Contrabandistas na Cisjordânia abrem portas para empregos em Israel, e também para a violência

James Glanz e Rami Nazzal

Em Dahiyat al Barid (Cisjordânia)

  • Daniel Berehulak/The New York Times

    Contrabandista atravessa trabalhadores palestinos por segmento do muro que separa Israel da Cisjordânia

    Contrabandista atravessa trabalhadores palestinos por segmento do muro que separa Israel da Cisjordânia

Às 4h15 em uma rua sem saída, um palestino de 33 anos saiu correndo das sombras entre os prédios com uma frágil escada de madeira. Ele a encostou no enorme muro de concreto e subiu, pendurando-se nos últimos 2 metros porque a escada era curta.

O muro, que Israel começou a construir há mais de uma década para conter os homens-bombas da segunda intifada, deveria evitar que palestinos residentes na Cisjordânia ocupada entrem em Israel fora dos postos de controle, onde seus documentos são examinados.

Mas o palestino se pendurou em uma brecha na cerca concertina que cobre a maior parte dos 640 km do muro sinuoso. Ele fez um gesto para um carro de passeio branco que tinha parado lentamente abaixo e, um a um, quatro rapazes saíram do carro, subiram a escada de 13 degraus e desceram do outro lado, escorregando por uma corda.

Em poucos minutos, outro carro levava os homens para canteiros de obras em Israel, onde eles não tinham permissão de trabalho, e o homem com a escada partia em busca de mais candidatos a empregos dispostos a pagar pela escalada do muro.

"Na Cisjordânia você tem traficantes", disse o homem, que, como mais de 20 outros palestinos entrevistados para esta reportagem, falou sob a condição do anonimato porque estava infringindo a lei. "Você pode chamá-los de traficantes ou de intermediários."

Essa travessia furtiva antes do amanhecer faz parte de uma pujante indústria de contrabando que permite que um número indefinido de pessoas passe por cima, por baixo ou ao redor do que Israel chama de barreira de segurança --por um preço.

Daniel Berehulak/The New York Times
Contrabandistas atravessam palestinos através de arame farpado na fronteira entre Israel e a Cisjordânia

Essa atividade oferece benefícios econômicos a todos os envolvidos: trabalhadores palestinos ganham salários que são o dobro ou o quádruplo do alcançado na Cisjordânia; os empreiteiros e donos de restaurantes israelenses pagam menos pelo trabalho ilegal do que a palestinos com licença; e os contrabandistas recebem de US$ 65 (R$ 219,00) a US$ 200 (R$ 676,00) de cada pessoa que atravessam. A punição para os que são apanhados, geralmente, é ser enviados de volta ao outro lado.

O sistema abre um buraco no sistema israelense que regula o acesso dos palestinos ao mercado de trabalho e tem implicações para a segurança: atacantes como os dois palestinos que mataram quatro pessoas este mês em um café em Tel Aviv também passam.

Os dois viviam em Yatta, uma aldeia no sul da Cisjordânia, perto de onde a barreira inacabada consiste principalmente em uma cerca metálica com diversos buracos e brechas. Micky Rosenfeld, um porta-voz da polícia israelense, disse que eles entraram em Israel de forma ilegal, "provavelmente por uma das áreas que estão abertas ou inconclusas".

A agência de segurança de Israel, Shin Bet, diz que de 1º de outubro do ano passado até 1º de fevereiro 21 palestinos que atacaram israelenses estavam no país ilegalmente.

Desde o ataque em Tel Aviv, o Ministério da Defesa israelense prometeu implantar uma forma mais eficaz de barreira ao sul, área muito usada pelos traficantes. Mas a outra reação do governo às mortes, o cancelamento de 83 mil licenças especiais para palestinos cruzarem a fronteira no mês sagrado do Ramadã, poderá revelar como é difícil conter o fluxo.

No posto de controle de Qalandiya, perto da cidade de Ramallah, na sexta-feira após o ataque, homens se posicionaram junto da multidão inquieta que não podia mais passar e gritava "tahreeb, tahreeb" --"contrabando, contrabando" em árabe.

"Temos de entender que você nunca resolverá o problema", disse Nitzan Nuriel, um general-brigadeiro aposentado e ex-chefe do órgão de contraterrorismo do governo israelense. "Onde quer que haja trabalhadores ilegais, faz parte da realidade, faz parte da economia."

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O trabalhador palestino Ahmad, 19, que atravessa ilegalmente a fronteira para trabalhar, olha para Israel de sua casa na Cisjordânia

O desafio, segundo Nuriel, que hoje é um especialista em contraterrorismo no Centro Interdisciplinar de Herzliya, é separar os potenciais terroristas dos trabalhadores comuns. "Você tem de decidir qual peixe vai pegar e qual vai deixar solto", disse ele.

