Embaixador de Israel escolhido por Trump compara judeus de esquerda com nazistas

Matthew Rosenberg

Em Washington

  • Damon Winter/The New York Times

O presidente eleito Donald Trump nomeou David Friedman, um advogado especializado em falências alinhado com a extrema-direita israelense, como seu candidato para embaixador de Israel, promovendo um assessor de campanha que questionou a necessidade de uma solução de dois Estados e comparou os judeus de esquerda nos Estados Unidos aos judeus que ajudaram os nazistas no Holocausto.

Friedman, cujos posicionamentos francos contrastam nitidamente com décadas da política americana em relação a Israel, não esperou muito para sinalizar sua intenção de derrubar a abordagem dos Estados Unidos. Em uma declaração dada pela equipe de transição de Trump anunciando sua nomeação, ele disse que estava ansioso para fazer o trabalho "a partir da embaixada americana na eterna capital de Israel, Jerusalém."

Ao longo de décadas de administrações republicanas e democratas, a embaixada esteve em Tel Aviv, uma vez que o Departamento de Estado insiste que o status de Jerusalém —que tanto Israel quanto os palestinos veem como sua capital de direito— pode ser determinado somente através de negociações como parte de um acordo de paz geral.

Friedman, que não tem nenhuma experiência diplomática, disse que não acredita que seria ilegal Israel anexar a Cisjordânia ocupada e que apoia a construção de novos assentamentos no local, algo que Washington por muito tempo condenou como ilegítimo e um obstáculo para a paz.

A declaração da equipe de transição de Trump focou na longa história de Friedman com Israel, retratando-o como um apoiador amigável do país cujas visões estariam alinhadas com a posição dos Estados Unidos em relação a ele.

"As duas nações tiveram uma relação especial baseada no respeito mútuo e em uma dedicação à liberdade e à democracia", ele disse. "Com a nomeação de Friedman, o presidente eleito Trump expressou seu compromisso em melhorar a relação entre Estados Unidos e Israel e garantir que haverá uma extraordinária cooperação estratégica, tecnológica, militar e de inteligência entre os dois países." A declaração dizia que Friedman era falante fluente de hebraico e "um estudante para toda a vida da história de Israel."

A nomeação de Friedman foi logo elogiada pela Coalizão Judaica Republicana, cujo diretor-executivo, Matt Brook, a chamou de "um sinal poderoso para a comunidade judaica."

Mas, para além dos republicanos, houve manifestações de profunda preocupação em relação à escolha por Friedman. A J Street, uma organização lobista pacífica que tem criticado algumas políticas israelenses, disse em uma declaração que era "veementemente contra a nomeação."

"Como alguém que tem sido um grande amigo americano do movimento de colonização, e que não possui nenhuma credencial diplomática ou política", dizia a declaração, "Friedman deveria ser inaceitável."

Friedman deixou claro seu desdém por esses judeus americanos —especialmente os ligados à J Street— que apoiam uma solução de dois Estados para os israelenses e os palestinos. Em um texto escrito em junho para o site da Arutz Sheva, uma organização de mídia israelense, Friedman comparou apoiadores da J Street com "kapos", os judeus que cooperaram com os nazistas durante o Holocausto.

"Os kapos enfrentaram uma crueldade extraordinária", ele escreveu. "Mas e a J Street? Eles são só defensores presunçosos de uma destruição de Israel feita a partir do conforto de seus seguros sofás americanos —é difícil imaginar alguém pior."

Em uma sessão privada ocorrida este mês no Saban Forum, um encontro anual de figuras americanas e israelenses da política externa, Friedman se recusou a se retratar sobre os comentários e até intensificou o sentimento.

Em uma entrevista, Jeffrey Goldberg, editor-chefe da "Atlantic", perguntou a Friedman se ele se encontraria com grupos variados, incluindo a J Street. Friedman disse que ele provavelmente se encontraria com indivíduos, mas não com o grupo, de acordo com várias pessoas presentes.

Goldberg mencionou então a comparação com os kapos e perguntou se ele a mantinha. Friedman não recuou. "Eles não são judeus, e eles não são pró-Israel", ele disse, de acordo com as pessoas presentes.

Daniel Levy, um ex-negociador de paz israelense de esquerda, disse que ao nomear um embaixador com a postura linha-dura de Friedman, Trump poderia acabar minando a segurança de Israel e dos Estados Unidos e condenar "os palestinos a mais privações de direitos e a desapropriações."

"Se um embaixador americano assume posicionamentos que encorajam ainda mais uma elite colonizadora já triunfalista, então isso provavelmente trará dor de cabeça para os interesses de segurança nacional americana em toda a região e até mesmo para o próprio establishment da segurança de Israel", disse Levy. "Especialmente um embaixador comprometido com a insensata transferência da embaixada americana para Jerusalém."

Em sua declaração, a equipe de Trump observou que Friedman havia realizado seu bar mitzvah 45 anos atrás em Jerusalém no Muro das Lamentações. O muro, o lugar mais sagrado onde os judeus podem rezar, é remanescente do muro de contenção que cercava o antigo Monte do Templo, o local mais sagrado no judaísmo.

O lugar hoje abriga o complexo da mesquita de Al-Aqsa, o terceiro lugar mais sagrado do islamismo. O controle sobre o local tem sido uma fonte persistente de atrito entre Israel e os palestinos, provocando violência entre os dois lados.

Mais recentemente, o próprio Muro das Lamentações tem sido fonte de tensão e de conflitos entre as autoridades ortodoxas que controlam o local e judeus mais liberais, muitos dos quais são da América do Norte e contrários às restrições contra as mulheres, que não podem rezar no local.

Tradutor: UOL

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