Em uma cidade afegã devastada na guerra, são poucos os que cuidam dos vivos e dos mortos

Mujib Mashal

Em Kunduz (Afeganistão)

  • Najim Rahim via The New York Times

    Allah Mohammed faz a massa de pão para vender em Kunduz, no Afeganistão

    Allah Mohammed faz a massa de pão para vender em Kunduz, no Afeganistão

Allah Mohammed, 37, ajuda a sustentar a vida assando pão o dia todo no pequeno forno de sua loja de esquina na cidade de Kunduz. Parte do teto de sua padaria cedeu onde foi atingido por um foguete durante o mais recente cerco do Taleban.

Em outro canto da cidade, Abdul Rassoul, 65, trabalha quando a vida se vai. Ele é coveiro e água as árvores que pontilham o cemitério. Ele também afugenta os viciados em drogas que tentam roubar as grades das sepulturas, ou os meninos pastores cujos rebanhos passam por cima das covas, atirando pedras e os xingando.

Os dois homens acordam por volta das 3h da manhã, quando o restante dos moradores de Kunduz está dormindo, com exceção de alguns poucos.

A vida deles está entrelaçada em um padrão maior de dificuldades e resistência na cidade. Os buracos de bala nas paredes após cada cerco (a cidade foi tomada pelo Taleban duas vezes em pouco mais de um ano) são lembretes do que poderia facilmente ocorrer de novo, e provavelmente ocorrerá. Assim, a população de Kunduz tenta tratar isso como se fosse apenas mais outra disrupção entre uma longa série delas.

Após despertarem no escuro, Mohammed e seus dois funcionários começam a trabalhar com duas sacas de farinha, cerca de 68 quilos no total, enquanto preparam a primeira leva de massa.

Entre os poucos outros moradores acordados àquela hora estão o vigia noturno idoso da quadra, que caminha por horas entre as lojas fechadas ao longo do caminho (de material de construção, de molduras de janelas e uma farmácia). Após a passagem de seu turno para seu filho, ele se encolhe em um canto da padaria para dormir, aquecido por um cobertor e pelo calor do forno.

Aguardando pela massa crescer, os padeiros acendem o fogo do forno enquanto o chamado matinal à oração começa a ecoar pela cidade. A cada refeição, eles vendem cerca de 500 pães chatos, cada um por 10 afeganis (cerca de R$ 0,50).

Quando o Taleban tomou partes da cidade de novo em outubro e ocorreram combates pesados, as vendas caíram. Mesmo faminta, a maioria das pessoas não ousava sair à rua.

"Eles disseram que o Taleban tinha tomado a principal rotatória, mas não acreditei", disse Ghulam Rasoul, 27, um dos funcionários da padaria. "Mas quando talibãs vieram aqui comprar pão, eu disse: 'OK, a cidade caiu'."

Muitos padeiros da cidade aumentaram o preço do pão na ocasião, tentando lucrar com tempos desesperados, ou devido à alta dos preços dos ingredientes. Mohammed disse que se manteve firme. Durante os três dias de combates ele permaneceu aberto, até que um foguete atingiu seu telhado e o forçou a fechar temporariamente. Porém ele disse que manteve o preço a 10 afeganis.

"Como poderia fazer isso? Se aumentasse o preço nos momentos difíceis, como poderia depois olhar nos olhos das pessoas?" disse Mohammed.

O mesmo entendimento prevaleceu no cemitério durante aqueles dias difíceis, quando poucos corpos chegavam para enterro enquanto o combate persistia. Entre os mortos que o coveiro enterrou durante as duas semanas de cerco estavam três viciados em drogas que eram moradores de rua e foram baleados. Alguém os trouxe ao cemitério em uma carreta para moto.

"Nós os enterramos de graça", disse Mohammed Massoud, o filho de 15 anos do coveiro e seu ajudante. "O que alguém poderia receber de um drogado?"

Os combates não mudaram muito a rotina do coveiro. Às 3h da manhã, com o som dos disparos quebrando a tranquilidade da madrugada, Rassoul acordava seu filho e os dois seguiam para o cemitério. Eles queriam estar lá de prontidão caso um enterro fosse necessário. Certas noites, Rassoul dorme no banco de trás de um caminhão quebrado nos fundos do cemitério, para assegurar que esteja no trabalho o mais cedo possível.

Em um dia normal, ele cobra cerca de US$ 20 (cerca de R$ 67) por sepultura. Ele as cava para pessoas de todo tipo: quatro membros de uma família que morreram em uma avalanche; dois irmãos que se afogaram a caminho da Europa; um homem pashtun de 35 anos chamado Gul Ahmad, que morreu em um bombardeio americano.

Em uma manhã de terça-feira, um bebê, de apenas três dias, foi trazido para ser enterrado. Cerca de duas dúzias de homens chegaram em um pequeno comboio. O pai do bebê, um pregador, tirou os sapatos e meias e desceu à sepultura para depositar o corpo minúsculo, envolto em um tapete de oração.

"Se o filho de alguém morre e ele demonstra paciência, Deus lhe dará um palácio feito de vidro no paraíso", disse o pai em seu sermão, assim que os homens acabaram de cobrir a sepultura com terra. "É feito de vidro, para que se possa ver de fora para dentro e de dentro para fora. Ele tem portas e camas douradas. Não temos a capacidade de compreender isso agora. Eles chamam de casa do agradecimento, porque você é grato a Deus."

Enquanto o comboio deixava a área, Rassoul correu para borrifar água sobre a nova sepultura. Ele recebeu uma gorjeta de US$ 0,75 (cerca de R$ 2,50).

Logo depois do enterro, um homem jovem chamado Noor Mohamed chegou com um veneno para rato extra forte chamado Commando. Dois ratos abriram um túnel até a sepultura de seu irmão, Baz Mohammed, um soldado do Exército afegão morto em combate. Ele chamou o coveiro e mostrou o problema, e então lhe deu o veneno para rato.

Rassoul fez objeção. "Não se pode jogar veneno na sepultura", ele explicou. "Você quer matar os ratos. Mas e se um pássaro pousar na sepultura, comer o veneno e morrer? Quem será responsável por esse pecado?"

Então fez uma sugestão a Noor Mohammed: ele deveria comprar uma ratoeira e um pedaço de corda e depois ele cuidaria do resto, Rassoul disse ao jovem.

Para que a corda, perguntou Noor Mohammed?

Rassoul explicou o que a aconteceu da última vez que não usou uma corda. Um cachorro de rua viu o rato pego pela ratoeira e o levou entre seus dentes, com ratoeira e tudo. Rassoul e seu filho tiveram que perseguir o cachorro por todo o cemitério, em vão.

A ratoeira de Mohammed ficaria presa firmemente em uma corda presa à grade da sepultura de seu irmão, prometeu Rassoul.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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