Opinião: A liberdade de expressão não é a única vítima da repressão por Erdogan

Selahattin Demirtas8

  • Refik Tekin/Efe

     Garoto curdo olha para dentro de sua casa cheia de buracos de bala depois de conflitos armados entre membros do PKK e Forças Armadas turcas

    Garoto curdo olha para dentro de sua casa cheia de buracos de bala depois de conflitos armados entre membros do PKK e Forças Armadas turcas

Quando o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, fez recentemente uma visita a Washington, ele deu aos americanos uma amostra do tipo de políticas que emprega em casa. Seus guardas agrediram repórteres do lado de fora de um centro de estudos enquanto uma van declarando "Verdade + Paz = Erdogan" circulava pela capital dos Estados Unidos.

Muitos autores de políticas americanos estão horrorizados com os esforços de Erdogan para eliminar o que resta da liberdade de expressão na Turquia. Até mesmo o presidente Obama reconheceu estar "perturbado" com a direção seguida pelo país, um aliado da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente).

Apesar de o público americano estar certo em ficar preocupado com os esforços de Erdogan para sufocar a liberdade de expressão e prender jornalistas, como curdo, fico triste pelas críticas pararem aí. Raramente há alguma menção real aos abusos cometidos pelo governo na luta contra o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, ou PKK, às deportações de civis, à destruição de cidades curdas e prisão de políticos curdos na Turquia.

Tanto a Europa quanto os Estados Unidos estão fazendo vista grossa às violações de direitos humanos nas cidades curdas da Turquia ao longo do ano passado. Os europeus o fizeram por estarem desesperados para fechar um acordo com Erdogan para que a Turquia contenha os refugiados sírios. Washington, por sua vez, sente que a Turquia é indispensável na luta contra o Estado Islâmico.

Mas permita-me dizer o que essa abordagem pragmática está escondendo: desde o colapso das negociações de paz entre o governo turco e o PKK em meados do ano passado, o país está no caos.

Em agosto do ano passado, grupos jovens curdos próximos do PKK deram início a uma insurreição em algumas cidades curdas. O governo respondeu primeiro com gás lacrimogêneo e balas de borracha, depois com toques de recolher por 24 horas que duravam semanas e, finalmente, com tanques e artilharia. Fotos de algumas das cidades sitiadas parecem com as fotos do início da guerra civil síria. Mais de 300 mil pessoas foram evacuadas de seus lares. O número de mortos é de 1.000, sendo que centenas são civis, segundo a Fundação Turca de Direitos Humanos. Grandes partes das cidades curdas de Cizre, Silopi e da histórica Sur agora são pilhas de escombros.

Apesar de o governo e o PKK terem pontos de vista diferentes sobre o motivo do colapso das negociações de paz, não há dúvida sobre o que motiva a continuidade da campanha militar de Erdogan. Ele está incitando um sentimento nacionalista de olho no possível referendo dos próximos meses, que busca expandir seus poderes constitucionais.

Talvez um pouco de história seja necessário aqui: o povo curdo que vive na Turquia está travando há décadas uma luta por maiores liberdades. Gerações pereceram nas prisões e câmaras de tortura enquanto a Turquia passava por sucessivos golpes militares. Enquanto eu crescia nos anos 70 e 80, não era permitido que falássemos curdo, falássemos sobre falar curdo ou mesmo cantar em curdo. Eu me tornei um advogado de direitos humanos em parte porque meu irmão mais velho foi preso por tentar promover um ativismo popular, a simples organização de manifestações pacíficas sob a égide de um partido político era suficiente para rotulá-lo como terrorista.

Nós avançamos muito em termos dos direitos culturais curdos, mas a Turquia ainda está muito atrasada em relação ao restante do mundo em termos de liberdades democráticas básicas. É verdade, as negociações de paz com o líder curdo preso Abdullah Ocalan nos últimos anos produziram o muito necessário cessar-fogo e um espaço para celebração de nossas posições políticas. Mas de lá para cá, as negociações fracassaram e o governo turco tem buscado reverter esses ganhos. Enquanto isso, o governo turco está tentando expandir suas leis antiterrorismo draconianas para censurar o discurso e outras atividades políticas.

Erdogan se tornou ainda mais intransigente sobre o processo de paz depois que meu partido, o Partido Democrático dos Povos (HDP), que defende os direitos dos curdos, ultrapassou pela primeira vez o limiar de 10% nas eleições parlamentares de junho de 2015 e conseguiu ingressar no Parlamento. Isso impediu o presidente de mudar a Constituição para expandir seus poderes.

Desde meados do ano passado, centenas de membros de nosso partido foram presos e dezenas de prefeitos eleitos foram afastados ou detidos. Enquanto isso, a Turquia está bombardeando os curdos sírios que estão combatendo o Estado Islâmico do outro lado da fronteira, na Síria.

Erdogan está atacando nosso partido precisamente por estarmos atrapalhando a ordem autoritária que ele está tentando estabelecer. O HDP é uma coalizão progressista de turcos, curdos, socialistas, islamitas democráticos, liberais e minorias dedicadas a reformas democráticas, igualdade de gênero, diversidade e direitos curdos. Concorremos com uma lista partidária que incluiu pessoas de muitos grupos étnicos da Turquia, incluindo curdos, turcos, armênios, assírios e yazidis, de todos os segmentos da sociedade. Sou copresidente do partido porque todas as unidades políticas possíveis, dos governos municipais aos diretórios locais, são lideradas por uma parceria entre um homem e uma mulher. Nosso partido foi fundado para fornecer um ponto em comum para todas as pessoas na Turquia que desejam ver mais democracia.

Tudo isso é anátema para o nacionalismo despótico, dominado por homens, alimentado por Erdogan.

Em Washington, Erdogan se apresentou como alguém que está "combatendo o terrorismo" e se queixou de que os Estados Unidos não apoiam sua campanha contra os curdos na Síria e na Turquia. Alguém deveria lhe dizer que ele está se transformando em uma fonte de instabilidade no Oriente Médio. Ao pôr fim ao processo de paz com o PKK, ao criar um Estado de segurança repressor, ao engavetar o primado da lei e reprimir a liberdade de expressão, ele está afogando o que restou da democracia da Turquia, tornando este país mais suscetível do que nunca ao radicalismo e a conflitos internos.

*Selahattin Demirtas é um copresidente do Partido Democrático dos Povos

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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