Após o Brexit, a Alemanha pode liderar a Europa sozinha?

Anna Sauerbrey*

Em Berlim (Alemanha)

  • 22.03.2007 - AFP

Independente de a decisão do Reino Unido de sair da União Europeia ser um desastre ou apenas um solavanco na estrada para a Europa, em seu caminho para a unificação, uma consequência já é abundante e perturbadoramente clara: a Brexit cimentará o papel da Alemanha como líder do continente, um papel com o qual nem a Alemanha e nem ninguém fica totalmente à vontade.

Ela raramente se sentiu tão solitária no centro da Europa. Com a saída do Reino Unido, a Alemanha está perdendo um importante parceiro dentro da União Europeia, assim como na política externa além dela.

Isso não quer dizer que o Reino Unido foi um parceiro fácil nos últimos anos. A mente fica desconcertada com o que a chanceler Angela Merkel da Alemanha, conhecida por suas políticas cautelosas, passo a passo, deve ter pensado do primeiro-ministro David Cameron ter colocado a filiação de seu país na mesa de apostas em uma tentativa de chantagear a União Europeia. Merkel é uma europeísta comprometida; Cameron chamou a união de "grande demais, mandona demais, intrometida demais".

Mesmo assim, dadas as pressões nativistas crescendo em praticamente todos os países na Europa, Cameron era considerado um parceiro muito bom. Ele foi um forte apoiador das políticas de austeridade defendidas por Berlim durante a crise financeira e a crise grega que se seguiu.

Ele defendeu o acordo a respeito dos refugiados que Merkel acertou com a Turquia. E quando os líderes da Alemanha, França e Itália ligaram para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, para lhe dizer que parasse de apoiar o presidente da Síria, Bashar al-Assad, Cameron prontamente apoiou.

E Cameron trouxe mais do que apoio pessoal à mesa. O Reino Unido possui o maior orçamento militar na Europa e um corpo diplomático de primeira linha, sem contar uma economia que, mesmo não funcionando a todo vapor, estava aquecida em comparação a grande parte do restante do continente.

A saída do Reino Unido é um golpe particularmente duro para a Alemanha, já que seus demais parceiros são fracos ou estão se tornando cada vez mais distantes. O relacionamento germano-polonês, antes forte, está ruindo desde que o nacionalista Partido Lei e Justiça chegou ao poder na Polônia em 2015. A Áustria por pouco não elegeu Norbert Hofer, da extrema direita, como presidente.

E a França... bem, é complicado.

À primeira vista, o eixo franco-alemão, que serviu como espinha de aço da União Europeia por décadas, parece mais forte do que nunca. Apenas poucas horas depois do anúncio da vitória da campanha pela saída do Reino Unido, o jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" citou extensamente um artigo conjunto por Jean-Marc Ayrault, o ministro das Relações Exteriores francês, e por seu par alemão, Frank-Walter Steinmeier, sobre o futuro da Europa. "A Europa precisa ser guiada agora", disse o artigo. "É responsabilidade da Alemanha e da França fornecer essa direção."

Mas a França também é uma parceira difícil. O presidente François Hollande não conta com a confiança nem da população (ele conta com apenas 13% de aprovação segundo uma pesquisa realizada em junho) e nem de seu Partido Socialista. Ele está sob imensa pressão da Frente Nacional de extrema direita, que espera obter cerca de um terço dos votos na eleição presidencial do ano que vem, e dos poderosos sindicatos da França, que são contrários às modestas reformas trabalhistas ao estilo anglo-germânico de Hollande. Tudo isso (e a economia perpetuamente fraca) o deixa incapaz de exercer uma forte liderança dentro da Europa, muito menos no exterior.

É verdade que a Brexit não exige um fim da cooperação entre o Reino Unido e a Alemanha. Mas o Reino Unido enfrenta um longo período de introspecção, politicamente, ao lidar com a implosão de seus principais partidos políticos, uma extrema direita empoderada e a possibilidade da independência da Escócia. No futuro próximo, a Alemanha estará sozinha, um papel que não apenas não buscou, como também às vezes ativamente resistiu.

Em um ensaio para a revista "Foreign Affairs", publicado cerca de duas semanas antes do referendo britânico, Steinmeier, o ministro das Relações Exteriores alemão, rejeitou qualquer interesse de seu país na liderança continental. "As circunstâncias o forçaram a um papel central", ele escreveu. "Preservar essa união e compartilhar o fardo da liderança estão entre as maiores prioridades da Alemanha."

O problema é que uma das razões centrais para a existência da União Europeia era restringir o poder alemão ao dispersar os papéis de liderança entre seus membros. Mas o que acontece quando o futuro da união depende, supostamente, de uma nova afirmação do poder alemão?

A reação imediata da Alemanha ao referendo do Brexit foi um pedido por um novo arranjo de divisão do fardo com o que restou da velha turma. No sábado após a votação, os ministros das Relações Exteriores dos membros fundadores da União Europeia (Bélgica, França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Holanda) se reuniram em Villa Borsig, um retiro do governo alemão em Brandemburgo. Na segunda-feira, Merkel convocou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk; o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi; e o francês Hollande para virem a Berlim.

A relevância do fato de que ela pôde convocar seus colegas para seu próprio campo para discutir como compartilhariam parte do fardo recém-descartado pelo Reino Unido não passou desapercebido.

Jaroslaw Kaczynski, o líder do Partido Lei e Justiça da Polônia, chamou a ideia de convocar apenas a velha guarda da união de "um pouco irrefletida". E o primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, se queixou na cúpula da União Europeia da semana passada sobre a formação de "pequenos clubes" dentro da união.

Daí o dilema. A Alemanha não pode fazer tudo sozinha e também não quer. Mas sem um parceiro forte com o qual compartilhar a liderança, ele tem a opção intragável de transferir poder para um grupo maior de parceiros não confiáveis, ou criar um novo círculo interno. Ninguém deseja dar ao Lei e Justiça uma cadeira à mesa. Mas negá-la apenas fortalece os narcisismos nacionais em países já perturbados pelo euroceticismo, dividindo ainda mais o continente.

Isso significa que a Alemanha poderá ter que assumir o comando. É uma tarefa delicada. Mas agora que a Alemanha se vê no centro do palco, ela terá que se apresentar.

* Anna Sauerbrey é editora da página de opinião do jornal alemão "Der Tagesspiegel"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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