Paixão nacional, falta de açúcar ameaça tirar egípcios do sério

Diaa Hadid e Nour Youssef

No Cairo

  • David Degner/The New York Times

    Caminhão do governo vende açúcar subsidiado em frente a uma mesquita no Cairo

    Caminhão do governo vende açúcar subsidiado em frente a uma mesquita no Cairo

Os egípcios enchem suas xícaras de chá com açúcar às colheradas. O açúcar, esse ingrediente há muito tempo subsidiado pelo governo para a maior parte da população, é o ingrediente principal do pudim nacional, o "om ali", onde às vezes ele pode parecer como o único ingrediente. Ele é também o principal motivo pelo qual quase um quinto dos egípcios tem diabetes.

Por isso a falta de açúcar durante uma semana deixou as pessoas em pânico. A crise do açúcar, como passou a ser conhecida, logo se tornou símbolo da crescente revolta contra a forma como o presidente Abdel-Fattah el-Sissi tem conduzido sua economia, e contra seu governo em geral.

"As pessoas vão perder a cabeça", disse Ahmad el-Gebaly, enquanto mandava embora os clientes que vinham procurar o açúcar que ele não tinha em sua loja de produtos subsidiados em Bulaq, um bairro de classe trabalhadora do Cairo.

"Ninguém aguenta mais ele", ele disse a respeito de El-Sissi. "O açúcar é como arroz, óleo e trigo. Não pode acabar. Quem consegue viver sem açúcar?"

A economia egípcia, ainda abalada pela turbulência política e pelos ataques de militantes após a revolta de 2011, se encontra em queda livre. Sua libra hoje vale US$0,06 no mercado negro, cerca de metade de seu valor há um ano.

O turismo despencou, as remessas de trabalhadores egípcios no Golfo Pérsico diminuíram e a receita do Canal de Suez caiu. A inflação alcançou uma alta de 15,5%, em sete anos em agosto. A Arábia Saudita adiou um envio de produtos de petróleo este mês, provocando o temor de que esteja se deteriorando a relação com um aliado que apoiou o Egito com mais de US$25 bilhões desde que El-Sissi assumiu o poder em 2014.

O açúcar não é o único ingrediente em falta, com a queda da libra derrubando o poder de importação do Egito. O óleo de cozinha desapareceu das prateleiras por um tempo este ano, de acordo com os habitantes, assim como o leite em pó para bebês, e há pouco arroz no mercado. Algumas pessoas se queixam de não conseguirem encontrar certos remédios, ou sobre o grande aumento dos preços.

El-Sissi, pressionado a reformar a economia, foi culpado pela falta de subsídio ao açúcar e outros produtos com os quais os egípcios vêm contando desde a Primeira Guerra Mundial. Ele reduziu em 14% a parte dos subsídios no orçamento este ano, para cerca de US$ 8,7 bilhões, de acordo com o site de notícias estatal "Ahram Online".

David Degner/The New York Times
Pote de açúcar que é tradicionalmente servido com chá no Egito

Esses cortes e outras ações eram "inevitáveis para salvar a situação econômica", disse El-Sissi em uma entrevista recente a um jornal estatal. Ele descreveu a atual situação como um "gargalo" e prometeu: "Estamos saindo dessa."

Mas as pessoas não estão com paciência. Elas estão desesperadas. O preço oficial do açúcar está em mais de US$ 0,30 o quilo, US$ 0,12 centavos a mais do que há dois anos, e no mercado negro ele triplica. As lojas menores já estão sem açúcar há semanas, e mercados mais luxuosos estão racionando a venda a um quilo por pessoa.

O governo criou uma linha telefônica especial para que os cidadãos denunciem pessoas que estejam acumulando produtos, e a polícia prendeu no domingo um homem em posse de 10kg de açúcar, de acordo com a mídia estatal egípcia.

"É a pior situação de escassez que já vi na minha vida, até onde consigo me lembrar", diz H.A. Hellyer, um membro não residente do Conselho Atlântico, uma organização baseada em Washington. "Acho que todos estão preocupados com a possibilidade de verem uma repetição das revoltas do pão de 1977".

