Trump pode marcar a volta da imagem de "valentão" dos EUA no Oriente Médio

Ben Hubbard e Anne Barnard

Em Beirute (Líbano)

  • Sabah Arar/ AFP

    Iraquiano acompanha as eleições nos EUA pela televisão em sua casa em Bagdá

    Iraquiano acompanha as eleições nos EUA pela televisão em sua casa em Bagdá

Passar da Síria para o Líbano na noite de terça-feira acabou se mostrando uma parábola para as formas diametralmente opostas como o mundo está vendo a eleição de Donald Trump.

No balcão da imigração, o rosto de um oficial sírio se iluminou quando ele viu um viajante americano.

"Parabéns pelo seu novo presidente!", ele exclamou, fazendo um empolgado sinal de "joia". Trump, disse ele, seria "bom para a Síria".

Sua opinião refletia a de muitos seguidores do presidente da Síria, Bashar al-Assad, que se disseram extasiados com o novo presidente eleito, por acreditarem que ele mudaria as coisas, deixando de apoiar os opositores de Assad na guerra civil síria e abraçando Damasco e seu aliado, Moscou.

No Oriente Médio, assim como em outros lugares do mundo, a surpreendente vitória de Trump chocou muitas pessoas. Mas um novo ocupante do Salão Oval poderia levar a uma significativa reorganização da intervenção americana em uma região complexa. A Arábia Saudita, por exemplo, espera que Trump assuma uma linha dura em relação ao Irã. O Egito vê nele um homem com quem poderá fazer negócios e que não criará caso por causa de direitos humanos.

Como comandante-em-chefe, Trump terá de navegar por muitos dos mesmos problemas com os quais o presidente Barack Obama teve de lidar, desde o colapso das estruturas estatais até as guerras civis, passando por grupos jihadistas extremamente violentos.

Esse caos deu a muitos na região um certo respeito por tiranos, e muitos líderes do Oriente Médio agora esperam que Trump, como presidente, vá mudar as coisas a seu favor.

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Alguns dos planos de Trump para a região parecem se contradizer, como a proposta de uma zona segura para civis na Síria, ao mesmo tempo em que promete trabalhar com a Rússia, que bombardeou civis sírios.

Contudo, ele parece comprometido com duas grandes mudanças de política: trabalhar com a Rússia contra os jihadistas do Estado Islâmico e voltar atrás no acordo nuclear com o Irã.

Ambos os movimentos seriam distanciamentos significativos das políticas de Obama, cujo mandato foi marcado por tensões crescentes entre os Estados Unidos e alguns de seus aliados históricos na região, como Israel, Egito e Arábia Saudita. Mas não está claro se novas iniciativas consertariam o dano.

Jamal Khashoggi, um proeminente jornalista saudita, brincou que depois de uma reunião com Obama, alguém em Riad havia pedido a Deus por uma mudança na Casa Branca.

"E Deus atendeu a seu pedido, literalmente", disse Khashoggi.

Poucos sabiam o que esperar de Trump, ele acrescentou.

Para a Arábia Saudita, Trump sugeriu que ela deveria pagar por garantias de segurança por parte dos Estados Unidos, mas ele também poderia optar por colocar os negócios em primeiro lugar e reforçar uma cooperação econômica, disse Khashoggi.

"Ele precisa deixar as coisas claras agora que é o presidente, de forma que saibamos como lidar com ele", disse.

Em uma região ainda afetada pelas consequências da invasão americana ao Iraque em 2003, muitos temem que a retórica muitas vezes beligerante de Trump possa abrir o caminho para mais intervenções ou ocupações militares. E com seu louvor à prática de tortura contra prisioneiros, muitos se lembraram dos abusos de Guantánamo.

Trump, ao discursar durante um comício de campanha no ano passado a respeito de seu plano para derrotar o Estado Islâmico, usou um xingamento e jurou que bombardearia o grupo. Depois ele sugeriu que faria com que empresas internacionais de petróleo reconstruíssem a infraestrutura usada pelos jihadistas, "e eu a cercaria e pegaria o petróleo."

