Governo permite a minoria muçulmana da China que pratiquem o Islã abertamente

Andrew Jacobs

Em Wuzhong (China)

  • Adam Dean/The New York Time

Enquanto o chamado à oração ecoava dos muros altos da madrassa (escola religiosa muçulmana) para a aldeia vizinha, dezenas de meninos, usando "taqiyahs" (toucas muçulmanas) violetas combinando, saíam de seu dormitório e seguiam para a mesquita.

O ritual de oração daquela tarde, que pouco mudou desde a época em que mercadores do Oriente Médio percorrendo a Rota da Seda chegaram ao oeste da China há mais de mil anos, era ao mesmo tempo cotidiano e notável.

Isso porque em muitas partes do país oficialmente ateísta, restrições religiosas tornam um crime o funcionamento de escolas islâmicas e proíbem pessoas com menos de 18 anos de entrarem em mesquitas.

Ao ser perguntado sobre o relaxamento do governo chinês aqui, Liu Jun, 37 anos, o imã chefe da Escola Islâmica Banqiao Daotang, exibiu um sorriso.

"Os muçulmanos de outras partes da China que vêm aqui, especialmente de Xinjiang, não acreditam em quão livres somos, e não querem partir", ele disse, referindo-se à província de fronteira no extremo oeste do país que é lar da minoria étnica sitiada uigur. "A vida para os hui é muito boa."

Com uma população estimada de muçulmanos de 23 milhões, a China conta com mais seguidores do Islã do que muitos países árabes. Aproximadamente metade deles vive em Xinjiang, um território rico em petróleo na Ásia Central onde o ciclo de violência e repressão pelo governo alarma os defensores de direitos humanos e enerva Pequim devido às preocupações com a disseminação do extremismo islâmico.

Mas aqui, na região autônoma hui de Ningxia, um constructo administrativo relativamente recente que é o coração oficial da comunidade muçulmana hui da China, esse tipo de conflito é quase inexistente, assim como as limitações à religião que os críticos dizem alimentar o descontentamento uigur.

Por toda Ningxia e na província vizinha de Gansu, novas mesquitas com filigranas se destacam até mesmo nos menores vilarejos, meninos e meninas adolescentes passam seus dias estudando o Alcorão nas escolas religiosas e o muezzin convoca os fiéis por meio de alto-falantes –em um grande contraste às mesquitas em Xinjiang, onde as autoridades locais costumam proibir os chamados amplificados à oração.

Em redutos hui como Linxia, uma cidade em Gansu conhecida como "Pequena Meca" da China, há mesquitas quadra sim, quadra não, e as mulheres às vezes são vistas usando véus, uma opção de vestimenta que pode levar à detenção em Xinjiang.

"É fácil viver uma vida intensamente muçulmana aqui", disse Ma Habibu, 67 anos, um caminhoneiro aposentado, cujo sobrenome, Ma, com sua semelhança fonética com o nome de Maomé, é comum entre os hui. "Até mesmo as autoridades do governo aqui são muito devotas e estudam o Alcorão todo dia."

Descendentes dos mercadores persas e árabes que se estabeleceram ao longo da Rota da Seda e tomaram mulheres chinesas, os 10 milhões de hui do país são uma minoria definida principalmente por sua fé e, em alguns casos, apenas por seus hábitos culinários. Em comparação aos uigures, eles também demonstram uma capacidade notável de coexistir com o Partido Comunista, uma organização que desconfia de forma intrínseca daqueles que são leais em primeiro lugar a um poder superior.

Diferente dos uigures, que falam um dialeto túrcico e cujos traços eurasianos os distinguem da maioria chinesa han do país, os hui falam chinês e com frequência não é possível distingui-los de seus vizinhos não-muçulmanos. Em grande parte da China, as "taqiyahs" brancas usadas pelos homens e os lenços de cabeça vermelhos usados pelas mulheres são a única coisa que os distingue. Em muitos lugares, os hui foram tão assimilados que a única conexão deles com o Islã é a aversão remanescente à carne de porco.

A maioria segue a linha moderada do Islã, apesar da tradição rejeitar casamentos mistos –os homens hui que quebram a convenção ao se casarem fora de sua fé costumam exigir que suas mulheres se convertam ao Islã.

"Os hui são um grande exemplo de um grupo muito diverso de pessoas que de alguma forma conseguiu sobreviver, apesar da quantidade enorme de opressão, e fazê-lo de modo vibrante", disse Dru C. Gladney, um professor de antropologia da Faculdade Pomona, que estuda os hui. "Eles tiveram 1.200 anos para descobrir como conviver com os han, e são cuidadosos em não cruzar linhas políticas."

A lealdade deles ao Partido Comunista foi bem recompensada. Em lugares como Linxia, as pessoas podem obter facilmente passaportes e aproximadamente metade das mais altas autoridades é de etnia hui, segundo moradores locais. Em Xinjiang, em comparação, os postos mais importantes de governo vão para os han, e os jovens uigures têm dificuldade para obter passaportes para viajar ao exterior. Os funcionários do governo em Xinjiang que frequentam mesquitas ou jejuam durante o mês sagrado do Ramadã com frequência se veem desempregados.

