Projetos dão emprego e ajudam refugiados a se integrarem na sociedade europeia

Liz Alderman

Em Amsterdã (Holanda)

  • Ilvy Njiokiktjien/The New York Times

    O refugiado sírio Khaled Jamal trabalha no centro de distribuição da Albert Heijn, a maior rede de supermercados da Holanda, em Zaandam

    O refugiado sírio Khaled Jamal trabalha no centro de distribuição da Albert Heijn, a maior rede de supermercados da Holanda, em Zaandam

Mahmoud al Omar se debruçou sobre a máquina de costura no porão de uma antiga prisão que é usada como abrigo de refugiados e começou a costurar jeans para uma marca de roupas famosa. Com mais de 15 anos de experiência como alfaiate na Síria, ele logo terminou uma calça e passou a fazer outra, concluindo metodicamente uma pequena encomenda.

O emprego, arranjado por uma organização holandesa que faz a ligação entre os refugiados e o mercado de trabalho, é apenas temporário. Mas depois que Omar fugiu de sua cidade devastada pela guerra, Aleppo, há dois anos, ter um lugar aonde ir todos os dias pareceu uma salvação.

"Trabalhar é completamente necessário para acelerar a integração", disse Omar, 28, que ainda tem dificuldade para falar holandês, o que prejudica suas chances de um emprego em tempo integral. "Quero ser independente o mais cedo possível, para começar a retribuir ao país que me acolheu."

Quando mais de um milhão de homens, mulheres e crianças chegaram à Europa no ano passado, em busca de proteção do conflito e da pobreza no Oriente Médio e na África, os governos viram o mercado de trabalho como o caminho mais rápido para absorver os recém-chegados. Quanto mais cedo as pessoas começassem a trabalhar, mais depressa poderiam dispensar a ajuda do governo e começar a contribuir para a economia, dizia a tese.

Mas os empregos permanentes se mostraram ilusórios. A dificuldade de comunicação é uma grande barreira, assim como a falta de capacitação. Alguns refugiados não têm a experiência adequada, enquanto outros não podem revalidar seus diplomas de qualificação profissional.

Iniciativas privadas de ajuda surgiram em toda a Europa. A Companhia de Refugiados, grupo holandês que encaminhou Omar para o trabalho, é uma de dezenas que conduzem os refugiados para redes profissionais e oportunidades de melhorar a empregabilidade.

"A melhor coisa é tentar aproximar as pessoas do trabalho desde o primeiro dia, porque há um longo período de espera desde o início que é tempo perdido", disse Jihad Asad, um entusiástico empresário da Síria que é codiretor da Companhia de Refugiados.

"Como refugiado, quando você vê que seu talento é útil e necessário, tem a sensação de que pode seguir em frente", acrescentou Asad, que recebeu asilo na Holanda no último verão. "Há uma luz no fim do túnel."

A adaptação tem sido mais difícil do que se esperava.

A Holanda, a Alemanha e outros países emendaram leis para facilitar o acesso ao mercado de trabalho, permitindo que os recém-chegados trabalhem quase imediatamente, em vez de esperar meses ou até anos. As empresas europeias começaram a contratar dezenas de milhares de refugiados qualificados.

Mas muitos desses empregos fazem parte de estágios ou programas vocacionais que ainda não representam emprego em longo prazo.

Na Alemanha, a maioria dos 30 mil refugiados que trabalham estão em cargos temporários ou empregos menos procurados, arranjados pelo governo, que pagam 1 euro por hora (R$ 3,50). Esses empregos os ajudam a integrar-se à sociedade alemã, mas não são um caminho para o emprego permanente.

Gordon Welters/The New York Times
Dois refugiados sírios trabalham na Deutsche Post, em Berlim, Alemanha

Apesar de centenas de empresas alemãs terem se comprometido a empregar refugiados, só uma pequena fração delas o fez nos últimos dois anos, segundo uma pesquisa recente do Centro para Estudos Econômicos, em Munique. Até hoje, cerca de 60 refugiados encontraram empregos em tempo integral nas 30 maiores companhias alemãs, mostrou uma outra pesquisa.

Entre esse grupo, 50 foram para uma única empresa, a DeutschePost, a maior operadora de correios. Outros cem refugiados ainda estão em empregos temporários lá.

"Muitos que vieram para a Europa correram riscos enormes, têm espírito empresarial e querem chegar longe", disse Christof Ehrhart, porta-voz da DeutschePost que ajuda a supervisionar os esforços da empresa para contratar refugiados.

