Colecionar e vender pombos: uma antiga e lucrativa tradição uigur

Dan Levin

Em Kashgar (Xinjiang, China)

  • Mohd Rasfan/AFP

Em muitas partes do mundo, os pombos são uma praga urbana ou, no máximo, uma refeição apreciada. Mas aqui, neste antigo posto avançado perto da fronteira da China com o Quirguistão, eles são muito mais que isso: um passatempo, um investimento e, para alguns, um vício.

Aos domingos, uma feira no centro da cidade se enche de homens e meninos da etnia uigur envolvidos em uma frenética e tradicional confraternização masculina. Os objetos de sua atenção --muitos deles adornados com plumas multicoloridas e eriçadas-- pareciam não se incomodar muito com os toques de avaliação na crista, no bico, na asa e na cauda.

"Você fica meio viciado", disse Azizjam Mamat, 27, gerente de uma empresa de celular que começou a frequentar o mercado quando tinha 8 anos e hoje possui 300 aves. "Um pombo lhe dá tanto amor quanto dez mulheres."

A paixão pelos pombos unia os uigures, uma minoria muçulmana de língua turca, muito antes que a República Popular da China tomasse o controle de seu território tradicional, há mais de 60 anos, e o batizasse de Região Autônoma Uigur de Xinjiang.

Apesar de um período de terrível repressão do governo e derramamento de sangue, o passatempo não se abateu. Ele também é apreciado, em certa medida, entre os migrantes chineses da etnia han [predominante na China], que chegaram a Xinjiang aos milhões, atraídos pelos generosos subsídios estatais e as oportunidades econômicas decorrentes dos esforços de Pequim para ressuscitar Kashgar como um polo na nova Rota da Seda, que vai até o Paquistão e além.

Mas a cena no mercado de pombos de Kashgar, frequentado principalmente por uigures, salienta as divisões profundas entre essa população e os recém-chegados hans, que geralmente vivem em bairros separados, construídos há pouco tempo, do outro lado da cidade.

Não se ouve uma palavra de mandarim no burburinho das negociações, interrompidas pelos arrulhos que saem das gaiolas de metal e um ocasional rufar de asas. No teto de uma barraca, um homem de quatro, segurando uma rede de borboletas em uma das mãos, se arrasta na direção de um fugitivo. De repente, um bando de pombos voa pelo céu azul-pálido em sincronia, como num balé.

Em Xinjiang, região que é maior que França, Alemanha e Espanha juntas, as predileções pelos pombos variam muito. Os moradores do norte preferem as variedades de corrida, enquanto as raças vistosas são mais valorizadas aqui no sul. A feira, uma das maiores da China, oferece pombos de todos os tipos, incluindo os domésticos cinzentos, parecidos com os que habitam as calçadas de Nova York, os brancos com penas drapeadas de extrema elegância, marrons com caudas como de pavão, e os pretos de peito inchado, com os pés escondidos pela densa plumagem.

"A população do norte não se importa com a cor, só com quantos saltos o pombo consegue dar", disse Amrula Abdula, 30, um vendedor de cobertores. "No sul, exigimos as duas coisas."

Cercado por gaiolas verdes que contêm dezenas de belos pombos, Miradijan Matalip, 35, um funcionário do correio, não teve dificuldade para se separar de membros de sua criação --pelo preço justo.

"Este é um hobby que pode dar dinheiro", disse ele, segurando firmemente por trás das asas um espécime de cabeça preta que vale US$ 60 (cerca de R$ 240) enquanto inspecionava o interior de seu bico. Matalip cria pombos desde que tinha 6 anos e possui mais de 600, incluindo quatro que, segundo ele, valem mais de US$ 15 mil (R$ 60 mil) o par. "Esses eu guardo em casa", afirmou.

A popularidade de certas raças pode ser passageira. Pidayi Odikim, 66, um professor aposentado, já viu uma sucessão de modas de pombos em suas cinco décadas de trato das aves. Mas muitos uigures veem o passatempo trabalhoso e caro como um rito de passagem, algo vital para ensinar responsabilidade. "Ele mantém os meninos fora das ruas e os leva ao telhado", explicou.

Os aficionados dizem que os uigures cuidam de pombos há mais de mil anos. Mas para alguns, a ligação entre o homem e o pássaro tem origens bíblicas, com Noé e seu pombo fiel. "O pombo é um animal de estimação valioso desde aquele tempo", disse Muradil Sidik, 22, um trabalhador da construção e colecionador que gasta até US$ 50 (R$ 200) por semana com essas aves.

As forças do mercado tiveram um papel cada vez mais importante entre os entusiastas por pombos na China, que seriam pelo menos 300 mil, segundo reportagens na mídia estatal. Em 2013, um empresário chinês han pagou o preço recorde de US$ 400 mil (R$ 1,6 milhão) por um pombo-correio belga --um bom investimento, considerando-se que as corridas prestigiosas oferecem prêmios de milhões de dólares.

Tais espécimes de preço extravagante não estavam no mercado de Kashgar, mas isso não significa que os uigures relutem em pagar caro. Yusanjan Abdur Rahim, 15, afirma que já vendeu um casal de filhotes de alta linhagem por US$ 22 mil (R$ 88 mil). "Os pombos são como carros, quando são especiais", explicou ele.

Se a cena parece distante do resto da China, um exame mais minucioso revela uma enxurrada de influências modernas. Sacos falsificados de ração para pombos "Purina", com o misterioso rótulo de "Biot Eounader" no alfabeto latino, estavam à venda ao lado de versões falsas dos anéis usados em todo o mundo na perna das aves para identificar sua idade e as organizações em que estão registradas.

Azizjam Azizdawut, 43, um empregado da companhia elétrica estatal, disse que criou pombos durante décadas, inclusive em seu dormitório na universidade. Membro da associação local de criadores, ele lembra quando o hobby se tornou um esporte nos anos 1990. Na época, a distância das corridas em Xinjiang chegava a 90 quilômetros. Hoje, graças a décadas de miscigenação estratégica e treinamento rigoroso, as disputas alcançam mais de 480 km, sobre vastos desertos e montanhas escarpadas.

Em 2013, vários pombos de Azizdawut ganharam prêmios de corrida, um orgulho que é matizado por resignação. "Vencer é uma honra, mas dá muito trabalho", disse ele com um suspiro.

Conforme o sol subia, a multidão ficava mais frenética. Homens bronzeados usando paletós e "doppas", os tradicionais bonés bordados dos uigures, amontoavam-se em torno de negociações acaloradas, às vezes dando opiniões.

"Ele está oferecendo um bom preço", disse um espectador, intrometendo-se entre dois homens que discutiam.

"Estão muito magros", respondeu o comprador prospectivo, alisando uma asa cinzenta.

Depois de uma pausa, ele pegou um maço de dinheiro e apresentou o equivalente a US$ 60 (R$ 240), que o vendedor rejeitou com firmeza. O comprador foi embora.

Abrindo caminho entre a turba, Mehmet Torgun, 27, um construtor, estava na feira em busca de uma raça específica. Perguntado se a havia encontrado, ele indicou com a cabeça uma ave marrom e branca que levava enfiada pela cabeça no bolso do paletó. Então se moveu para mostrar outro pássaro que estava em outro bolso. O par havia custado US$ 14 (R$ 56).

"Os negócios vão bem, por isso tenho mais dinheiro para gastar em pombos", disse ele. "Mas às vezes dois já bastam."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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