Por que o Reino Unido está com dificuldades para encontrar o caminho para o Brexit?

Stephen Castle

Em Londres

Um memorando vazado de uma empresa de consultoria colocou em evidência as divisões que há dentro do gabinete ministerial a respeito da saída do Reino Unido da União Europeia, ao mesmo tempo em que sugere que o governo pode precisar de mais seis meses para se decidir por um plano e recrutar dezenas de milhares de servidores públicos extras.

O documento identificou tensões entre entusiastas da saída britânica, incluindo o ministro das Relações Exteriores Boris Johnson e o ministro do Comércio Exterior Liam Fox, e os que estão lutando para preservar laços econômicos mais próximos com o bloco, como o ministro das Finanças Philip Hammond.

Os entusiastas acreditam que o Reino Unido deve romper completamente com a UE, enquanto os mais cautelosos querem preservar o acesso do Reino Unido ao mercado europeu mantendo sua participação na união alfandegária ou no mercado único, ou talvez algum tipo de combinação dos dois.

Com a aproximação do prazo final de março, autoimposto pela primeira-ministra Theresa May para o início das negociações sobre a saída, esse conflito está se mostrando como o principal obstáculo, e extremamente difícil de se resolver.

Qual a diferença entre a união alfandegária e o mercado único?

Tanto a união alfandegária quanto o mercado único eliminam tarifas entre os Estados-membros. A união alfandegária determina tarifas com as nações não-europeias, de forma que os membros compartilham uma política comercial em comum com o resto do mundo. O mercado único remove barreiras comerciais não tarifárias também, como por exemplo mantendo padrões em comum para produtos. Diferentemente da maior parte dos acordos comerciais, o mercado único também cobre alguns serviços, que são cruciais para o Reino Unido, com seu grande setor financeiro.

Por exemplo, sem a participação do Reino Unido no mercado único, os bancos com base em Londres (incluindo os estrangeiros) não poderiam oferecer muitos dos seus serviços a clientes em nações continentais.

A Noruega possui um acesso considerável (mas não ilimitado) ao mercado único sem fazer parte da UE, ou de sua união alfandegária, ao fazer parte do Espaço Econômico Europeu. A desvantagem é que a Noruega não pode votar sobre as regras que ela deve seguir.

Então por que não buscar um status similar ao da Noruega?

Um labirinto de regras e regulações visando tornar a situação mais justa e harmonizar padrões de produtos enfurece os eurocéticos britânicos e ajudou a alimentar a campanha para sair da UE, conhecida como Brexit.

Mais importante ainda é o fato de que líderes da UE insistem que todos os membros do mercado único devem aderir às quatro liberdades: livre circulação de mão de obra, de capital, de bens e de serviços. No entanto, o controle da imigração foi visto por muitos como a força motriz por trás da votação a favor do Brexit. Então esse abismo precisa ser resolvido. A questão é como.

Para garantir uma participação total no mercado único, o Reino Unido provavelmente teria de contribuir com o orçamento da UE, aceitar a livre circulação de trabalhadores do resto do bloco e aceitar decisões do Tribunal Europeu de Justiça ou de um órgão similar como o tribunal da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA). Isso seria difícil de vender para apoiadores rígidos do Brexit do Partido Conservador de Theresa May.

Seria a união alfandegária europeia uma meta mais prática e alcançável?

Talvez não. Nem todos os membros pertencem à UE; a Turquia, por exemplo, não é membro da UE, mas está na união alfandegária. O Reino Unido seria capaz de comercializar bens livremente dentro da união, que o livraria do fardo e da ineficiência da checagem da origem de todos os produtos que chegam e vêm do bloco. Mas o Reino Unido teria de se submeter a algumas das regulações da UE. Deixar a união alfandegária poderia significar novas tarifas consideráveis, como para as montadoras de automóveis baseadas no Reino Unido. Consequentemente, o ministro das Finanças Philip Hammond aparentemente quer manter a participação na união alfandegária.

Então por que não ficar?

Além de ter de se submeter a algumas das regras da UE, já detestadas pela facção de Boris Johnson, membros da união alfandegária não podem fazer seus próprios acordos comerciais bilaterais pelo mundo. Durante a campanha do referendo, um dos argumentos fundamentais de defensores do Brexit foi que o Reino Unido reconquistaria esse poder e se tornaria uma referência para o comércio global.

O que o governo britânico diz a respeito de planos para o Brexit?

O mínimo possível. Sendo acusado de não ter uma estratégia, ele se recusa a fazer comentários antes de uma definição, dizendo que isso enfraqueceria sua posição na negociação. Mas oficiais britânicos não haviam se preparado para o Brexit antes do referendo e estão tendo de examinar seu efeito sobre cada setor da economia, uma tarefa imensa. Ao fazerem isso, eles parecem estar descobrindo mais perguntas do que respostas.

Mas Theresa May deve ter dado algumas pistas sobre o que está pensando, certo?

Em outubro, ela ressaltou a importância de se retomar o controle da política de imigração e de se libertar o Reino Unido do Tribunal Europeu de Justiça, comentários que sugeriam que ela estava se alinhando com os proponentes de uma ruptura total. Isso desencadeou uma queda brusca na libra.

Mas desde então ela vem pisando com mais cautela, dizendo que o Reino Unido não está enfrentando uma escolha "binária" entre manter uma relação formal com a UE — seja na união alfandegária ou no mercado único, ou uma combinação dos dois— e um completo divórcio. Isso sugere que ela quer algum tipo de acordo híbrido. Isso pode significar a saída e posteriormente a volta para partes dos arranjos econômicos da Europa, como aqueles que ajudam o mercado financeiro e a indústria automobilística, ao mesmo tempo em que oferece algumas contribuições orçamentárias em troca.

 

Tradutor: UOL

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