros militantes nascidos ou criados nos EUA.

Nidal Hasan, criado na classe média da Virgínia, alistou-se no Exército e tornou-se, nas palavras de Bergen, "o lobo solitário mais mortífero de todos", matando 13 pessoas em Fort Hood. David Coleman Headley, que tinha uma locadora de vídeo em Manhattan e trabalhava como informante da agência de Combate às Drogas dos EUA, participou do planejamento dos ataques que mataram mais de 160 pessoas em Mumbai, na Índia.

E Samir Khan, um típico adolescente de Long Island "interessado em videogame e meninas", tornou-se um blogueiro jihadista radical. Depois de se mudar para o Iêmen, ele lançou o "Inspire" em 2010, um webzine em inglês cujos artigos com títulos chamativos sobre explosivos ("Faça uma bomba na cozinha da sua mãe") e sobre como se preparar para a guerra santa ("leve pouca coisa e use uma mochila, não uma mala") chamaram a atenção de uma nova geração de terroristas ocidentais, como os irmãos Tsarnaev.

Bergen evita especular sobre as motivações de seus personagens, mas observa que muitos militantes compartilham "do desejo por reconhecimento e pertencimento". Cita-se um relatório de 2007, escrito por dois analistas de inteligência do Departamento de Polícia de Nova York, que sugere que algum tipo de dificuldade pessoal (a perda de um emprego, a morte de um membro da família, um episódio de racismo) muitas vezes cria uma "abertura cognitiva" para buscar a crença religiosa radical. Outro teórico mencionado por Bergen argumenta que os laços de amizade e parentesco são muitas vezes mais importantes do que a ideologia na criação dos grupos jihadistas, ressaltando o poder das redes sociais como ferramenta de recrutamento.

Ao compreender as fases de radicalização de muitos pretensos terroristas, Bergen explica, as agências de segurança esperam identificar ameaças potenciais e intervir antes que o processo de "jihadização" se complete --ou pelo menos antes que um plano seja executado.

Houve casos de militantes voltarem do exterior para tentar ataques sérios nos Estados Unidos: Faisal Shahzad, por exemplo, que foi treinado para fazer bombas pelo Taleban paquistanês e deixou um carro-bomba (defeituoso) na Times Square, em maio de 2010. Na visão de Bergen, no entanto, uma ameaça maior nos Estados Unidos é a dos terroristas solitários, aqueles inspirados pelo Estado Islâmico ou grupos filiados à Al Qaeda na internet.

Bergen faz um trabalho profundo, citando as dificuldades de identificar esses terroristas solitários e os alertas significativos ignorados pelas agências de segurança. Ele também oferece uma avaliação criteriosa das controversas operações "sting" do FBI, que muitas vezes usam informantes duvidosos, e dos excessos das agências de inteligência em suas iniciativas de vigilância.

O problema dos funcionários de contraterrorismo nos últimos anos, segundo ele, não é que eles não tinham informação, "mas que não entendiam ou compartilhavam as informações de forma adequada". Na verdade, ele observa, casos como os de Hasan e Headley (nos quais alertas foram rejeitados ou ignorados) "não fornecem um argumento a favor da coleta cada vez mais ampla de informações" --como a vigilância dos metadados de ligações telefônicas pela Agência Nacional de Segurança. Em vez disso, eles fornecem um argumento a favor de "fazer julgamentos mais inteligentes sobre a informação coletada através de meios legais e estabelecidos."

Ao contrário "dos esforços mais exagerados de contraterrorismo, muitas iniciativas de inteligência e policiamento de rotina reduziram drasticamente a ameaça representada pelos terroristas", acrescenta Bergen. Em 11 de setembro de 2001, havia 16 pessoas na lista de passageiros proibidos nos Estados Unidos; em 2015, havia mais de 40 mil. Ele escreve que mais "centros integrados" da Força Tarefa Conjunta Contraterrorismo ajudaram as agências de segurança pública a coordenarem seus esforços, e que "o número relativamente pequeno de ataques jihadistas bem-sucedidos nos Estados Unidos" desde o 11 de Setembro indica que as "medidas de defesa norte-americanas" (como as checagens nos aeroportos) vêm funcionando para impedi-los.

Os relatos detalhados de Bergen sobre os planos para os ataques (executados, evitados ou fracassados) são uma leitura assustadora, especialmente para aqueles 83% dos eleitores norte-americanos que disseram numa pesquisa recente da Universidade Quinnipiac que é "muito provável" ou "um pouco provável" que aconteça um grande ataque terrorista nos Estados Unidos num futuro próximo.

Bergen defende que esse tipo de medo é exagerado, e oferece uma perspectiva mais sóbria. Embora ele diga que serão necessários "muitos e muitos anos" para que o terrorismo jihadista "definhe e morra", ele acredita que o terrorismo não representa uma ameaça existencial como a Segunda Guerra Mundial ou a Guerra Fria. Pelo contrário, na sua opinião, ele representa uma "ameaça persistente, porém menor", que não deveria tomar o lugar de outras questões graves como a mudança climática e a violência armada.

Nos anos após o 11 de Setembro, ele diz, "um norte-americano vivendo nos EUA tinha cerca de cinco mil vezes mais chance de ser morto por um compatriota armado do que por um terrorista inspirado pela ideologia de Osama bin Laden."

Tradutor: Eloise De Vylder

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