Análise: Gravação de Trump é um lembrete sobre o custo do assédio sexual

Amanda Taub

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O vazamento da gravação de Donald Trump se gabando de ter assediado sexualmente e agarrado mulheres é só um exemplo particularmente notável de um fenômeno muito comum: Há homens demais tratando os corpos das mulheres como se estes estivessem à disposição para qualquer um que se depare com eles.

Esse tipo de comportamento não é só ofensivo. Ele também inflige consequências reais sobre as mulheres. O ônus de ter de evitar e sofrer assédio sexual e ataques reverte, com o tempo, em oportunidades perdidas e resultados menos favoráveis para garotas e mulheres. Na prática ele se torna uma espécie de imposto específico de gênero que muitas mulheres não têm outra escolha a não ser pagar.

"Eu realmente penso nisso como um imposto sobre a oportunidade", diz Nancy Leong, uma professora de direito na Universidade de Denver que pesquisa sobre direitos civis e questões de identidade. "Sobre a oportunidade nos ambientes de trabalho, sobre a oportunidade nas escolas."

Uma porcentagem perturbadoramente alta de mulheres nos Estados Unidos já foi sexualmente agredida. De acordo com um estudo de 2011 do Departamento de Justiça, quase uma em cada quatro mulheres americanas relata ter sido sexualmente agredida em algum momento de sua vida. Uma entre cada cinco relata ter sido vítima de estupro ou de tentativa de estupro.

Após a divulgação da fita esta semana, a escritora Kelly Oxford lançou um chamado no Twitter para que as mulheres descrevessem a primeira vez em que um homem as agrediu. "Eu começo", se voluntariou Oxford, que descreveu o assédio sofrido por ela aos 12 anos de idade em um ônibus.

Em 24 horas ela recebeu um fluxo quase constante de respostas descrevendo inúmeras histórias como essa.

E essa é só uma pequena amostra.

Riscos tão comuns assim são praticamente impossíveis de se ignorar, e muitas mulheres não tiveram outra alternativa além de aprender a se proteger em tais ambientes. Como coloca minha colega de "Times" Amanda Hess, "Quando Trump está sozinho com os amigos ele se gaba de ter agarrado mulheres. Quando as mulheres estão sozinhas entre si, nós alertamos umas às outras sobre homens como ele."

Desde muito cedo muitas mulheres americanas absorvem a mensagem, sutil e inequívoca, de que elas não podem presumir que os outros evitarão que homens as agarrem, assediem ou até agridam, de forma que se torna trabalho delas antecipar e evitar tais atos.

Em geral, as escolas, os pais e a sociedade dizem às mulheres que elas devem assumir "responsabilidade pessoal" por sua segurança, ainda que isso signifique limitar sua própria liberdade.

Nos campi de faculdade, muitas vezes as mulheres ouvem que cabe a elas mesmas evitarem ser sexualmente agredidas, não bebendo e não indo a festas sozinhas. Isso passa a mensagem de que as mulheres não podem esperar ter o mesmo tipo de liberdade que os homens, e qualquer lapso poderia causar um desastre.

Para as mulheres, esses são os riscos de se participar da vida pública, a se contrapor em relação a seus benefícios, que são oportunidades profissionais, conexões sociais ou simplesmente diversão.

Cientistas sociais como Leong chamam esse tipo de fardo de "trabalho de identidade". É o esforço e o custo para se encaixar em um ambiente no qual você é naturalmente marginalizado. Para as mulheres, segundo ela, esse trabalho de identidade muitas vezes requer transitar entre os campos minados da objetificação sexual, do assédio e do perigo.

Enquanto os homens são livres para agarrar uma oportunidade, as mulheres precisam parar e pesar as consequências. Aqui estão alguns exemplos das perguntas que as mulheres fazem a si mesmas:

--Será que vale a pena aceitar a oferta de um professor para uma mentoria de pesquisa presumindo que o interesse nele em mim seja estritamente acadêmico?

--Em um jantar de negócios, quando as pessoas à mesa começam a beber muito e os clientes começam a parecer amigáveis demais, será que vale a pena permanecer, na esperança de fechar a venda e de que as coisas não fiquem desconfortáveis, ou até pior?

--Em um congresso, quando o networking geralmente acontece tarde da noite, em um bar, e a conversa começa a tomar outros rumos, será que vale a pena permanecer para fazer contatos profissionais valiosos?

--Quando se está levantando fundos para uma startup, e um conhecido investidor-anjo oferece uma reunião tarde da noite em seu escritório, seria essa uma chance imperdível?

Para as mulheres, a resposta para todas essas perguntas é a mesma: provavelmente. Mas às vezes, não.

Os homens raramente precisam fazer essa consideração.

Em situações individuais, esses pequenos ajustes e decisões podem parecer algo menor. Só que eles vão se acumulando.

"Eu tenho certeza de que isso é prejudicial", diz Leong. "Porque quando você se preocupa que tenha alguém olhando para você dessa forma, ou a julgando de um jeito específico, essa é uma distração de qualquer coisa que você esteja tentando fazer, seja arrumar um emprego, ou fazer seu trabalho, ou obter boas notas na faculdade, ou entrar na faculdade."

É impossível medir os efeitos exatos de caminhos que não se tomaram. Mas as mulheres já têm muitos exemplos de desigualdade a serem resolvidos.

A probabilidade para as mulheres americanas é menor que para os homens de se tornarem sócias em escritórios de advocacia, presidentes de empresas ou professoras titulares. Elas ganham menos dinheiro do que os homens. Elas têm menos recursos. E elas têm caminhos mais estreitos para o sucesso: um estudo da Bloomberg revelou que somente 7% dos empreendedores que recebem financiamento de capital de risco são mulheres, e que fundadoras mulheres recebem em média 33% a menos de financiamento que seus equivalentes masculinos.

Se você assiste com atenção ao vídeo de 2005 do "Access Hollywood", consegue ver o imposto em ação. Trump e Billy Bush, apresentador do programa, se aproximam de Arianne Zucker, uma atriz, e pedem abraços. Depois que ela concede, sentindo-se claramente desconfortável, Bush pede para que ela escolha com qual dos homens ela preferiria sair.

É impossível saber exatamente o que Zucker estava pensando, mas ela não parece nem um pouco feliz com a argumentação.

Contudo, apesar de seu constrangimento, ela cede. Recusar os abraços ou ignorar a pergunta poderia acabar enfurecendo dois homens poderosos, o que poderia ter consequências para seu emprego.

"Ela precisa colocar tudo na balança para saber quais dessas coisas seria mais prejudicial a ela", diz Leong.

Esses tributos são o custo mais amplo causado pelo tipo de comportamento do qual Trump se vangloriou na gravação vazada. Às vezes esse custo são a dor e a humilhação sentidas pelas mulheres que os homens agarram, beijam e assediam diretamente. Mas é também a perda agregada de todas as mulheres que ficaram em casa, que tiveram de parar para pensar, que não aproveitaram uma oportunidade porque isso significaria correr o risco de passar por dor e humilhação, que na época não pareciam valer a pena.

"É mais fácil simplesmente dar um abracinho em cada um deles", diz Leong, sobre o dilema enfrentado não somente por Zucker, mas por outras incontáveis mulheres regularmente. "De qualquer forma, ela terá de pagar um tributo."

Tradutor: UOL

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