Família de vítima de massacre de Paris processa fotógrafa por imagem publicada

Dan Bilefsky

  • Capucine Granier-Deferre/The New York Times

    Maya Vidon-Whitem, que fez a fotografia contestada na Justiça pela família da vítima

    Maya Vidon-Whitem, que fez a fotografia contestada na Justiça pela família da vítima

Na noite de sexta-feira, 13 de novembro, Maya Vidon-White, como muitos parisienses, estava jantando fora com amigos. Mas no momento em que soube que terroristas empunhando fuzis Kalashnikov estavam atacando a sala de espetáculos Bataclan, ela pegou sua câmera, montou em sua scooter e acelerou até o local.

Vidon-White, 48 anos, uma fotógrafa de guerra francesa que passou mais de uma década cobrindo conflitos em Israel, Indonésia e África, começou instintivamente a procurar por vítimas. Enquanto os feridos começam a acumular em um centro de emergência improvisado em uma praça próxima da sala de espetáculo, ela lembrou, ela viu uma pessoa caída no chão.

O homem, Cédric Gomet, 30 anos, um funcionário do canal de televisão francês "TV5Monde", era um ávido guitarrista com apreço por tatuagens e estava assistindo ao concerto no Bataclan quando foi baleado na cabeça. Ele estava caído de lado, de cueca, com o rosto coberto de sangue e em pose agonizante. Ela apontou sua câmera. Quando um carro de bombeiros próximo abriu suas portas e ele foi momentaneamente banhado em luz, ela clicou.

Agora, Vidon-White se vê involuntariamente no centro de um caso na Justiça francesa que coloca a liberdade de imprensa e o imperativo jornalístico de documentar um evento noticioso importante contra a prerrogativa legal e moral de proteger a dignidade e privacidade das vítimas de terrorismo.

A foto dela de Gomet, que morreu 24 horas depois dos ataques, foi publicada na "VSD", uma revista semanal conhecida por suas histórias escabrosas de celebridades. Um mês depois de tirá-la, Vidon-White, que estava trabalhando como freelancer para a agência de notícias United Press International, com sede em Washington, foi informada pelo gabinete do promotor de Paris que ela tinha infringido a lei.

O caso é um exemplo vívido de como, neste era de terrorismo do Estado Islâmico, jornalistas de todo o mundo estão lidando com as questões éticas de como fazer a cobertura de ataques. Eles precisam equilibram as exigências de cobrir notícias de última hora e transmitir a realidade, por mais perturbadora que seja, com o desejo de evitar sensacionalismo e respeitar os limites das vítimas, sobreviventes e seus familiares.

Ele também mostra as armadilhas legais complexas e as contradições em uma era de comunicação global. As imagens cruzam as fronteiras de Estados e sociedades com leis e sensibilidades amplamente diferentes em relação à privacidade, expondo potencialmente os jornalistas a processos que dificilmente preveriam.

As leis em relação à privacidade são particularmente rígidas na França.

Os promotores acusaram Vido-White e a "VSD" de infringirem a lei Guigou, que leva o nome da ex-ministra da Justiça Élisabeth Guigou. Ela proíbe a publicação de fotos de sobreviventes de crimes violentos, incluindo ataques terroristas, sem a permissão deles, com base de que fazê-lo "viola seriamente" o direito delas à dignidade humana. A família de Gomet e sua companheira estão pedindo 43.592 euros, ou mais de R$ 175 mil, em indenização, incluindo despesas legais.

Os advogados de Vidon-White, que é cunhada de um editor do "The International New York Times" em Paris, e da "VSD" argumentam que o caso deveria ser rejeitado. Segundo a lei Guigou, apenas o sobrevivente de um crime pode impetrar uma queixa criminal, eles dizem, e Gomet estava morto quando o artigo foi publicado.

Em abril, Vincent Tolédano, o advogado de Vidon-White, pediu à Justiça criminal de Paris que arquive o caso e o tribunal proferirá sua decisão em 20 de maio.

"O promotor está tentando transformar o tribunal em um fórum para catarse das vítimas", disse Tolédano. "Mas isso cabe à psicologia ou a um hospital, não a um tribunal de Justiça".

Além disso, notaram Vidon-White e seu advogado, não foi ela que publicou a foto, nem tinha qualquer elo contratual com a "VSD" e nem recebeu qualquer pagamento da "VSD".

Eles argumentam que Vidon-White não tinha conhecimento de que a agência tinha vendido sua foto  para a agência de fotos francesa Maxppp, que por sua vez a vendeu para a "VSD", que a publicou em uma página dupla em 17 de novembro com a manchete "Um concerto de rock sacudido por um banho de sangue real".

A revista não citou nominalmente Gomet, mas juntou a foto ao relato angustiante de um sobrevivente do massacre no Bataclan, também chamado Cédric, descrevendo o som dos gritos enquanto ele fugia da sala. (Vidon-White não sabia o nome de Gomet quando entregou a foto, de modo que esta não o identifica.)

A Associated Reporters Abroad, um grupo freelance com sede em Berlim para o qual Vidon-White estava trabalhando no momento dos ataques, disse que os promotores franceses estão sendo excessivamente zelosos em sua tentativa de "mostrar ao público enlutado, assim como à família da vítima, que estão agindo após os ataques terroristas, e distorcendo a lei francesa para fazê-lo".

Jabeen Bhatti, a editora administrativa da Associated Reporters Abroad, disse que o processo contra Vidon-White pode colocar em risco a liberdade de imprensa. "O que virá a seguir: processar os repórteres por entrevistarem as vítimas?" ela perguntou.

Mas Jean Sannier, um advogado da família Gomet, rebateu que o desespero desta foi amplificado pela publicação de uma foto que ele disse ser "voyeurista" e que mostrava cruelmente o sofrimento de Gomet. Ele acusou Vidon-White de erotizar uma vítima moribunda de terrorismo, seminua e caída na rua.

"A foto é vulgar e indecente, e teria sido mais poderosa se você não pudesse ver o rosto", ele disse. "Os pais dele foram forçados a ver seu filho agonizando, com o impacto da bala, com seu rosto coberto de sangue, quase só. É simplesmente terrível."

Vidon-White disse que apenas estava fazendo seu trabalho.

"Meu trabalho é mostrar a realidade e isso nem sempre agrada as pessoas", ela disse. "Eu queria transmitir o impacto dos ataques e como a França foi ferida." Ela acrescentou: "Eu também vivo aqui".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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