Baixo risco, alta recompensa

A economia do negócio do contrabando é simples, e irresistível.

O desemprego entre os palestinos da Cisjordânia é de aproximadamente 20%, e ainda maior entre os jovens. Os salários iniciais por dia, segundo Khalil Shikaki, diretor do Centro Palestino para Política e Pesquisa, em Ramallah, são de 70 a 80 shekels (cerca de R$ 61 a R$ 68). Vários palestinos que trabalham ilegalmente em obras em Israel disseram que ganham de R$ 270 a R$ 340 por dia.

Isso ainda é um bom negócio para as empresas israelenses, que têm de tratar os palestinos que possuem licença de trabalho do mesmo modo que os israelenses em termos de salários e benefícios, cobrindo dias de licença médica, férias, seguro-saúde e aposentadorias.

Há aproximadamente 55 mil palestinos com licenças trabalhando em Israel, e outros 20 mil nos assentamentos, segundo o Ministério do Trabalho palestino. Isso é menos que o pico de 140 mil antes da segunda intifada, em 2000, diz o ministério (quando a população era cerca de dois terços da atual).

As estimativas sobre o número de trabalhadores ilegais são variadas. Shikaki disse que 30 mil é um palpite razoável; para Nuriel, chega mais perto de 60 mil, dependendo da época do ano. A maioria trabalha na construção, na agricultura ou em restaurantes.

Daniel Berehulak/The New York Times
Trabalhadores com permissão para trabalho esperam para cruzar o posto de passagem de Qalandiya, entre a Cisjordânia e Israel

Segundo Rosenfeld, o porta-voz da polícia, centenas de trabalhadores ilegais são apanhados todos os anos, mas as autoridades estão "concentradas em prender os que tentam trazer os palestinos ilegalmente".

Na primeira vez em que uma pessoa é apanhada em Israel sem autorização, disse ele, a polícia apenas registra o incidente e a solta para voltar à Cisjordânia. Os infratores reincidentes "irão ao tribunal" e poderão enfrentar outras penas, segundo Rosenfeld, acrescentando que qualquer suspeito de ligação com o terrorismo é enviado aos militares.

Mas trabalhadores palestinos que foram detidos várias vezes disseram em entrevistas que as consequências mais sérias que enfrentaram foram um interrogatório e ser deixados em um posto de controle o mais distante possível de onde foram pegos.

Nuriel, o perito em contraterrorismo, disse que seria caro demais manter uma população tão grande na cadeia e que até as detenções generalizadas não são práticas. "Quem irá interrogá-los?", perguntou.

Terrorismo prejudica os negócios

Em nenhum lugar a passagem é mais perigosa que no sul da Cisjordânia, onde provavelmente cruzaram os suspeitos atacantes de Tel Aviv, que são primos.

"Você não sabe com quem está andando", disse Mahmoud Khalil, 19, um palestino que trabalhava em uma construção em Israel, mas não tinha licença.

Khalil é de Yatta, como os suspeitos, mas disse que não conhecia os primos e veio a Israel só para ganhar dinheiro para sua família. Ele disse que pagou 250 shekels para passar em segurança por uma grande brecha na barreira perto da aldeia de Dahriya, a sudoeste de Yatta, e pelo transporte até o local de trabalho.

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Contrabandista palestino direciona carro cheio de trabalhadores através de fronteira na Cisjordânia

Em um dia recente perto de Dahriya e da vizinha Ramadin, caminhonetes lotadas de trabalhadores ilegais jogavam "gato e rato" com jipes Humvee israelenses, correndo de buraco em buraco na barreira enquanto os contrabandistas se comunicavam por telefone. Trabalhadores e contrabandistas entendem que o terrorismo é ruim para os negócios.

Um motorista dos contrabandistas em Dahriya, que falou sob a condição de ser identificado apenas como Abu Ramzi, disse que ele e seus colegas alertam as forças de segurança palestinas à primeira sugestão de que um cliente pretende cometer violência em Israel. Ele se queixou de que os militares israelenses intensificaram as patrulhas na barreira sul depois do tiroteio em Tel Aviv.

"Antes desse último ataque, o Exército agia como se nada estivesse acontecendo --30 ou 40 trabalhadores podiam atravessar para Israel ao mesmo tempo", disse Abu Ramzi, 34. "Esse ataque complicou nossa operação."

Mas, disse ele, "sempre vamos encontrar meios de atravessar os trabalhadores".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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