Presidente da China faz esforço para obter o mesmo status central de Mao e Xiaoping

Chris Buckley

Em Pequim (China)

  • Eric Feferberg/ AP

    Xi Jinping

    Xi Jinping

O presidente da China, Xi Jinping, já acumulou mais poder de modo mais rápido que seus dois recentes antecessores, demonstrando o gosto por decisões audaciosas e aversão a dissensão. Mas um novo esforço para louvá-lo como líder "central" da China, um termo que remete à estatura formidável com que antes contava Deng Xiaoping, sugere que sua busca ferrenha por um maior domínio não acabou.

Enquanto Xi enfrenta desafios econômicos e se prepara para escolher um novo grupo de subordinados, ele tem exigido que as autoridades do Partido Comunista cerrem fileira mais estreitamente do que nunca em torno dele, e referências a Xi como líder "central" se tornaram uma ocorrência diária na mídia de notícias chinesa controlada pelo Estado.

"Essas referências repentinas e descaradas ao domínio de Xi na liderança sugerem que ele finalmente virou a página em sua meta de esmagar a cabala de altas autoridades contrárias à sua ascensão e permanece um homem com pressa de consolidar plenamente seu poder político", disse Christopher K. Johnson, um especialista em política chinesa do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

No teatro da política chinesa, expressões como "central" são símbolos de poder. As autoridades sugerem que a saudação de Xi como um líder dessa estatura –um que está seguindo os passos de Deng, que governou a China durante sua transformação após a morte de Mao– transmite um alerta para que sua autoridade não seja questionada, muito menos desafiada, enquanto o governo navega por mudanças turbulentas.

"A ordem mundial em que estamos está passando por um ajuste profundo e, domesticamente, este é um período importante de mudanças profundas", disse Guo Jinlong, o chefe do partido em Pequim, em uma reunião em meados de janeiro, segundo o jornal "Beijing Daily". "Precisamos mais do que nunca de uma liderança central firme."

Xi, cujos títulos formais incluem o de secretário-geral do Partido Comunista, sinalizou suas exigências por maior lealdade nas recentes reuniões da liderança central, com a mensagem sendo transmitida de cima para baixo. "Partido e governo, militares, civis e docentes –leste, oeste, sul, norte e centro– o partido é líder de todos", disse Xi em uma reunião no mês passado, segundo uma reportagem amplamente divulgada por uma equipe de propaganda dedicada a promovê-lo.

Em uma série de declarações desde aquela reunião, dezenas de líderes provinciais e outros importantes grupos prometeram –e passaram a exigir de seus subordinados– fidelidade inabalável ao "secretário-geral Xi Jinping, o centro". Todos os dias desta semana apresentaram novas declarações como essa de fidelidade a Xi na mídia de notícias controlada pelo Estado.

"Protejam de forma resoluta o centro, o secretário-geral Xi Jinping, e implantem fielmente todas as decisões do centro", disse na segunda-feira Xu Shousheng, o secretário do partido da província de Hunan, no sul da China, segundo o principal site de notícias da província.

Pelo menos 14 líderes do partido das províncias, regiões e cidades usaram essa frase, ou algo quase idêntico, desde meados de janeiro, segundo um levantamento das reportagens de jornal.

"Sempre achei que o jogo era a respeito do 19º Congresso do Partido, e diria que isto se trata do disparo inicial dos preparativos para ele", disse Fewsmith. "Parece uma forma de anunciar uma campanha para arranjos de pessoal."

Apesar do poder intimidante de Xi, ele preside uma elite política que inclui muitos nomeados promovidos por seus antecessores, Hu Jintao e Jiang Zemin. O congresso dará a Xi uma chance de nomear seu próprio pessoal, de modo que ele quis destacar a importância que ele dá a se submeter às suas metas, disse Fewsmith.

Xi não disse publicamente que deve receber o título de líder central, uma designação que Deng deu a Jiang nos levantes de 1989, depois que Jiang foi nomeado abruptamente como secretário-geral e teve dificuldade para estabelecer sua autoridade. Posteriormente, o próprio Deng e Mao também passaram a ser louvados como líderes "centrais" de suas gerações.

O termo ressurgiu depois de recentes reuniões presididas por Xi.

Em 7 de janeiro, o Comitê Permanente do Politburo, o círculo interno de poder do partido composto de sete membros e presidido por Xi, exigiu lealdade inabalável à liderança central e a ele, segundo a agência de notícias estatal "Xinhua".

"A chave para o fortalecimento da liderança do partido é a manutenção da liderança centralizada e unificada do centro do partido", disse o resumo oficial da reunião do Politburo, o conselho dos 25 principais líderes do partido, divulgado pela mídia de notícias estatal no final de janeiro. Ele exigia que as autoridades apoiassem uma "liderança central firme".

"Estejam alinhados com o centro do partido, alinhados com o secretário-geral Xi Jinping", disseram múltiplos relatos oficiais das exigências dos líderes, usando um termo de paradas chinesas para tropas dispostas de forma uniforme rígida.

Em comparação, o antecessor imediato de Xi como presidente e chefe do partido, Hu, nunca obteve o título de líder central nos pronunciamentos do partido. Isso foi amplamente visto como refletindo a posição de Hu como um líder relativamente fraco, por muito tempo ofuscado por Jiang, e que governou por meio de consenso, algo que os críticos disseram ter resultado em impasses e corrupção.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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