Mas quando alguns começam um estágio em um armazém de pacotes, acrescentou ele, nem sempre dá certo. "Talvez eles não gostem do emprego", disse. "Ou outras circunstâncias dificultam que eles preencham as exigências do emprego."

A língua ainda é o maior problema. Omar tinha longa experiência, trabalhando como alfaiate desde os 13 anos. Mas sua falta de conhecimento de holandês e alemão foi um desafio para os possíveis empregadores.

As empresas europeias muitas vezes não reconhecem certificados profissionais ou diplomas acadêmicos adquiridos na Síria e em países com padrões educacionais diferentes, o que coloca os candidatos em situação desfavorável diante dos concorrentes. Outros chegaram sem capacitação e exigem treinamento intensivo.

Fleur Bakker, uma ativista, iniciou a Companhia de Refugiados com a visão de que as pessoas se assimilam mais rapidamente quando podem começar a trabalhar de imediato, em vez de esperar meses pela burocracia ou até que apareça um emprego real.

Na Holanda, que recebeu 47.600 solicitantes de asilo no ano passado, os recém-chegados não são autorizados a trabalhar durante seis meses. Muitos estavam ficando isolados e até com ideias suicidas enquanto ficavam ociosos em abrigos, disse Bakker.

Ela encontrou cerca de 40 companhias holandesas que concordaram em treinar refugiados e usá-los em trabalhos temporários que, idealmente, levariam a empregos permanentes de acordo com suas qualificações. Ela colaborou com a Prefeitura de Amsterdã para possibilitar que os refugiados consigam experiência de trabalho pouco depois de sua chegada.

Para os que têm sorte de conseguir um emprego, a assimilação pode ser rápida. Muaz Swaid, 27, um dentista sírio que fugiu do conflito em 2014, encontrou trabalho na primavera por meio da Companhia de Refugiados na Rechte Tanden, uma clínica dentária que tinha dificuldades para encontrar holandeses qualificados. Ele ficou parado em abrigos durante um ano antes disso, a certa altura dividindo o espaço com 400 refugiados em uma grande tenda.

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Mahmoud al-Omar costura uma bolsa na Companhia de Refugiados, em Amsterdã

"Nessas condições, você não consegue pensar no futuro", disse Swaid, um homem enérgico. "É difícil ter um recomeço, mas no abrigo você apenas espera continuar vivo."

Seu principal objetivo ao chegar, segundo disse, era encontrar trabalho e parar de viver com os subsídios oficiais para refugiados. "É importante ganhar minha própria vida", disse ele, sorrindo para os colegas que se movimentavam pela clínica branca e esterilizada. "Este país me ajudou, por isso devo fazer alguma coisa em retribuição."

Depois de assinar um contrato de trabalho, ele parou de receber a mesada de 950 euros (cerca de R$ 3.300) do governo para ajudar a pagar as despesas e o aluguel de um pequeno apartamento. Hoje ele paga ao governo cerca de 700 euros por mês em impostos sobre o salário que ganha na clínica e em um segundo emprego em um bar. Ao se estabilizar mais, ele espera que seu salário, e seus impostos, continuem subindo.

Neste mês, a Companhia de Refugiados abriu uma instalação em um antigo presídio que a Prefeitura transformou em abrigo para refugiados. No interior há um escritório envidraçado e uma espaçosa sala de reuniões, onde os refugiados se encontram regularmente para discutir estratégias de emprego e forjar conexões empresariais para ajudar outros na assimilação.

Donos de hotéis e restaurantes holandeses estão trabalhando em um café interno e pretendem transformar algumas das antigas celas da prisão em quartos de um hotel eclético de luxo. Os negócios seriam dirigidos por refugiados para lhes dar experiência e empregos, e para ajudar os restaurantes e hotéis a identificar os melhores talentos para eventuais empregos em suas empresas.

Perto do escritório foi instalada uma fila de máquinas de costura para atender a encomendas de cooperativas de confecção holandesas e até a estilistas de moda que preparam coleções para a Semana de Moda de Paris. Quando a Companhia de Refugiados publicou um anúncio procurando alfaiates refugiados com experiência, Omar foi uma das 20 pessoas que responderam.

"Só de estar em um local de trabalho e interagir com holandeses o faz sentir que você faz parte da sociedade", disse Omar, enquanto um grupo de outros novos cidadãos holandeses fervilhava ao seu redor.

"Você começa a se sentir à vontade e ganhar confiança de que um dia terá um emprego e será independente."

* Katarina Johannsen colaborou na reportagem, de Munique

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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