Promessa de acabar com solitária para jovens de presídio nos EUA avança lentamente

Michael Winerip e Michael Schwirtz

  • Victor J. Blue/The New York Times

    Ariel Martinez em sua cela solitária na Ilha de Rikers, em Nova York

    Ariel Martinez em sua cela solitária na Ilha de Rikers, em Nova York

Na época, foi um anúncio momentoso: as autoridades municipais de Nova York disseram que eliminariam o confinamento solitário na Ilha Rikers para todos os presos com menos de 22 anos.

A declaração, feita em janeiro de 2015, colocou o Departamento Correcional municipal há muito problemático na vanguarda dos esforços nacionais de reforma carcerária.

Mas um ano e meio depois, a administração do prefeito Bill de Blasio ainda tem dificuldade em executá-la. A prefeitura estourou outro prazo na semana passada e agora está pedindo uma segunda prorrogação de seis meses. As autoridades municipais prometeram originalmente por um fim ao uso da punição para os jovens adultos até janeiro de 2016.

A maioria dos 78 jovens adultos que estavam em isolamento no início do ano foi retirada. Mas apesar de a prefeitura ter agora eliminado a segregação para aqueles entre 16 a 18 anos, ainda restam alguns presos mais velhos, mais difíceis, que permanecem por causa de graves problemas disciplinares, segundo o comissário correcional, Joseph Ponte, de forma que, ao menos por ora, a segregação ainda é necessária.

À medida que o confinamento solitário é reduzido, a violência no presídio entre jovens adultos aumentou significativamente, escreveu Ponte em uma carta à agência de fiscalização carcerária municipal na semana passada. O sindicato dos agentes correcionais há muito argumenta que encerrar o uso da segregação colocaria em risco os guardas e levaria à maior violência.

A eliminação do confinamento solitário é uma proposta cara e de trabalho laborioso. Para substituí-lo, a prefeitura criou unidades de supervisão aprimoradas, com dois oficiais e um conselheiro para cada 12 presos. Há não muito tempo, um bloco de celas típico era supervisionado por um guarda para cada 50 presos.

Há poucas semanas, o "New York Times" entrevistou vários dos nove presos restantes com menos de 22 anos ainda em isolamento em uma parte do presídio conhecida como Unidade de Segregação Sul 3. Um agente correcional e um membro da assessoria de imprensa do comissário estavam presentes para entrevistas; os presidiários estavam presos com correntes a uma parede.

Richard Delgado, 21, indiciado por homicídio

"Na primeira semana já vim para a solitária, pois quebrei a mandíbula de um sujeito. Ele era bem grande, então isso aumentou meu ego."

Desde que chegou a Rikers, em março de 2015, Delgado disse que passou cerca de 40 dias na solitária. Ele disse que às vezes a vida na solitária é um alívio da violência dos presos comuns.

"Eu passei a semana toda brigando", ele disse. "Então, tipo, era finalmente uma folga. Eu costumava acordar e tomar café às 4h ou 5h da manhã. Era preciso brigar pelo seu cereal, então eu nem mesmo escovava os dentes. Meu coração batia acelerado, eu tinha que estar preparado. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu estava exausto."

Esse sentimento de segurança durou apenas poucas horas, ele disse. Outros presos gritam constantemente e ele perdeu privilégios, como a ida ao refeitório e três telefonemas por dia.

Delgado entra e sai de Rikers desde os 16 anos, a maioria passagens breves por drogas e outros crimes menores. Desta vez ele potencialmente pegará uma sentença de décadas pelo assassinato de um homem de 21 anos em Queens.

"Eu penso a respeito... droga, posso passar o resto da minha vida aqui", ele disse. "É por isso que preciso ter um rádio ou algo para afastar meu pensamento disso, conversar com alguém."

Ele aguarda ansiosamente pelas visitas de sua namorada. "Ela me mantém em paz. Ele faz com que me recorde do que eu tinha na cidade."

Devido ao seu envolvimento constante em problemas, ele e sua namorada são separados por uma partição de vidro durante as visitas. Ele não a beija desde setembro.

"Esqueci como é a sensação dos lábios dela."

Kelvin Busgith, 21 anos, indiciado por tentativa de homicídio

Busgith fez várias passagens pelo isolamento durante suas seis estadias em Rikers, a maior por seis meses em 2014, quando tinha 18 anos. Ele disse que não teve escolha, a não ser brigar, para que não o vissem como fraco. "Não gosto de ficar no isolamento, mas devido às circunstâncias, às vezes tenho que ficar."

