Ohio, antes indicador de tendência, está perdendo importância no mapa eleitoral

Jonathan Martin

Em Athens, Ohio (EUA)

  • Damon Winter/The New York Times

Após décadas como um dos mais confiáveis indicadores de tendência política dos Estados Unidos, um campo de batalha inevitável nas disputas presidenciais que espelhava o sentimento e a composição do país, Ohio está repentinamente perdendo importância neste ano.

Hillary Clinton não visita o Estado desde o Dia do Trabalho (comemorado na primeira segunda-feira de setembro nos Estados Unidos) e seus assessores disseram que ela só voltará na próxima semana, após uma ausência de um mês, na prática reconhecendo quão difícil consideram derrotar Donald Trump aqui. Ohio não acompanhou as mudanças demográficas que transformaram os Estados Unidos, tornando-se mais velho, mais branco e com escolaridade mais baixa do que o restante do país.

E os dois partidos fizeram apostas muito diferentes sobre como chegar à Casa Branca nesta eleição: Trump, o candidato republicano, está contando com uma coalizão demográfica que, apesar de sob medida para Ohio, mesmo nos redutos democratas do Estado, o deixa vulnerável em partes com maior diversidade do país, onde Hillary está dedicando grande parte de seu tempo.

É uma mudança chocante para veteranos da política do Estado, que apreciavam estar no centro das disputas presidenciais do país: devido a novos Estados indefinidos, Hillary pode obter os 270 votos do Colégio Eleitoral necessários para vencer mesmo sendo derrotada em Ohio.

"O mapa deles é um pouco diferente e Ohio não é tão crucial quanto já foi", reconheceu James Ruvolo, um ex-presidente do Partido Democrata de Ohio que vive na área de Toledo, um reduto democrata que Hillary não visitou nenhuma vez neste ano. "Eles continuam gastando dinheiro aqui, mas não acho que gastarão muito do tempo dela aqui."

Ohio por muito tempo desfrutou dos holofotes presidenciais. A cada quatro anos, o outono trazia visitas frequentes dos candidatos, comerciais incessantes na televisão e pesquisas de boca de urna e resultados da apuração condado por condado até tarde da noite no dia da eleição. Os democratas no Estado se acostumaram a comícios semelhantes a concertos de rock, como os realizados por John Kerry em Cleveland e Columbus, acompanhado por Bruce Springsteen, em 2004, e o realizado pelo presidente Barack Obama na Universidade Estadual de Ohio para lançar sua campanha de 2012 à reeleição. Obama realizou cinco eventos em três visitas a Ohio apenas em setembro de 2012.

E tudo por um bom motivo: nenhum candidato de qualquer partido chegou à Casa Branca sem vencer em Ohio desde John F. Kennedy, em 1960.

Mas seu perfil de Cinturão da Ferrugem (região de indústria manufatureira), a implacável campanha anticomércio de Trump e a dificuldade de Hillary em atrair os eleitores jovens o transformaram em um foco menor para os democratas neste ano, apesar de permanecer fundamental para o caminho de Trump para a Casa Branca. Como notaram de forma privada os assessores de Hillary, a composição demográfica da Flórida, Colorado e Carolina do Norte, que apresentam um maior percentual de eleitores com alta escolaridade e não brancos, torna esses Estados mais promissores para os democratas, em uma disputa na qual o eleitorado é dividido segundo linhas raciais e econômicas claras.

E com a antes disputada corrida ao Senado em Ohio se transformando em uma vitória quase certa de Rob Portman, o atual senador republicano, os democratas podem recuar no Estado sem temer maiores consequências nas urnas.

Como o local onde os Apalaches se encontram como Meio-Oeste e onde os centros industriais se ergueram não distantes do vasto cinturão agrícola, Ohio se orgulhava de ser uma versão em miniatura dos Estados Unidos. Seus padrões de imigração refletiam isso, com os colonos neoingleses se reassentando no Estado, seguidos pelos alemães e posteriormente pelos imigrantes do Leste Europeu. Ao mesmo tempo, sulistas, tanto brancos quanto negros, cruzaram o rio Ohio à procura de liberdade e oportunidade.

Mas até mesmo os mais orgulhosos promotores do Estado reconhecem que Ohio, que é quase 80% branco, cada vez representa menos a América contemporânea.

"Ohio, como um iceberg que está derretendo, está lentamente perdendo seu status como indicador de tendência do país", disse Michael F. Curtin, um legislador estadual democrata e ex-editor do jornal "The Columbus Dispatch" que é coautor do respeitado "Ohio Politics Almanac" (Almanaque da política de Ohio, em tradução livre).

Ele prosseguiu: "É um derretimento lento. Nós não atraímos uma população latina significativa e há pouco afluxo de população asiática. Quando se olha para a diversidade da América há 30 ou 40 anos, Ohio era um reflexo próximo do país. Mas não é mais".

