Parlamento palestino vira abrigo para legisladores perseguidos

Diaa Hadid

Em Ramallah (Cisjordânia)

  • Diaa Hadid/The New York Times

Dentro do prédio do Parlamento palestino, Najat Abu Baker, uma legisladora da facção Fatah, estava à espera.

Sua filha adulta virou um atril com o selo do Estado palestino para uso como mesa de café. Na noite anterior, o irmão dela trouxe uma refeição do KFC, cujo cheiro se misturava com a fumaça de cigarro e o poderoso aromatizador que Abu Baker usou no banheiro. Uma dos vários funcionários ociosos, que ainda batem ponto diariamente apesar do Legislativo não se reunir há quase uma década, se sentou em uma cadeira estofada, à procura de conselho.

O assunto não era político ou sobre políticas, mas relacionamentos. Arrancando as folhas de uma erva recém-colhida, a funcionária, que não quis se identificar por temer ter problemas, se queixou de que seu marido bonito e mulherengo não parava de lhe pedir dinheiro.

"Dê um jeito de seu marido conhecer uma mulher rica, e então ele poderá enviar dinheiro para você de tempos em tempos!" aconselhou Abu Baker, que deu uma de conselheira amorosa para a funcionária que se sentia desprezada pelo seu amado.

"Ele diz que me ama!" insistiu a mulher. Mas ela rapidamente passou a brincar (mais ou menos) sobre fazer seu marido ser preso pelas forças israelenses, o que ao menos faria com que não mais precisasse pagar pelas refeições dele. A funcionária e a legisladora caíram na gargalhada.

E assim prosseguiu por 17 dias, enquanto Abu Baker se escondia dentro do prédio praticamente abandonado do Legislativo, para evitar ser presa pelo seu próprio governo. Denunciada pelos promotores por ter insultado o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, Abu Baker se refugiou no prédio de três andares, que se transformou em uma prova da disfunção da política palestina.

O Legislativo com 132 membros está inativo desde o rompimento em 2007 entre o Fatah, que domina a Autoridade Palestina e a Organização para a Libertação da Palestina, e o Hamas, a facção islamita que governa a Faixa de Gaza. Mas não há apenas um, mas três prédios do Legislativo: um aqui em Ramallah, sede da Autoridade Palestina; um na Faixa de Gaza, onde os legisladores do Hamas às vezes tomam decisões legalmente duvidosas; e um semiconstruído em Abu Dis, fora de Jerusalém, antes imaginada como a capital de um futuro Estado palestino independente.

"Em que outro lugar no mundo uma parlamentar, no exercício de seu trabalho, condenando a corrupção, se tornaria uma prisioneira, enquanto os corruptos permanecem livres?" perguntou Abu Baker em uma entrevista. "Isso é doloroso para mim, estar aqui desta forma. Este lugar deveria estar cheio de diálogo, de pessoas, justiça, não transformado em uma detenção para uma parlamentar."

Abu Baker deixou o prédio na semana passada, após fechar um acordo com os promotores para evitar a prisão. Ela foi a quarta legisladora palestina em apuros a se esconder no que é considerado espaço protegido onde as forças de segurança, tanto palestinas quanto israelenses, não podem entrar.

Bassam Zakarneh, também uma autoridade do Fatah, passou uma semana em uma tenda no local em julho de 2014, em protesto contra um decreto do governo que tornou seu sindicato ilegal. A legisladora esquerdista Khalida Jarrar se escondeu no interior do prédio por um mês em meados daquele ano, depois que os militares israelenses emitiram uma ordem limitando seus movimentos. (Ela posteriormente foi presa sob acusações que não foram reveladas.)

E em novembro de 2014, Ibrahim Khreisheh, enfrentando um mandado de prisão por insultar o primeiro-ministro palestino, acampou no gabinete do ex-presidente do Parlamento (um integrante do Hamas que passou anos entrando e saindo de prisões israelenses).

Foi aí onde Abu Baker se refugiou em 23 de fevereiro, após seu discurso para os professores palestinos em greve, no qual disse que Abbas deveria renunciar e sugeriu que haveria dinheiro para pagar os educadores se os ministros não fossem tão corruptos. Ela rapidamente tornou o local mais acolhedor.

Os guardas forneceram um colchonete, que Abu Baker colocou próximo de um retrato de Iasser Arafat, o primeiro líder palestino, na antiga sala de reuniões do presidente do Parlamento. O gabinete principal, com uma mesa e sofás, se transformou em um salão. A própria legisladora limpou o banheiro após anos sem uso.

Parentes vinham visitá-la, incluindo Khaled, um menino de colo que ficou encantado com o elevador.

"Garoto, o Parlamento é seu playground!" riu o pai dele, Shadi Zeidat, 27 anos. "Quem poderia imaginar?"

A funcionária que se queixava do marido mulherengo disse que 400 pessoas ainda recebem salário por empregos ligados ao Legislativo por toda a Cisjordânia e Gaza, 120 deles lotados no prédio principal em Ramallah. Às vezes, eles recebem delegações estrangeiras, mais recentemente um grupo de legisladores poloneses, para visitas oficiais.

Uma funcionária chamada Haifa, que não quis dizer seu sobrenome por não estar autorizada a falar com jornalistas, descreveu sua rotina diária.

"Eu fico sentada aqui", disse Haifa, 32 anos. "Checo o Facebook. Leio as notícias." Ela realiza algum trabalho? Haifa deu de ombros: "Às vezes envio fax."

Ela disse que não gosta de ficar tão ociosa, mas que não pode abandonar um emprego remunerado quando precisa de dinheiro para sustentar seus pais. Em fevereiro, ela apontou, alguns legisladores palestinos se reuniram no prédio para discutir a greve dos professores. Antes disso? Haifa teve dificuldade em lembrar. Talvez no ano passado.

É mais ou menos assim desde 2007, um ano após o Hamas conquistar a maioria das cadeiras nas últimas eleições legislativas palestinas. O governo de unidade formado pelo Hamas e pelo Fatah ruiu, seguido por um conflito violento no qual o Hamas assumiu o controle de Gaza. De lá para cá, Abbas governa em grande parte por decreto.

"O presidente deveria deixar o cargo" e marcar novas eleições, disse Abu Baker em uma entrevista, repetindo seu discurso controverso aos professores. Ela também descreveu o primeiro-ministro, Rami Hamdallah, como um "ditador" incapaz de suportar críticas.

Ela deixou sua vigília no Legislativo em 10 de março e foi escoltada ao gabinete do promotor, que concordou em cancelar o mandado de prisão. O prédio voltou à sua quietude habitual.

Isto é, até segunda-feira, quando cerca de 600 mulheres apareceram do lado de fora acenando bandeiras palestinas e pedindo pelo fim da divisão amarga entre o Hamas e o Fatah, que ressuscitaria o papel do Parlamento.

Abu Baker, em pé na escadaria do Legislativo, supervisionava a cena.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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