Hellyer estava se referindo aos protestos em todo o país que se seguiram às tentativas de Anwar Sadat, e depois do presidente, de desmantelar o sistema de subsídios. Foi a única tentativa, disse Amro Ali, um professor associado de sociologia na Universidade Americana do Cairo.

Os subsídios, ele acrescentou, eram intocáveis. "É criptonita", ele disse.

Hoje, 88% dos egípcios --cerca de 80 milhões de pessoas-- podem comprar alimentos subsidiados através de cartões eletrônicos emitidos pelo governo. Em um país onde um quarto da população vive em pobreza e milhões de trabalhadores mal têm o suficiente para despesas básicas, os cartões são um salva-vidas. O governo também subsidia água, eletricidade e gás para todos.

Ahmed Kamal, assessor do ministro responsável pelos subsídios, culpou o setor privado, a escassez da moeda forte egípcia e os preços em alta em todo o mundo pela falta de açúcar. Ele disse que havia uma expectativa de que importadores privados trouxessem parte das 800 mil toneladas de açúcar que o Egito precisa comprar de fora todo ano, cerca de um quarto da demanda anual do país por 3,2 milhões de toneladas, mas que o país não havia conseguido atingir sua meta este ano.

Kamal disse que o problema havia sido exacerbado por donos de lojas que estavam acumulando estoques e pela mídia, incitando a revolta da população. Ele acrescentou que o governo ainda tinha um estoque de açúcar para quatro meses.

Mas não havia muito dele disponível em Bulaq, o bairro do Cairo onde a loja de Gebaly era a única mercearia subsidiada confiável aberta. E ele basicamente só ia mandando as pessoas embora.

"Tudo que eu falo, o dia inteiro, é: Não tem açúcar, não tem açúcar, não tem açúcar, amanhã, amanhã, amanhã", disse Gebaly, antes de ser interrompido por mais um cliente pedindo por açúcar. Um homem mais velho que esperava ali perto desistiu, resmungando: "Você fica repetindo: amanhã, amanhã!"

Os moradores dizem que seis outras lojas no bairro que tinham licença para vender itens subsidiados fecharam para evitar repressão policial, mas que às vezes elas abriam fora do horário de funcionamento para vender açúcar ilegalmente para pequenos confeiteiros, cafés e pessoas. A polícia do subsídio já prendeu dois vendedores de açúcar do bairro, de acordo com moradores.

Sumaya Oweis, 37, disse que parou de fazer seu adorado pudim de arroz doce e cortou o chá. Em uma manhã, recentemente, ela bateu em seu filho de 4 anos depois de ele ter enfiado a mão dentro do pote de açúcar. Mas o que ela poderia fazer com seu marido?

"Que Deus destrua a casa de sua mãe!", resmungou Oweis, com as mãos espalmadas sobre o rosto. "Ele coloca açúcar em tudo!"

Para Oweis, assim como muitos moradores, a falta de açúcar veio após meses de adversidades cada vez maiores. Seu marido, um trabalhador itinerante, lutava para ganhar US$ 2 por dia, ela disse. Eles estão comendo menos porque não conseguem acompanhar os preços cada vez mais altos dos alimentos, como as batatas, que custam cerca de US$ 0,52 o quilo agora, cerca de US$ 0,10 mais caro do que semanas atrás.

"Estou emagrecendo", ela disse, apontando para seus braços finos. Suas pílulas anticoncepcionais subsidiadas desapareceram das prateleiras por alguns meses este ano. Quando elas voltaram ao mercado, segundo Oweis, o preço para o suprimento de um mês havia aumentado de US$ 1,30 para US$ 2.

Talvez a falta de açúcar seja de certa forma uma bênção, considerando os problemas de obesidade e diabetes que o Egito enfrenta, escreveu Mohammed Nosseir, um político liberal.

A falta de açúcar, "estimada em 80%, provavelmente representa a quantidade de açúcar que precisamos reduzir em termos de consumo", escreveu Nosseir em um editorial no site do "Daily News Egypt". "Se eles consumissem quantias razoáveis, os egípcios teriam condições facilmente de comprar açúcar não-subsidiado."

Tradutor: UOL

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