O que está menos claro do que as tendências raciais é se o Estado se tornará fora de alcance para os democratas em futuras corridas presidenciais. Isso poderá ser determinado pelas escolhas que os partidos nacionais fizerem após a eleição, particularmente se os republicanos derem continuidade ao projeto de Trump de mudar as posições mais pró-empresas para uma abordagem mais populista em relação à imigração e comércio.

"Se o Partido Republicano parecer mais com a coalizão de Trump e o Partido Democrata parecer mais com a coalizão de Obama, então os Estados em que os democratas deverão vencer deixarão de ser Ohio e Iowa", disse David Wilhelm, diretor da primeira campanha presidencial de Bill Clinton e um ex-presidente nacional do Partido Democrata que vive na suburbana Columbus. "Esses Estados serão a Virgínia, Carolina do Norte, Arizona e Geórgia."

Mas essa mesma coalizão de Obama foi suficiente para dar ao presidente uma dupla vitória em Ohio em 2012, quando a demografia do Estado não era menos desafiadora para os democratas. A diferença agora, dizem eleitores e estrategistas de ambos os partidos em Ohio, está nos dois candidatos e nas questões do momento.

Enfrentando Mitt Romney, que foi facilmente caricaturado como um republicano de clube de campo, Obama o atacou como servo dos ricos e criticou sua oposição ao resgate da indústria automotiva, o que elevou Obama junto aos sindicalistas democratas brancos das comunidades automotivas em torno de Youngstown e Toledo.

Mas neste ano, os republicanos lançaram um candidato cujas posições sobre comércio não diferem das da central sindical AFL-CIO, sendo talvez ainda mais linhas-duras.

"Os republicanos costumavam concorrer com Deus e armas", disse Ruvolo. "Agora Trump acrescentou um terceiro elemento: o comércio."

Somada às reclamações de Trump sobre imigrantes tirando empregos de americanos, isso se transforma em uma combinação poderosa em um Estado que sofreu com o declínio do setor manufatureiro. Apesar de ter perdido a primária de Ohio para o governador John Kasich, Trump mesmo assim venceu em uma série de condados no leste do Estado, sua região que passa por maior depressão econômica, onde milhares de empregos na indústria e mineração de carvão foram perdidos. A expectativa é de que Trump vença por margens significativas nesses condados em novembro.

Alguns veteranos da política falam com espanto sobre pesquisas que mostram Trump à frente até mesmo em redutos democratas. "Eu vejo, no máximo, uma falta de entusiasmo nas áreas tradicionalmente democratas", disse Dennis E. Eckart, um ex-deputado democrata por Cleveland.

Mike Dawson, um estrategista republicano que dirige um site sobre a história política de Ohio, disse que Trump será competitivo nos dois condados no Vale de Mahoning, em Youngstown, nos quais todos os candidatos presidenciais democratas venceram por 60 anos, exceto em 1972.

Não é coincidência a mesma região ter continuado reelegendo o deputado James A. Traficant Jr. de 1985 a 2002, apesar de suas rotineiras violações da ética. Traficant, um antigo democrata que morreu em 2014, era conhecido pela retórica inflamada, pela peruca que parecia um esquilo e por seu populismo.

"Não há nenhuma diferença entre Jim Traficant e Donald Trump", disse Eckart, cujo distrito é vizinho ao do ex-deputado. "Eles dizem qualquer coisa, fazem qualquer coisa, agem de forma ultrajante, e as pessoas gostam disso."

Hillary permanece mais forte nas áreas mais ricas e de maior escolaridade ao torno dos centros mais populosos de Ohio (Cleveland, Columbus e Cincinnati), onde alguns eleitores que apoiaram Romney há quatro anos repudiam Trump.

Emily Huber, uma cristã evangélica de 29 anos e republicana leal de Columbus, é uma dessas pessoas. Enquanto vendia velas e bijuterias feitas por vítimas de tráfico sexual em uma feira de produtos agrícolas direto do produtor à sombra do capitólio estadual, Huber disse que ela e seu marido não sabem se votarão em Trump, devido aos comentários ofensivos que ela disse "mostrarem seu verdadeiro caráter".

O que determinará quem vencerá em Ohio, disse o deputado Steve Stivers, um republicano, é se "Hillary conseguirá conquistar eleitores suficientes nos subúrbios para compensar as áreas rurais e algumas das industriais".

Hillary tem vantagem no aspecto organização, com 60 diretórios de campanha por todo o Estado, e com vários representantes da candidata percorrendo o Estado: Bill Clinton deverá percorrer o Estado de ônibus na semana que vem. Mas a campanha dela é sensível a respeito da ausência dela, algo que se tornou assunto de discussão local. Após este artigo ser publicado online, a campanha correu para anunciar que ela retornaria na segunda-feira, apesar de não ter especificado qual cidade ela visitaria.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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