Após foto icônica na Rio-2016, muçulmanas falam de sua relação com o hijab

Roger Cohen

  • Lucy Nicholson/Reuters

Desde que vi a foto de uma egípcia e uma alemã enfrentando-se na rede, em um jogo de vôlei de praia no Rio, não consegui mais tirar a imagem da minha cabeça. Doaa Elghobashy, 19, usando um hijab, de mangas compridas e legging preta até o tornozelo. E Kira Walkenhorst, 25, em um biquíni azul-marinho. As mãos esticadas das atletas olímpicas quase se encontram, com a bola entre elas.

A foto, tirada por Lucy Nicholson da Reuters, sobrepõe duas mulheres, duas crenças e dois códigos de vestimenta, unidas pelo esporte. É menos um conflito de civilizações do que um conflito de identidades que o mundo tem enfrentado, comprimidas no tempo e no espaço pela tecnologia. A imagem que o Ocidente tem do islã e a imagem que os muçulmanos têm das sociedades ocidentais muitas vezes são mutuamente incomunicáveis; a incompreensão incuba a violência.

Nenhuma outra área é tão sensível quanto a que diz respeito à forma como as mulheres são tratadas, como o papel, a sexualidade, as vestimentas e as ambições das mulheres. A história muitas vezes é apresentada como a de uma emancipação ocidental contra uma subjugação islâmica. No entanto, essa é uma caracterização insuficiente.

A seguir, os relatos de duas mulheres, uma egípcia e uma americana, sobre suas experiências com o hijab. Chadiedja Bujis é uma estudante de pós-graduação no Cairo. Norma Moore é uma ex-atriz que vive em Boulder, Colorado, e recentemente visitou o Irã, onde as regras a obrigaram a adotar o código de vestimenta islâmico.

Chadiedja Bujis:

Meus pais —mãe egípcia, pai holandês— se separaram quando eu tinha 4 anos, e cresci na Holanda. Minha mãe não usa lenço na cabeça, e quando comecei a usar, aos 19 anos de idade, cinco anos atrás, ela disse: "Que diabos está fazendo? Eu deixei meu país para que você pudesse ser livre, e foi isso que você fez com a liberdade?"

Tive muitas questões comigo mesma, com minhas necessidades espirituais e minha condição geral. Sempre fui muito trabalhadora, muito controladora. Comecei a sentir que, como uma pessoa religiosa, eu precisava entender que algumas coisas eram maiores do que eu. Comecei com as orações, parei de beber e comecei a jejuar. Eu era muito obcecada com coisas materiais. Depois de um tempo, me convenci de que seria bom se eu pudesse usar o lenço por devoção e humildade, como um sinal de que estava abrindo mão de parte do meu controle. Funcionou.

Nosso profeta diz que a fé é como o oceano. Às vezes as ondas são altas, às vezes são baixas. Às vezes sou meio instável em minha fé, às vezes sou muito forte.

Com a tensão na Europa, as coisas pioraram. Um dia, em um café de um vilarejo holandês cheio de pessoas ricas e brancas, um homem arrancou meu véu. Foi chocante.

Depois dos ataques na França, minha mãe disse: "Por favor, tire seu véu". Mas é escolha minha usá-lo. Vou morrer usando-o.

Mas o equilíbrio é importante. Existe esta vida e existe o além. Às vezes você precisa pensar em sua espiritualidade. Às vezes você precisa se adaptar. No Ocidente, agora, eu posso usar jeans mais justos ou mostrar meu pescoço, ou usar mangas mais curtas. Aqui no Egito eu posso usar saias longas e largas. Elas não são bonitas e me fazem parecer gorda. Mas essa é a questão! Minha família aqui é conservadora.

Existe pouquíssima literatura religiosa em países ocidentais seculares. E existe uma crise dentro do islã, sobre o que significa ser muçulmano. O grupo Estado Islâmico controla a cara do islamismo no Iraque e na Síria, com bandeiras, declarações e versos. Não podemos negar. Mas criamos o extremismo ao falar sobre o islamismo somente através desse prisma. O véu se torna um fetiche.

A Elghobashy está usando legging na foto. Acho que ela representa pessoas como eu, muçulmanos jovens, modernos e de mente cosmopolita que querem sair, estudar, trabalhar e se divertir. Queremos imagens diferentes do islã.

Recebi todo tipo de reação de homens quando decidi usar um véu em vez de uma minissaia. Isso criou uma espécie de distanciamento. Mas ainda tenho minha sexualidade nas minhas próprias mãos. Posso flertar, sair e conhecer um homem, mas sou eu que decido de que modo quero agir. Posso focar em minha espiritualidade, nas rezas e estudar sem distrações, ou posso ter um período em que decido ser sexy mesmo usando um véu, através de como ajo e falo. Sinto que tenho mais poder e independência em relação aos homens agora.

Norma Moore:

Sou uma pessoa profundamente religiosa. Não tenho nenhum rótulo para anexar à minha crença, mas de qualquer forma ela está no cerne do meu ser. Acredito que Deus me criou e me criou com amor como eu sou, assim como Deus cria todas as pessoas. Quando coloco o hijab no Irã e a túnica larga, estou vivendo uma tentativa de negar como fui feita, uma tentativa de me neutralizar.

Comecei esta viagem quase que totalmente coberta por meu hijab. Antes de vir para cá pratiquei com a ajuda de um vídeo na internet, de forma que nenhum sinal de cabelo, pescoço ou perna aparecesse e me tornasse vulnerável para olhares e à humilhação de ser repreendida. Eu vim para cá voluntariamente e aceitei os termos de admissão, então comecei a viagem em um estado voluntário de submissão.

Mas então começou a ficar quente, muito quente. Passei mal de calor e tudo que conseguia pensar era em arrancar fora esse hijab. Eu me sentia sufocada. Pensei que eu não conseguiria deixar um animal se sufocar desse jeito. Se um animal meu estivesse coberto assim e sofrendo, eu arrancaria o tecido por um mínimo de decência.

Meu cabelo e as curvas no meu corpo me foram dados por Deus. Cobrir minha cabeça e usar roupas largas me fazem sentir como se eu estivesse fingindo não ser mulher e que de certa forma sou responsável por manter a sexualidade dos homens dentro dos limites sociais.

Simplesmente não posso entender que Deus me torne responsável pela sexualidade dos homens.

A foto do vôlei nas Olimpíadas fascina. Os poucos centímetros entre as mãos das mulheres poderiam ser um abismo. Por mais de uma vez ouvi os imãs iranianos associarem, com uma certeza absurda, as roupas leves das mulheres no Ocidente à decadência e à prostituição. Para a percepção ocidental, a mulher muçulmana coberta deve ser de fato uma mulher submissa esperando pela libertação.

A realidade possui nuances diversas. Elghobashy usa uma tornozeleira de miçangas coloridas. As únicas cores em Walkenhorst são as da bandeira alemã. Quem tem o direito de dizer qual das mulheres é mais conservadora, mais feminista ou mais liberada? Não sabemos. O que sabemos é que precisamos de mais acontecimentos que nos provoquem a fazer tais perguntas e descartar certezas gastas que podem não passar de perigosas caricaturas.

Tradutor: UOL

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