Mas mesmo em Ningxia e Gansu a tolerância oficial tem seus limites. Durante uma recente viagem de cinco dias pelas comunidades hui que pontilham os sopés áridos do platô tibetano, vários imãs disseram que a pregação para não-muçulmanos foi proibida, assim como o contato com organizações islâmicas fora da China. Aceitar doações estrangeiras para a construção de uma mesquita também é com certeza um convite para problemas com as autoridades.

"Não acho que o governo precisa se preocupar com a possibilidade dos muçulmanos ou hui se transformarem em terroristas, mas as autoridades temem que estrangeiros com motivações escusas possam incitar problemas, ao doarem dinheiro aos muçulmanos chineses", disse Ding Mingjun, um professor de estudos sobre os muçulmanos hui da Universidade das Nacionalidades de Beifang.

Os líderes religiosos disseram que o governo se tornou especialmente vigilante em conter a competição e conflito potencial entre diferentes facções islâmicas. Vários imãs disseram que as autoridades do partido se preocupam mais com os salafistas, uma seita sunita ultraconservadora cuja interpretação rígida dos textos religiosos está associada ao extremismo.

"A influência salafista está se espalhando rapidamente pela China, e isso preocupa tanto a nós quanto ao governo, porque eles acham que a religião deles é a única certa", disse Wang Jingcheng, um professor do Grande Gongbei, um templo sufista de 300 anos em Linxia.

Os hui nem sempre coexistiram tão bem com as autoridades ou com outros grupos étnicos. No século 19, rebeliões lideradas pelos muçulmanos foram brutalmente reprimidas, resultando na morte de centenas de milhares. Mais recentemente, durante a Revolução Cultural de 1966 a 1976, a Guarda Vermelha torturou e prendeu imãs, desfigurou mesquitas e fechou academias religiosas.

Nos últimos anos, ocorreram choques esporádicos entre os hui e han: em 2004, dezenas teriam sido mortos durante um confronto étnico na província de Henan, e em 2012, dezenas de pessoas foram feridas pela polícia durante protestos contra a demolição de uma mesquita em Ningxia, que foi declarada ilegal pelo governo.

Em 2008, manifestantes tibetanos, enfurecidos pelo domínio hui da vida econômica local, atacaram restaurantes muçulmanos e invadiram uma mesquita em Lhasa, a capital regional.

Essas tribulações, reforçadas pela expressão ocasional de desdém por parte de vizinhos não-islâmicos, infundiram em muitos hui um senso de determinação que beira o excepcionalismo.

Em entrevistas, muitos hui disseram que sua devoção de inspiração religiosa à higiene e integridade pessoal –além de evitarem cigarros, álcool e jogos de azar– os distingue de seus irmãos han.

"Os hui costumavam viver em bairros separados, mas atualmente, os não-muçulmanos estão se mudando para os bairros muçulmanos, atraídos por nossa comida limpa e pelo nosso sistema de ética", disse Ma Youming, 35 anos, um gerente de produção de uma fábrica de chapéus em Wuzhong, que exporta chapéus e toucas para a Indonésia, Malásia e outros países muçulmanos.

O Partido Comunista busca cada vez mais fazer uso dessa boa vontade para posicionar os hui como emissários mercantis no mundo muçulmano, um papel reforçado pela iniciativa nacional do presidente Xi Jinping de criar uma nova Rota da Seda, conhecida como "Um Cinturão, Uma Rota", que busca ressuscitar as antigas rotas comerciais da China com a Ásia, Europa e o Oriente Médio.

Em locais como Wuzhong e Linxia, as autoridades criaram parques industriais especiais de "produtos muçulmanos", que oferecem terras baratas e baixos impostos. A empresa de Ma, a Yijia Ethnic Clothing, está entre aquelas que se beneficiaram com as políticas favoráveis do governo.

Em meio ao som das máquinas de bordados computadorizadas, Ma disse que as três fábricas da Yijia Ethnic Clothing atualmente produzem 50 milhões de peças por ano e fornecem mais de dois terços dos chapéus e toucas islâmicos de baixo preço do mundo.

Esse sucesso está alimentando um novo empreendimento para a empresa: imóveis de temática muçulmana em Linxia, que incluirão 6 mil apartamentos, duas mesquitas, museus e um centro de exposições de alimentos "halal" (de acordo com a lei islâmica) que se espalham por mais de 77 hectares.

Durante uma recente visita aos escritórios da empresa, Ma Chunbo, um alto executivo, disse que o projeto busca explorar a crescente riqueza dos empreendedores hui, mas que ele também espera atrair não-muçulmanos.

"Queremos mostrar ao mundo que o Islã é uma religião tolerante, amante da paz, não a religião das burcas e atiradores de bombas que as pessoas veem no noticiário", ele disse.

Ele estava em frente a uma maquete do projeto, que incluía réplicas em escala das mesquitas mais famosas do mundo. "Também queremos mostrar que em Linxia, nós apreciamos plenamente as políticas étnicas lenientes do governo", ele disse.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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