No Egito, não se nega um convite para tomar chá com a Segurança Nacional

Mona Eltahawy*

No Cairo (Egito)

  • Asmaa Waguih/Reuters

"Srta. Mona, bem-vinda de volta para casa. O aeroporto nos disse que acabou de voltar de Viena."

Eu sabia pelo identificador de chamadas em meu telefone que tratava-se da Segurança Nacional me ligando para me lembrar –como seu eu pudesse esquecer– que eles estavam de olho em mim. Eu de fato tinha acabado de retornar ao Cairo após meses no exterior promovendo meu livro, mas Viena não fez parte do meu itinerário. Também foi um lembrete da incompetência que envolve até mesmo o sinistro no Egito.

O oficial, que se identificou por posto e apenas o primeiro nome, citou corretamente outros locais que visitei, inclusive alguns que não mencionei nas postagens pelo Twitter. Isso me leva a acreditar que a agência também monitora redes como WhatsApp e FaceTime, que uso para comunicações particulares.

"Queríamos apenas checar com você", ele disse. "Você visitou Israel? Estamos ligando porque você já morou em Israel. Alguém lhe ofereceu trabalho?"

Eu fui correspondente da (agência de notícias) Reuters em Jerusalém anos atrás, de 1997 a 1999. O Egito e Israel estavam em paz desde o acordo de Camp David de 1979; mesmo assim, egípcios que visitam Israel são vistos com suspeita e com frequência interrogados ao retornarem. Eu disse ao oficial que não responderia suas perguntas a menos que meu advogado estivesse presente e encerrei a ligação.

Este foi meu segundo telefonema em três meses. Em setembro, sob pretexto de estarem "atualizando" seus registros, o oficial Posto e Primeiro Nome quis saber para quem eu trabalhava e se tinha alguma viagem planejada. Eu estava visitando meus pais naquele dia, de modo que enviaram um soldado raso com um telefone pelo qual falei com o oficial. Eu recebi a mensagem. Eles sabiam onde me encontrar.

Ele me perguntou se eu tinha me mudado de volta para o Egito permanentemente. "Por que estão fazendo perguntas para as quais já sabem as respostas?" eu respondi.

Eu brinquei com amigos que um telefonema é uma espécie de promoção. Desde o início de minha carreira em jornalismo no Egito no início dos anos 90, eu me juntei aos muitos jornalistas e ativistas que são vigiados pelo governo. Às vezes, um oficial de segurança do Estado me envia um convite para um chá –que eufemismo perfeito para um interrogatório– no quartel-general.

Na minha primeira visita para o chá na agência, na época conhecida como Serviço de Investigações de Segurança do Estado –ou apenas Segurança do  Estado, como a chamávamos– dois oficiais me escoltaram da sucursal da Reuters no Cairo, onde era correspondente, para seu quartel-general. Lá, fui ameaçada de passar a noite em uma cela se não revelasse a fonte de uma história. Eu me recusei e, após algumas poucas horas, fui liberada com um falso elogio patriarcal: "Você é uma garota durona".

A Segurança do Estado como Grande Pai assumiu todo um novo significado quando retornei ao Cairo após meu período em Jerusalém. Quando fui ao "chá", eu contava com meu próprio oficial designado, que me deu seu nome de guerra de Omar Sharif (sem nenhuma relação, nem nenhuma semelhança).

"Mona Eltahawy! Finalmente! Você é uma figura e tanto!" exclamou o sr. Sharif. "Quem raios vai para Israel? Preciso conhecer seu pai. Se minha filha me dissesse que pretendia ir para Israel, eu quebraria o pescoço dela!"

Sentada à mesa de frente para Omar Sharif, foi muito ruim quando ele segurou arquivos que disse estarem cheios de informação obtidas após ser seguida e por meio de meu telefone ter sido grampeado. Mas nosso encontro se tornou kafkiano quando ele pegou uma foto de sua mulher, que usava um lenço de cabeça vermelho que ele disse ser uma instrutora religiosa em uma mesquita local.

"Você é casada? Quantos anos têm? Uma mulher como você nunca se casará", ele disse. "Quem vai querer casar com você com a vida que leva, todo dia em uma cidade diferente? Você vai acabar com um homem como meu irmão, um mulherengo, que vai trair você."

Poucos meses depois, enquanto visitava alguns parentes, acompanhada de meus pais e de minha irmã que tinham vindo de fora da cidade, o telefone tocou. Era Omar Sharif.

Ele sabia que meu pai estava no Cairo e exigiu também falar com ele. No dia seguinte, meu pai me disse que o sr. Sharif tinha dito que eu levava uma vida "inadequada para o Egito".

Apesar de a organização já existir antes dos quase 30 anos de regime do ex-presidente Hosni Mubarak, ela se tornou uma dentre os vários serviços de segurança civis que ele usava para manter um equilíbrio oscilante com o poder rival dos militares. Por um breve período, em 2011, após derrubarmos Mubarak e desequilibrarmos os velhos que governavam o Egito, o Serviço de Investigações de Segurança do Estado foi abolido.

Aqueles dentre nós que o experimentaram pessoalmente entendiam que tratava-se apenas de um processo de mudança de imagem. A Segurança do Estado foi enterrada em março de 2011 e então ressuscitou logo em seguida como Segurança Nacional.

Eu me pergunto com frequência se Omar Sharif fez a transição de uma para a outra. E temo o que ele e seus colegas estão fazendo com a crescente capacidade do Egito de recolher dados a partir de aplicativos como Skype, Facebook, Twitter e YouTube com a ajuda da See Egypt, a empresa irmã da firma de cibersegurança Blue Coat com sede nos Estados Unidos.

A Segurança Nacional também está ocupada detendo pessoas. Quatro membros do braço político do Movimento Jovem 6 de Abril foram recentemente levados de suas casas em batidas no meio da noite. O governo do presidente Abdel Fattah el-Sissi também visou administradores de grupos no Facebook, uma editora e uma galeria de arte, em uma repressão antecipando o aniversário no mês passado da revolução de 2011.

Tenho sorte por ser uma escritora conhecida cujo perfil a protege. A combinação da Segurança Nacional de crueldade e incompetência atinge mais duramente aqueles com menos proteção: os jovens e anônimos. Atualmente, os jovens do Egito não podem esperar um convite para um chá.

*Mona Eltahawy é autora de "Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution" –Lenços de cabeça e hímens: Por que o Oriente Médio precisa de uma revolução sexual, em tradução livre e ainda não lançado no Brasil

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos