Opinião: Vazamento dos "Panama Papers" sinaliza mudança no jornalismo convencional

Jim Rutenberg

Em Washington (EUA)

  • Stigtryggur Johannsson/Reuters

    Islandeses protestam pela renúncia do então premiê Sigmundur David Gunnlaugsson

    Islandeses protestam pela renúncia do então premiê Sigmundur David Gunnlaugsson

Quatro anos se passaram entre o primeiro artigo de "The New York Times" baseado nos Papéis do Pentágono e o fim da Guerra do Vietnã.

Dois anos transcorreram entre a primeira reportagem de "The Washington Post" que estabeleceu a ligação entre Richard Nixon e o furto em Watergate e a renúncia de Nixon da Presidência.

Na semana passada, o primeiro-ministro da Islândia, Sigmundur David Gunnlaugsson, não demorou 48 horas para renunciar depois da revelação dos obscuros negócios bancários contidos nos "Panama Papers", alguns dos quais o envolvem.

Está bem, eu sei, é só a Islândia, longínqua e adoravelmente pequena. Quem sabia que o país tivesse um cargo mais alto que "forstodumadur Fiskistofa" (diretor de pesca)? Brincadeira, Islândia, brincadeira! Eu compreendo que vocês estão no centro de uma coisa maior que o seu país e que o meu também, e prometo que não ficarão bravos comigo quando terminarem de ler isto.

Porque enquanto nós, americanos, ficamos transfixados pelas últimas voltas do enredo de nossa campanha presidencial, vocês e o resto do mundo viviam o maior vazamento de dados corporativos da história. Ele teve reverberações não somente na Islândia, mas também na China, Grã-Bretanha, Rússia, Argentina e em cerca de outros 50 países.

Mas o vazamento indicou algo diferente que era muito importante, mas passou despercebido: a "wikileakização" oficial do jornalismo da corrente dominante; o próximo passo na tentativa de fusão entre o Quarto Poder, com seus jornalistas convencionais relativamente contidos, e o Quinto Poder, com seu bando de blogueiros, hackers e "jorno-ativistas" conhecidos por forçar os limites, na era de vazamentos de dados gigantescos.

Voltando à aurora deste novo jornalismo de Grandes Furos, o então diretor-executivo do "Times", Bill Keller, indagou-se em voz alta na revista de domingo do jornal se os "War Logs", um enorme conjunto de registros de guerra e diplomáticos confidenciais publicado pelo WikiLeaks juntamente com "The Times", "Der Spiegel", "The Guardian" e outros, representava "algum tipo de vitória cósmica da transparência".

Ele concluiu: "Suspeito que não alcançamos um estado de anarquia da informação, pelo menos ainda não". Isso foi em 2011.

Cinco anos depois, é seguro dizer que estamos chegando muito mais perto. Isso está mudando o curso da história mundial, e depressa. Também está mudando as regras para os jornalistas da corrente dominante no feroz negócio de desencavar segredos, e para as autoridades de governos e empresas no negócio mais feroz de guardá-los.

Qualquer pergunta anterior sobre o efeito do tesouro do WikiLeaks foi respondida alguns meses depois do surgimento do artigo de Keller, quando o WikiLeaks ganhou crédito por ajudar a detonar a Primavera Árabe.

Ele revelou um telegrama que salientava a opulência e a autobenevolência do presidente Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, e sua família, enfurecendo seu público já inquieto e economicamente espremido. Sua deposição ocorreu pouco depois.

No ano passado, um juiz federal dos EUA duvidou da constitucionalidade da vultosa coleção de registros telefônicos de americanos feita pela Agência de Segurança Nacional, depois que o programa foi revelado em dados vazados pelo ex-funcionário da inteligência Edward Snowden.

A informação de Snowden também ajudou a resolver o impasse este ano entre a Apple e o Departamento de Justiça sobre a criptografia do iPhone.

Agora temos os 11,5 milhões de arquivos conhecidos como "Panama Papers", baseados em documentos da firma de direito panamenha Mossack Fonseca, que detalham empresas de fachada e paraísos fiscais usados pelos ricos e poderosos do mundo. Eles estão causando azia política --e potencialmente algo pior-- no presidente Vladimir Putin, da Rússia, no primeiro-ministro David Cameron, do Reino Unido, e sim, na Islândia.

Mas para os coitados comuns que pagam seus impostos à risca, e não aproveitando as brechas, o mais chocante foi a quantidade de evasão fiscal contida nos Panama Papers que era legal, como escreveu Glenn Greenwald em "The Intercept".