O embaixador iraquiano Mohamed Ali Alhakim, ao falar na ONU na quarta-feira, disse esperar que a campanha contra o terrorismo continuasse sendo uma prioridade para o novo presidente eleito, embora ele não soubesse exatamente o que Trump faria.

"Ainda não existe uma política clara", ele disse.

Ele não deu muita importância para a declaração de Trump de que os Estados Unidos deveriam tomar o petróleo do Iraque, dizendo ainda que os Estados Unidos possuem mais petróleo do que o Iraque.

"Estamos ansiosos para trabalhar com a nova administração", ele disse.

Bassel Salloukh, um cientista político da Universidade Americana Libanesa em Beirute, disse que o mundo árabe havia por muito tempo mantido duas imagens diferentes dos Estados Unidos; uma como figura de liderança da democracia e dos direitos humanos, e outra como um "valentão" intervencionista.

A vitória de Trump fortalecerá a imagem de "valentão", ele disse.

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"A principal perda nessas eleições foi a ideia de um EUA como líder do mundo democrático através do soft power, de um Estados Unidos bonito, por assim dizer", ele disse.

Alguns acharam bem-vinda a mudança.

Abdel-Fattah el-Sissi, o presidente do Egito, se gabou na quarta-feira de ter sido o primeiro líder mundial a telefonar para dar os parabéns a Trump. Ele até convidou Trump para uma visita.

Foi uma mudança diante de sua relação com Obama, que se distanciou do líder egípcio devido às suas políticas repressivas.

Na quarta-feira, Amr Adeeb, um proeminente apresentador de talk show pró-governo, sugeriu por que uma administração americana muito diferente poderia ser conveniente para El-Sissi.

"Para o Egito, eu vejo Trump como alguém com quem podemos chegar a um acordo", disse Adeeb durante seu programa. "Não dá para fechar nenhum acordo com essa tal de Hillary. Ela é democrata e viria falar conosco sobre direitos humanos", ele acrescentou, "e toda essa coisa bonitinha que vocês já conhecem."

Poucos esperam que Trump vá pressionar governos do Oriente Médio a respeito de direitos humanos ou empregar as forças armadas americanas para proteger civis.

A mídia estatal síria noticiou a eleição de Trump enfatizando que a Rússia o havia apoiado. Mas sua vitória foi uma decepção para a oposição, que esperava que uma vitória de Hillary Clinton significasse mais pressão militar americana sobre Assad e talvez até uma zona de exclusão aérea para protegê-los de seus jatos.

"Estou com medo, estou com medo pela Síria", disse Murhaf Jouejati, o presidente da organização Day After, que pretende preparar os sírios para um futuro democrático. "Esse é um homem que está dizendo abertamente que vai se submeter à decisão dos russos a respeito da Síria. Esta é claramente uma vitória para o regime de Assad."

No entanto, líderes das nações do Golfo Pérsico viram esperança em uma nova direção, de acordo com Mustafa Alani, diretor do departamento de segurança e defesa do Gulf Research Center.

Ele disse que a falta de uma ação vigorosa de Obama no Oriente Médio havia negligenciado aliados dos Estados Unidos ao mesmo tempo em que deixou um vácuo do qual o Irã, a Rússia e o Estado Islâmico poderiam se aproveitar para desestabilizar a região.

"Os dirigentes estão felizes porque haverá uma mudança e uma política externa americana mais efetiva na região", ele disse. "Não será molenga como a de Obama."

Embora outros tenham sentido que os comentários depreciativos de Trump a respeito de muçulmanos o tornariam menos simpático a seus países, Alani não está preocupado.

"Teria sido aquilo um truque para ganhar a eleição?", ele perguntou. "É possível."

* Com contribuição de Ben Hubbard em Beirute, Anne Barnard na Síria, Nour Youssef e Diaa Hadid no Cairo e Somini Sengupta dos Estados Unidos.

Tradutor: UOL

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