Cidade de Maryland define destino de busto de homem que negou cidadania aos negros

Sheryl Gay Stolberg

Em Frederick (Maryland, EUA)

  • Lexey Swall for The New York Times

Em 1801, Roger Brooke Taney, filho de um plantador de tabaco em Maryland, que tinha intenções políticas, se estabeleceu nesta cidade como advogado. Ele se casou com a irmã de Francis Scott Key, ganhou a eleição para o Senado estadual e trabalhou para chegar a Washington, onde conseguiu o cargo com que sonhava: juiz presidente da Suprema Corte.

Taney está enterrado em um cemitério em Frederick; a casa que foi dele hoje é um museu; e há 85 anos seu busto de bronze, com olhos firmes e nariz aquilino, observa o pátio da atual Prefeitura. Durante cerca de 40 desses anos, a visão desse busto fez Willie Mahone, um advogado local, sentir vontade de vomitar.

Como afro-americano que frequentou escolas segregadas em Alabama, Mahone, 62, é bem consciente de como Taney ganhou um lugar duradouro, embora duvidoso, na história americana: ele escreveu a notória decisão Dred Scott, de 1857, que negou a cidadania aos negros, notando que os formuladores da Constituição os consideravam "seres de uma ordem inferior".

Em outubro de 2015, após anos de incitação de Mahone e outros críticos de Taney, a Câmara Legislativa da cidade, totalmente branca, concordou que o busto estava ultrapassado. Seus membros votaram por unanimidade --em meio a acusações de que estavam lavando a história e ignorando as complexidades da vida de um jurista respeitado-- pela remoção da estátua ofensiva, com a ideia de exibi-la em algum outro lugar, talvez em um museu.

Foi aí que começou a confusão.

Hoje o futuro do busto está perdido em um labirinto burocrático, em meio a questões sobre se mudá-lo violaria uma decisão da cidade ou regras de preservação. Mesmo que o busto possa sair de lá, Frederick enfrenta um problema maior: no calor do debate no ano passado, vândalos despejaram um balde de tinta esmalte vermelha na cabeça de bronze. E agora ninguém a quer.

"Está sendo uma grande dificuldade levar isto para algum lugar", disse o prefeito Randy McClement, um ex-dono de padaria que afirma ter outras coisas com que se preocupar, como equilibrar o orçamento da cidade.

Em uma iniciativa até agora infrutífera para cumprir o desejo da Câmara de que a estátua "não seja largada no sótão de alguém", o gabinete do prefeito vem perscrutando a paisagem local em busca de alguém, qualquer pessoa, disposta a expor em público o busto de 76 centímetros do juiz vilipendiado. A cidade também vai dispensar a base de granito e pagar pelos custos da mudança.

A Sociedade Histórica do Condado de Frederick, que dirige a Casa de Roger Brooke Taney e outro museu, disse não; ela já tem um busto de Taney. O histórico veleiro Taney, da Guarda Costeira, que está atracado em Baltimore, não se interessou; nem o cemitério. A Sociedade Histórica da Suprema Corte, em Washington, não vê utilidade para ele (o tribunal também já tem um busto de Taney).

O carpinteiro Jimmy Smith, 60, neto de escultor, levantou a mão. Mas, assim como os outros, ele só aceita dar uma nova casa ao busto, e não colocá-lo em local público. Ele teme que seja roubado, ou pior.

"Ele se tornou um alvo, o que aconteceu com aquela tinta", disse Smith.

Frederick, é claro, não é a única que enfrenta o delicado equilíbrio entre preservar a história e mostrar sensibilidade racial. Em todo o sul dos EUA, especialmente depois do massacre de junho de 2015 em uma igreja negra em Charleston, na Carolina do Sul, Estados, cidades e até museus enfrentam polêmicas sobre símbolos confederados, como estátuas de generais ou imagens da bandeira rebelde.

Mas Taney (pronuncia-se "Tó-nii"), que foi o quinto juiz supremo dos EUA, foi um jurista, e não um general. E, apesar de seu legado manchado, foi uma figura complexa, cujas opiniões sobre a escravidão parecem ambíguas, no melhor dos casos.

Como advogado, ele chamou a escravidão de "uma mancha em nosso caráter nacional", enquanto defendeu um ministro religioso abolicionista. Ele possuía nove escravos, mas emancipou quatro deles e emitiu "papéis de alforria" --uma promessa legal de futura libertação-- a outros, e quando entrou para o tribunal não tinha nenhum, segundo Jennifer Winter, que administra a Casa Taney para a sociedade histórica.

