Coincidência de feriado muçulmano do sacrifício com o 11/9 desperta temores nos EUA

Samantha Schmidt

Samantha Schmidt

  • Stephanie Keith/Reuters

Todos os anos, líderes muçulmanos de todo o mundo olham para a Lua para calcular a data de um de seus feriados mais importantes, o Eid al-Adha, a festa do sacrifício.

Quando Habeeb Ahmed começou, cerca de dois meses atrás, a planejar esse dia sagrado, ele notou uma coincidência potencialmente tensa: o Eid al-Adha poderia cair no dia 11 de setembro.

"Algumas pessoas podem querer criar caso com isso", disse Ahmed, que recentemente foi eleito presidente do Centro Islâmico de Long Island, acrescentando que ele poderia facilmente prever como algumas pessoas poderiam interpretar errado as festividades e dizer: "Olhe só para esses muçulmanos, celebrando o 11 de setembro."

A possibilidade de que o feriado caia no 15º aniversário dos ataques terroristas causou apreensão entre os muçulmanos da Cidade de Nova York e de todo o país, em tempos em que atos violentos cometidos por extremistas religiosos provocaram uma retórica política inflamatória e ajudaram a alimentar um surto de crimes de ódio contra muçulmanos.

Em Nova York, a possibilidade de o feriado cair no dia 11 de setembro intensificou as preocupações e os medos relativos à segurança que já reverberavam por toda a comunidade muçulmana após o assassinato de um imã e de seu assistente no Queens este mês. Para alguns, isso também traz de volta à tona lembranças da intolerância e da vigilância policial dirigidas contra os muçulmanos nos anos que se seguiram aos ataques.

"Nossa comunidade está pensando: 'O que deveríamos fazer?'", disse Linda Sarsour, diretora-executiva da Associação Árabe-Americana de Nova York. Ela disse ter passado por longas reuniões com outros líderes lidando com essa possibilidade e discutindo sobre a melhor maneira de se preparar.

"Eu não deveria ter de pensar sobre isso", disse Sarsour. "O que vou falar para meus filhos?"

O Eid al-Adha celebra a disposição de Abraão de sacrificar seu filho Ismael como um ato de submissão ao comando de Deus. O dia sagrado também pode servir como uma oportunidade para homenagear o sacrifício daqueles que morreram no 11 de setembro de 2001, segundo Abdul Bhuiyan, secretário-geral da Majilis Ashura, o Conselho de Liderança Islâmica de Nova York.

"É um dia para relembrar e observar", disse Bhuiyan.

A probabilidade de o Eid al-Adha deste ano cair em 11 de setembro ainda não está clara. Todos os anos, o feriado acontece 10 dias depois que se avista uma lua nova no começo do mês do Dhu al-Hijjah, de acordo com o calendário muçulmano. O dia exato em que o mês começa depende de quando a lua nova é avistada, e espera-se que o mês comece nos dias 1º ou 2 de setembro este ano.

No passado, outro importante feriado muçulmano, o Eid al-Fitr, caiu perto de 11 de setembro, mas nenhum dos feriados de fato coincidiu com a data ainda.

"É o que está na cabeça de todos os líderes muçulmanos do país neste momento", disse Robert McCaw, diretor de assuntos governamentais no Conselho das Relações Americanas-Islâmicas. "Estamos tristes como todo mundo", ele disse, referindo-se aos ataques do 11 de setembro. "Nós lembramos este dia não porque somos muçulmanos, mas porque somos americanos."

No entanto, representantes muçulmanos locais e nacionais pediram para que imãs e outros líderes falem com as autoridades para garantir que a segurança esteja montada para o feriado, disse Bhuiyan. Na Cidade de Nova York, a polícia tem fornecido segurança adicional em muitas mesquitas desde os assassinatos no Queens.

A possibilidade de que o feriado caia em 11 de setembro fez com que algumas mesquitas que costumam realizar cultos de dias sagrados ao ar livre, tais como a Masjid Hamza de Valley Stream, Nova York, em Long Island, transferissem suas cerimônias para o lado de dentro para evitar a congregação em um espaço público.

Karim Mozawalla, membro do conselho diretor da Masjid Hamza, disse que em alguns anos seus membros se reuniram em um parque público para uma cerimônia. Este ano, vários cultos menores serão realizados dentro da mesquita.

Oussama Jammal, secretário-geral do Conselho de Organizações Muçulmanas dos EUA, disse que o grupo planejava começar uma campanha nacional de mobilização de eleitores entre muçulmanos no feriado, em parte como uma oportunidade para alcançar um grande número de muçulmanos.

Tahir Kukiqi, o imã do Centro Cultural Islâmico Albanês em Staten Island, disse que sentia as preocupações sobre uma possível reação em torno do feriado de forma pessoal. Em junho, um homem entrou na mesquita de Kukiqi xingando e gritando, "Vou matar vocês" e "Vocês estão aqui para nos dominar."

O homem arrancou um cano da parede e ameaçou o imã. Enquanto Kukiqi ligava para a polícia, o homem largou o cano e fugiu. Um suspeito foi preso e foi acusado de crime de ódio.

"Tem muito ódio por aí", disse Kukiqi. "E tem muita ignorância também."

O sermão de Eid al-Adha deste ano, segundo ele, será mais soturno do que em anos anteriores.

"Estaremos rezando por suas almas", ele disse, referindo-se às vítimas do 11 de setembro. "Estaremos rezando pelo bem-estar de nosso país."

Em Dearborn, Michigan, lar de uma das maiores concentrações de árabes-americanos do país, Ibrahim Kazerooni, o imã do Centro Islâmico dos Estados Unidos, disse que os muçulmanos deveriam celebrar como fariam normalmente, participando dos cultos, doando carne ou dinheiro para os pobres e compartilhando uma refeição com familiares e amigos.

Quanto à data, ele disse, "Precisamos estar cientes dela, mas ao mesmo tempo não devemos nos sobrecarregar a ponto de paralisar a comunidade."

Shamsi Ali, o imã do Centro Muçulmano de Jamaica, no Queens, disse que sua congregação ainda pretendia realizar seu culto ao ar livre, com uma expectativa de público de 20 mil pessoas, uma das maiores concentrações na Cidade de Nova York.

Ali, juntamente com vários outros irmãs da cidade, pretende convidar vizinhos e lideranças religiosas não muçulmanos para participar dos cultos e aprender sobre a importância do feriado, enquanto também rezam pelas vítimas do 11 de setembro.

"Se as pessoas estão tentando erguer muros, nós estamos tentando construir pontes", disse Ali. "É esse o verdadeiro significado de Nova York."

Tradutor: UOL

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