Suicídios abalam comunidade indígena no Canadá

Ian Austen

Em Ottawa (Ontário, Canadá)

  • Frank Gunn/Reuters

    Bandeira canadense esfarrapada tremula sobre uma tenda em Attawapiskat, Ontario

    Bandeira canadense esfarrapada tremula sobre uma tenda em Attawapiskat, Ontario

Ela foi importunada incansavelmente. Sofria de asma, diabetes e outros problemas. Suas condições de vida eram insuportavelmente difíceis: 20 parentes refugiados em um centro de enfermagem do governo com dois quartos durante mais de um ano, depois que um entupimento de esgoto tornou sua casa inabitável.

Mas foi um choque quando Sheridan Hookimaw, uma simpática menina de 13 anos, tirou a própria vida em outubro, segundo sua tia-avó.

Foi o tipo de choque, segundo a tia, que já se tornou muito familiar.

Desde setembro, 101 pessoas na Primeira Nação Attawapiskat --uma remota comunidade aborígine com cerca de 2 mil moradores-- tentaram o suicídio. É cerca de 5% da população.

Houve surpreendentes 11 tentativas de suicídio só no sábado.

"É muito assustador quando você ouve a ambulância às 2h, 3h da manhã", disse Jackie Hookimaw-Witt, a tia-avó de Sheridan. "É a juventude sendo tirada de nós."

Arrasados, o chefe e o conselho da comunidade Attawapiskat declararam estado de emergência. Foi mais um pedido de ajuda do que uma medida legal, e mais uma vez chamou a atenção do Canadá para antigos problemas na região.

"Espero que faça o governo reagir", disse o grande chefe Alvin Fiddler, da Nação Nishnawbe Aski, o órgão regional para grupos aborígines ao redor da baía de James. "Você vê em todo o território uma falta de habitação adequada, de atendimento de saúde, de acesso a água potável."

"Infelizmente, as tentativas de suicídio são prevalecentes em muitas de nossas comunidades", acrescentou ele.

Não é a primeira vez que Charlie Angus, o deputado federal dessa região, vê a declaração de estado de emergência depois que uma crise de suicídios varre comunidades aborígines.

"Nós passamos por picos dessas crises e estamos definitivamente em um momento muito ruim", disse ele, acrescentando que Attawapiskat teve uma onda semelhante de tentativas de suicídio em 2009 e 2010. "Perdi a conta dos estados de emergência."

Attawapiskat fica a aproximadamente 100 km de uma mina aberta de diamantes de propriedade da De Beers, mas tem a distinção nada invejável de ser incomumente pobre, mesmo pelo padrão das comunidades aborígines.

Enquanto a mina de diamantes fornece alguns empregos, a maior parte da comunidade de cerca de 2 mil pessoas sobrevive da caça de alces e renas nos pântanos circundantes, ou da pesca. Suas únicas conexões com o exterior são estradas geladas no inverno ou por via aérea.

Fiddler disse que não houve um padrão claro nas recentes tentativas de suicídio. Homens e mulheres, jovens e velhos tentaram se matar.

Enquanto as drogas e o álcool exerceram um papel em algumas tentativas, Hookimaw-Witt, que tem doutorado em educação, foi professora na comunidade e esteve envolvida em pesquisas acadêmicas sobre isso, disse que nada foi encontrado no organismo de sua sobrinha-neta.

E embora as causas subjacentes possam ser identificadas é difícil isolar o que exatamente detonou as tentativas. Enquanto alguns desses atos de crianças e adolescentes podem ter sido provocados pela morte de Sheridan, sua tia-avó disse que "isso não explica os dos homens mais velhos".

Seja qual for a causa, Hookimaw-Witt disse que ela e outros estão escondendo facas, cordas e medicamentos perigosos. "A coisa entra em nossa casa", disse ela.

A declaração provocou certa ação. Na segunda-feira, o departamento federal de saúde, Health Canada, disse que vai enviar dois conselheiros de saúde mental à área e trabalhará com a autoridade de saúde regional.

A província de Ontário está enviando uma equipe de enfermeiros de saúde mental e assistentes sociais. Seu ministro da Saúde viajará à região esta semana.

Os problemas que Attawapiskat e outras diversas comunidades indígenas enfrentam são conhecidos há tempo. Mas a crise atual chega em um momento em que as relações entre grupos aborígines e o governo federal parecem estar se transformando.

Após dez anos de congelamento pelo governo conservador do ex- primeiro-ministro Stephen Harper, muitos líderes indígenas estão animados com as promessas do premiê Justin Trudeau de dar prioridade a seus problemas.

O Orçamento recente de seu governo incluiu um acréscimo de 8,4 bilhões de dólares canadenses (cerca de R$ 23 bilhões), ao longo de cinco anos, para lidar com questões indígenas.

"Há boas coisas acontecendo em nosso país", disse Fiddler, que se encontrou com Trudeau na sexta-feira (8). "Essa abertura, esse tipo de diálogo, se espalha por diversos departamentos do governo."

Cindy Blackstock, diretora-executiva da First Nations Child and Family Caring Society of Canada, uma entidade de assistência às nações nativas, apresentou um caso que levou o Tribunal de Direitos Humanos do Canadá a decretar em janeiro que o subfinanciamento pelo governo de problemas de jovens nativos é uma forma de discriminação racial. Ela disse esperar que as palavras positivas de Trudeau se transformem em ação concreta.

Blackstock estima que os governos gastam de 30% a 40% mais em crianças não aborígines por meio de diversos programas.

"Esta é nossa bandeira confederada", disse. "Não há desculpa para um país tão rico quanto o nosso ter semelhante discriminação racial."

Hookimaw-Witt disse que viu alguns eventos positivos na crise sombria de sua comunidade. Na semana passada, um grupo de principalmente adolescentes de uma comunidade nativa vizinha caminhou pelas estradas geladas durante dois dias até Attawapiskat para despertar consciência sobre o problema dos suicídios.

Depois de um jantar, disse ela, eles fizeram fila para consolar os parentes de Sheridan enquanto um tambor tocava em ritmo cada vez mais forte.

"Foi muito emocionante; foi sagrado", disse Hookimaw-Witt. "Esses garotos fizeram isso acontecer. Isso me dá esperança."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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