"Ele nunca escreveu em um diário 'Eu acho isto'", disse Winter. "Então você fica com uma espécie de trilha de atos. Alguns são a favor, outros não tão favoráveis."

Para Mahone, não há ambiguidade nisso. "Taney disse que as vidas negras não importam", disse ele, falando de seu pequeno escritório de advogado aqui, onde se vê, pendurado atrás de sua mesa, um desenho a lápis de outro proeminente habitante de Maryland, Frederick Douglass. "Por que escolheríamos exibir no gramado da Prefeitura um símbolo de ódio racial?"

A disputa é uma das várias antigas controvérsias sobre Taney em Maryland. Mas aqui em Frederick, cidade cujo centro cuidadosamente preservado é uma fonte de orgulho, a discussão é especialmente dolorosa. A área rural do município foi, até os anos 1990, o lar do líder nacional do Império Invisível da Ku Klux Klan.

Mahone, que nos anos 1980 processou com sucesso o condado para impedir um comício da Klan, lembra bem da visão de membros da Klan vestidos com túnicas incendiando cruzes em seu piquenique anual. Em outubro passado, mais ou menos na época da votação sobre Taney, a Klan planejou um "encontro privado de iluminação de suásticas e cruzes triplas". Ainda em 2013, o grupo distribuiu panfletos de recrutamento em Frederick.

Por isso os sentimentos sobre o busto de Taney são especialmente duros entre muitos afro-americanos aqui. Para Gerald Palm, que é negro e se aposentou há vários anos como superintendente de saúde da cidade, isso traz memórias de seu avô, que possuía terras no centro de Frederick que valeriam milhões hoje, segundo ele, mas foi obrigado a cedê-las para evitar a prisão por ligação com um assalto.

"Às vezes eu choro porque sei o que significa essa estátua: é uma estátua de opressão, de ódio", disse Palm. "Esta cidade é uma representação do sul. É tão sutil que a maioria dos negros não se importa."

Outros lamentam um debate que, segundo eles, manchou o nome de Frederick. E Taney não é a única figura da cidade afetada; se o busto de Taney sair, um busto companheiro de outro juiz da Suprema Corte e antigo morador de Frederick, Thomas Johnson, também deverá de sair, em nome da simetria.

"É uma pena que alguns poucos façam declarações que afetam multidões", disse Marion Carmack, 88, uma agente de seguros aposentada cujas raízes em Maryland datam da Guerra da Revolução. Quanto às estátuas, "não me incomodam em nada", disse.

Taney, indicado em 1836 pelo presidente Andrew Jackson, ao qual serviu como secretário do Tesouro e ministro da Justiça, é dificilmente o único ofensor verbal do tribunal; seu antecessor como juiz-chefe, John Marshall, descreveu certa vez os indígenas americanos como "selvagens ferozes". Os estudiosos consideram Taney um "originalista" nos moldes de Antonin Scalia, disse John Blackman, professor na Faculdade de Direito do Sul do Texas.

"As emendas à Constituição são o maior balde de tinta para Taney", disse Blackman, que escreveu sobre o incidente da tinta vermelha.

Mas ao redor de Maryland estátuas de Taney enfrentam um futuro incerto. Em Baltimore, uma comissão da prefeitura votou este ano pela remoção de uma figura de Taney. Outra, no terreno da câmara estadual em Annapolis, foi poupada nos anos 1990, quando legisladores ergueram uma estátua companheira do ex-juiz da Suprema Corte Thurgood Marshall, um nativo de Maryland. Agora há um novo movimento para retirá-la.

Aqui em Frederick, o esforço para expurgar Taney do terreno da cidade foi liderado desde 1998 pela vereadora Donna Kuzemchak, segundo a qual qualquer coisa que ofenda tão profundamente uma parte dos cidadãos "tem de sair". Ela quase o conseguiu em 2009, mas a cidade fez acompanhar o busto de uma placa sobre Dred Scott e sua mulher, Harriet.

A Fundação Histórica de Maryland deverá decidir sobre o caso em cerca de uma semana. Se as autoridades estaduais e municipais aprovarem a remoção do busto, diz McClement, ela provavelmente pedirá autorização da Câmara para simplesmente tirá-la, sabendo que nunca mais será vista em público. Kuzemchak diz que para ela isso está bem.

"Pessoalmente, não me importa para onde vá", afirmou. 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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