Durante o tempo todo em que estava sendo entrevistado, um preso na Cela 11 próxima ficou gritando obscenidades. Busgith disse que nem dá mais atenção. "Ele faz isso o tempo todo", ele disse. "Está apenas matando tempo."

Busgith tenta fazer o tempo passar mais rápido. "Você toma a medicação para dormir o dia todo", ele disse. "Você conversa com seus colegas. Estou trancado há muito tempo. Tenho muitos colegas. É preciso ser louco para permanecer em uma cela por 23 horas por dia. Algumas pessoas gostam de ficar trancadas por abrigo e comida. Não sou desse tipo. Tenho uma vida lá fora."

Ele tem um irmão mais velho, Michael, que cumpre pena na Instalação Correcional de Southport, em Pine City, Nova York, um presídio de segurança máxima onde todos os presos são mantidos na solitária. "Ele também está na solitária agora", disse Bisgith. "Ele vai cumprir um ano e meio."

Apesar de Busgith nunca ter estado no interior, ele diz que seu irmão lhe disse que é melhor cumprir pena lá do que em Rikers.

Busgith disse que nos presídios no interior "a duração das visitas é mais longa" e há mais tempo de recreação. "Tem coisas melhores para fazer, os refeitórios são melhores. Tudo é melhor no interior. É aberto, você fica ao ar livre. Ar fresco. Você não respira nada dessa coisa da Ilha Rikers."

Tyshawn  Waddy, 21 anos, indiciado por homicídio

"Se tivéssemos os mesmos privilégios dos demais presos, não me importaria de ficar aqui", disse Waddy. "É tranquilo, você fica na sua. Está seguro. Tem seu próprio espaço, sua própria cama, sua própria privada. Você tem que ter tempo para si mesmo. Entre os outros, você tem que se preocupar com as diferentes personalidades e tudo mais que acompanha a vida no presídio."

Waddy estava em confinamento solitário por cerca de 30 dias. Esta é sua primeira passagem por Rikers. Ele já está ali há dois anos e meio aguardando por julgamento e passa grande parte de seu tempo lendo livros, "coisas de gângsteres", e se exercitando. "Cinquenta flexões, depois 50 abdominais, 50 mergulhos, 50 polichinelos. Alivia o estresse."

Quando ele olha pela pequena janela de sua cela, ele disse, ele só consegue ver um pouco a televisão pendurada na coluna de suporte no centro daquele bloco de celas, apesar de não ouvir o som.

Ele disse que não se importa com o fechamento da unidade de solitária. "Só estou tentando voltar para casa", ele disse. "Não presto atenção no que está acontecendo."

Ariel Martinez, 21 anos, indiciado por tentativa de agressão

Apesar de Martinez estar neste país há apenas três anos, esta já é sua quarta passagem por Rikers. Ele fugiu de Honduras para os Estados Unidos, ele disse, depois que um grupo de homens assassinou seu pai. "Eu vi quando eles o mataram", disse Martinez. "Eu estava lá."

Para quebrar a solidão, os presos se debruçam nas portas de aço das celas e gritam uns para os outros. Eles gritam pelas aberturas de ventilação. Durante a única hora em que passam do lado de fora, em que passam sozinhos em um cercado de recreação vazio, eles conversam pela cerca de arame.

Martinez só fala espanhol, o que o isola ainda mais que a maioria. Na solitária, os presos ficam à mercê dos guardas para suas necessidades mais básicas, como refeições, banho, atendimento médico. Eles gritam e batem na porta da cela para chamar a atenção do guarda.

"Não consigo conversar com as pessoas; alguém tem que traduzir", disse Martinez em espanhol. "É estressante. Às vezes os guardas gritam com você. É difícil usar o telefone, conseguir as coisas."

Ele acha bom que a prefeitura esteja acabando com o confinamento solitário para presos de sua idade. "Isso dá às pessoas uma segunda chance", ele disse. "As pessoas trazidas para cá podem não entender."

Para passar o tempo, ele lê se tiver um livro ou uma revista, sendo a "National Geographic" a favorita. E pensa no seu caso. "Estou diante de uma oferta de três anos e meio", ele disse, "e tenho que aceitar ou não".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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