Letônia quer proibir véu que cobre o rosto para as 3 mulheres que os usam

Richard Martyn Hemphill

Em Zaube (Letônia)

  • Reinis Hofmanis/The New York Times

Com seu niqab, o véu islâmico que cobre o rosto e revela apenas os olhos de quem o usa, Liga Legzdina se destaca em meio aos pinheiros, pastagens e chalés de madeira na aldeia letã de Zaube.

Os aldeões a encaram. Legzdina é uma dentre o número minúsculo de mulheres (estimadas em três) que usa o niqab neste país báltico, cuja população de menos de 2 milhões inclui cerca de 1.000 muçulmanos praticantes, segundo estimativas do governo.

Mas para o Ministério da Justiça da Letônia, três niqabs são demais. Citando o desejo de proteger a cultura letã e tratar de preocupações de segurança em um momento de crescente imigração para a Europa, o governo está trabalhando em uma legislação proposta, inspirada em parte por restrições semelhantes na França, que proibiria véus que cobrem o rosto em espaços públicos. A proposta não proibiria o uso de lenços de cabeça que não cobrem o rosto, como os hijabs, de uso mais comum entre as mulheres muçulmanas.

"A tarefa do legislador é adotar medidas preventivas", disse o ministro da Justiça, Dzintars Rasnacs, um membro do partido Aliança Nacional anti-imigração, que previu que a lei contará com apoio esmagador no Parlamento e que deve entrar em vigor a partir de 2017.

A legislação na Letônia é uma expressão da preocupação mais ampla com a imigração em geral e com os muçulmanos em particular por toda a Europa Central e Oriental, à medida que os imigrantes chegam ao continente vindos do Afeganistão, Oriente Médio e África. Hungria, Eslováquia e Polônia estão entre os países que mais se opõem a receber um grande número de imigrantes, refletindo as tendências anti-imigrantes e antimuçulmanas em suas sociedades. Até mesmo na remota Letônia, longe de ser um destino procurado pelos imigrantes, dado seus invernos gelados e fraco sistema de bem-estar social, um senso sombrio de medo emana dos políticos, da mídia e da população em geral.

Veja o caso de Legzdina, 27, que não é uma imigrante, mas uma letã que se converteu ao Islã após uma viagem ao Egito na adolescência.

Agora uma estudante de medicina em uma universidade em Riga, a capital, Legzdina, que atende pelo nome de Fatima, vem para Zaube toda primavera e verão em férias com seus dois filhos pequenos. Seu marido, Viesturs Kanders, adotou a fé islâmica dela no dia em que se casaram.

Fora as roupas, orações e jejum regular dela, a vida em Zaube segue o padrão rural letão quase a ponto de ser clichê, incluindo o colhimento de flores ou cogumelos dependendo da estação, uma forte tradição letã.

"Eu adoro meu país", ela disse com orgulho. Mas ela disse que se sente ameaçada pela forma como as pessoas respondem à sua aparência.

"As pessoas se tornaram mais agressivas do que antes", ela disse. Quando não está em férias em Zaube, ela vive em um subúrbio de Riga, onde suas viagens diárias nos transportes coletivos está se tornando repleta de agressões verbais. As interações em ônibus e bondes, ela disse, com frequência envolvem lhe dizerem para voltar de onde veio, e tendem a terminar em momentos embaraçosos, quando ela responde à pessoa que a confronta em letão perfeito.

"Se elas têm tanto medo, isso mostra que não são tão fortes, que não acreditam em sua própria cultura", ela disse.

Rasnacs, o ministro da Justiça, disse que a lei não se trata do número de pessoas cobrindo seus rostos na Letônia, mas sim em assegurar que imigrantes potenciais respeitem as normas deste país pequeno e homogêneo.

Sentado ao lado da bandeira branca e escarlate da Letônia durante uma entrevista em Riga, Rasnacs acrescentou: "Nós não estamos protegendo apenas os valores culturais e históricos letões, mas os valores culturais e históricos da Europa".

Como outros países na região, a Letônia tem relutado em aceitar números consideráveis de imigrantes que chegaram ao continente ao longo do último ano, com mais de 1 milhão indo parar na Alemanha. Após longas negociações, a Letônia concordou em aceitar até 776 refugiados ao longo dos próximos dois anos, sob o esforço hesitante da União Europeia de reassentar os refugiados entre todos os seus 28 países membros.

Até o momento, apenas seis dos 776 chegaram. Mas questões práticas de políticas como moradias e integração permanecem ofuscadas por crescentes discussões temerosas a respeito do Islã, provocadas pela cobertura regular do noticiário associando a religião a ataques terroristas, ataques sexuais e guerras civis, e pela ausência de experiência histórica com os muçulmanos entre a população, somadas às lembranças traumáticas do passado do país sob o governo soviético. Por quase 50 anos, o país não teve controle sobre sua política de migração, o que resultou em uma grande minoria de língua russa.

Com a minúscula minoria de muçulmanos prestes a se juntar ao diálogo, o debate público se alargou aos extremos.

Leons Taivans, um professor de estudos religiosos da Universidade da Latônia, em Riga, refletiu sobre os temores mais amplos na região com o afluxo de muçulmanos, especialmente na extrema-direita, que prevê "invasões islâmicas".

Ao mesmo tempo, um porta-voz do Centro Islâmico Letão, Roberts Klimovics, provocou consternação ao traçar paralelos entre as tropas letãs da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar do Ocidente) que estão combatendo no Afeganistão e em Mali, e os europeus que viajaram para a Síria para lutar pelo Estado Islâmico. Ele até mesmo previu que a lei Shariah poderia ser estabelecida na Letônia.

Em uma entrevista em sua casa de fazenda fora de Riga, Klimovics, que também é cineasta e um ex-apresentador de um programa de namoro na televisão letã, disse que suas posições lhe renderam ostracismo, e que o apuro dos muçulmanos na Letônia está se tornando semelhante aos dos judeus na Alemanha antes da Segunda Guerra Mundial.

"Agora, eu não me sinto mais como um cidadão local", disse Klimovics. "Eu me sinto como um estranho. Agora partir está muito mais fácil para mim."

Esse senso de alienação, ele disse, é o motivo para um de seus amigos, o ex-presidente do Centro Islâmico Letão, Oleg Petrov, que agora se chama Imran, ter ido para a Síria lutar ao lado do Estado Islâmico.

Klimovics disse ter ficado decepcionado com a decisão dele. "Eu lhe disse: 'Você era para mim uma das melhores pessoas no mundo'", ele disse, acrescentando que agora vê Petrov como sendo "como todas aquelas pessoas que matam outras por acharem que devem controlar o mundo".

Apesar dos fiéis na Mesquita de Riga dizerem que os voluntários para o Estado Islâmico representam uma minoria minúscula dentro de uma minoria já pequena, e qualquer radicalização é fortemente desencorajada pela maioria das poucas centenas de fiéis ativos da mesquita, os veículos de notícias locais exageram o noticiário e deixam os nervos à flor da pele.

Aqueles que viajaram para a Síria, apesar de exceções, bastam para convencer muitos dos políticos letões que a chegada dos imigrantes muçulmanos poderia representar novas ameaças à segurança.

"Acho que cobrir a face em público em um momento de terrorismo representa um risco à sociedade", disse Vaira Vike-Freiberga, uma ex-presidente da Letônia cuja família fugiu do país quando ele foi tomado pela União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial. "É simples assim."

"Qualquer pessoa pode estar sob um véu ou burca", ela disse. "É possível carregar um lançador de foguetes sob seu véu. Não é engraçado."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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