Vladivostok atrai chineses, que ainda reclamam de "roubo" russo no território

Andrew Higgins

Em Vladivostok (Rússia)

  • Martin Bureau/AFP

Cui Rongwei, um empresário do nordeste da China, não podia pagar por uma viagem a Paris, então decidiu ter um sabor exótico de Europa ali mesmo, na porta da China. Ele gostou tanto de Vladivostok que fez três viagens a essa cidade tão surpreendente e diferente de sua terra natal, a poucas dezenas de quilômetros de distância.

Como quase todos os chineses que visitam uma cidade cujo nome russo significa "senhor do leste", Cui tem absoluta certeza de uma coisa: o lugar realmente deveria se chamar Haishenwai, nome que tinha quando a China era a senhora dessas regiões.

Um nativo da província chinesa de Jilin, na Manchúria, Cui disse que é um "fato histórico" que Vladivostok --o lar da Frota do Pacífico russa e a vitrine das ambições do presidente Vladimir Putin de projetar seu país como uma potência asiática-- fica na realidade em território chinês.

Ou pelo menos ficava até a assinatura do Tratado de Pequim, em 1860, depois que a derrota da China para o Reino Unido na Segunda Guerra do Ópio colocou firmemente nas mãos dos russos essa cidade e outros territórios a nordeste do que é hoje a Coreia do Norte.

"Este lugar era nosso, e não da Rússia", disse ele, parado em um promontório coberto de árvores sobre um porto majestoso, cheio de navios de guerra russos. Olhando para um cruzador ancorado ali perto, ele rapidamente acrescentou: "Não temos pressa de recuperá-lo".

Para os líderes de Pequim e, é claro, de Moscou, Vladivostok é indiscutivelmente parte da Rússia. Uma série de acordos desde 1991 demarcaram a fronteira de 4.184 km de comprimento entre os dois países, definindo claramente o que pertence a quem.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, declarou em 2005, depois que o destino de algumas ilhas disputadas foi finalmente decidido, que "pela primeira vez em nossa história as relações bilaterais com a China não serão marcadas por uma disputa de fronteira".

Nenhuma autoridade de Pequim está pedindo que a fronteira acordada seja modificada, mas o Partido Comunista Chinês, que há décadas instiga a raiva nacionalista contra os chamados tratados injustos como o imposto pela Rússia em 1860, convenceu a população comum de que grande parte da Sibéria e do Extremo Oriente russo foram dominados de forma injusta.

Isto apesar do fato de que a área nunca esteve realmente nas mãos dos chineses han, mas era controlada por povos não chineses que viviam no nordeste da Ásia e periodicamente desciam para se declarar senhores da China. Alegações de que o Extremo Oriente russo deveria ser chinês datam da dinastia Jin, estabelecida no século 12 pelos jurchens, um povo não chinês da Manchúria.

O Partido Comunista Chinês, que comemorou a recuperação de Hong Kong e Macau no final dos anos 1990 como uma vitória final sobre os britânicos e portugueses, tentou desde então limitar as reivindicações históricas do país ao mar do Sul da China e a Taiwan, prometendo um dia recuperar a ilha --tomada pelo Japão em 1895 e mais tarde pelo governo nacionalista de Chiang Kai-shek-- e completar o que Pequim chama de "limpeza" das antigas humilhações.

A Rússia, um parceiro diplomático cada vez mais próximo da China, quase nunca é citada em declarações oficiais junto com o Reino Unido, o Japão e outras antigas potências imperiais que tomaram território à força.

As redes sociais chinesas, entretanto, borbulham com demandas de que o território cedido ao Império Russo no século 19 não seja esquecido. Uma postagem em um popular fórum na internet chinesa, por exemplo, afirmava que os chineses "choram muito" quando veem que a "tabela de território não recuperado" inclui Vladivostok e outras terras hoje controladas pela Rússia.

Jovens chineses que, à diferença de gerações anteriores, raramente falam russo e não têm lembranças agradáveis da amizade sino-soviética nos anos 1950, são especialmente inclinados ao fervor nacionalista. "Uma nova geração de jovens que falam inglês e têm ideias fracas ou distorcidas da história, cultura e política russas está se formando na China", lamentou um relatório do Conselho de Assuntos Internacionais russo sobre as relações entre os dois países.

Grupos anticomunistas como o Falun Gong, um movimento espiritual proibido por Pequim como um "culto do mal", também se apoderaram da causa do "território chinês perdido" para a Rússia para tentar, geralmente em vão, reunir oposição ao governo de Pequim.

A Rússia, assim como a China, minimiza esses problemas, mas depois de acender seu próprio fogo nacionalista com a anexação da Crimeia em 2014, Moscou sabe que as paixões históricas podem facilmente destruir as promessas dos diplomatas.

Victor Larin, diretor do Instituto de História, Arqueologia e Etnografia dos Povos do Extremo Oriente, em Vladivostok, disse que se reúne frequentemente com autoridades e estudiosos chineses e que eles "nunca levantam a questão" da propriedade de Vladivostok. Mas Larin acrescenta que muitos chineses comuns, que aprendem na escola sobre os "tratados injustos" e as apropriações de terras por estrangeiros, acreditam que a cidade e grande parte do leste da Rússia foram e um dia serão novamente chineses.

Durante a Revolução Cultural na China, iniciada por Mao Tse-tung em 1966, essa crença provocou choques breves, mas sangrentos, na fronteira ao norte de Vladivostok e quase levou a uma guerra total entre a China e a União Soviética.

"A história sempre é usada para especulação política", disse Larin, acrescentando que pedir Vladivostok de volta é tão irreal quanto a Rússia pedir que os EUA devolvam o Alasca.

A cidade, com uma população de cerca de 600 mil, hoje é um destino popular para turistas e também comerciantes chineses, que transformaram um mercado antes dilapidado na Rua Sportivnaya em um vibrante polo comercial.

Ding Shenhang, um vendedor chinês no mercado, disse que vem a Vladivostok há cinco anos para evitar a feroz concorrência em sua região natal, Heilongjiang.

"Tudo isto era chinês até que a dinastia Qing foi obrigada a dá-lo aos russos", disse ele, indicando com um gesto as ruas lotadas de comerciantes chineses e seus clientes russos. Mas recuperá-lo, acrescentou ele, "seria uma grande confusão", ou seja, uma guerra, e "ninguém quer isso".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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