Isto é um fósforo aceso na lenha política da visão cada vez mais global de que o jogo está marcado --algo que está no centro dos apelos de Bernie Sanders e Donald Trump aqui nos EUA.

É o material para o qual os jornalistas vivem. Mas os conjuntos de dados profundos que estão possibilitando esse tipo de revelação apresentam novos enigmas para repórteres e editores mais acostumados a bater telefones e entrevistar seres humanos ao vivo.

Essa questão surgiu inicialmente na colaboração do WikiLeaks nos "War Logs". Em suas histórias cuidadosamente construídas com o WikiLeaks, "The Times", "The Guardian" e outros parceiros redigiram os nomes de fontes sensíveis mencionadas nos documentos. Mas depois alguns relatos em poder do WikiLeaks vazaram online com os nomes de fontes sensíveis, provocando acusações de que puseram vidas em risco.

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e seus seguidores comentaram que nenhum dano físico decorreu daí. Mas nada disso ajudou a fonte dos "War Logs", Chelsea Manning (ex-Bradley Manning), o soldado do Exército que recebeu pena de prisão de 35 anos, acusado de violar a Lei de Espionagem.

A sentença fez parte das tentativas agressivas do governo dos EUA de pôr fim a esta era de Grandes Vazamentos. Sem chance.

Como grupo, os jornalistas investigativos e suas fontes operam com grande medo de ser presos, mas não tanto quanto temem ser intimidados pelo governo em reportagens importantes.

As coisas podem ficar mais delicadas quando os dados pertencem a corporações. Considere a invasão dos computadores da Sony Pictures Entertainment, que teria sido cometida pela Coreia do Norte na tentativa de afundar o filme da Sony que zombava do líder supremo do país, Kim Jong-un.

Repórteres encontraram alguns detalhes suculentos em e-mails de executivos. Mas eles também estavam, como afirmou o advogado da Sony David Boies, inadvertidamente ajudando "um Estado-nação a usar a intrusão para tentar intimidar e suprimir a distribuição de um filme".

Boies foi só até esse ponto na tentativa de convencer a mídia noticiosa de que estava legalmente obrigada a ignorar os dados e deletar qualquer um que tivesse baixado. Mas, segundo me disse ele, quanto mais uma reportagem deixa de servir a um interesse público evidente, "mais problemático" se torna publicar informação que foi obtida ilegalmente.

Os organizadores do projeto Panama Papers, no Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, uma entidade sem fins lucrativos, disseram que tinham isso em mente ao seguir as pistas no banco de dados da Mossack Fonseca, que diz que a informação foi roubada.

Quando visitei o escritório do consórcio em Washington na sexta-feira (8), seu diretor, Gerard Ryle, disse-me que não sabia se os dados foram hackeados. Mas ele me indicou o que estava escrito no alto do grande quadro branco que expunha o cronograma de produção dos Panama Papers: "É uma questão de interesse global?" (Resposta: Sim.)

Tomando algumas pistas dos casos da Sony e do WikiLeaks, Ryle disse que seu consórcio foi extremamente cuidadoso para não divulgar todos os seus dados, especialmente informações pessoais de figuras não públicas, exercendo um papel de monitor.

Referindo-se ao WikiLeaks, Ryle disse: "Estamos tentando recuperar terreno que eles roubaram --ou pegaram", o que o jornalismo da corrente dominante permitiu porque "ficamos preguiçosos, desleixados e arrogantes sobre o que tínhamos de fazer: projetar luz em lugares escuros".

Nem todo mundo está entusiasmado com isto. O WikiLeaks escreveu em um tuíte: "Se você censurar mais de 99% dos documentos, estará fazendo 1% de jornalismo". Mas essa crítica não é universal nos círculos do Quinto Poder. O que nos leva de volta à Islândia.

Uma líder do Partido Pirata islandês, de oposição, a deputada Birgitta Jonsdottir, foi voluntária no WikiLeaks e trabalhou algumas vezes estreitamente com Assange. Ela tem uma intimação judicial dos EUA por sua informação pessoal no Twitter que prova isso. (A atriz Carice van Houten, de "Game of Thrones", a interpreta em "O Quinto Poder".)

Quando falei com ela na semana passada, estava entusiasmada com os Panama Papers. "É incrível ver isso", disse. O partido de Jonsdottir pretende tomar o controle do governo com uma plataforma que inclui tornar a Islândia "um lugar no mundo onde os dados podem ser hospedados sem perigo para os denunciantes" --um paraíso para o jornalismo de vazamento de dados.

Como dizem na Islândia, parece que é a uva-passa na ponta da linguiça.

Panamá Papers: Como o dinheiro se esconde

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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