Contra a segregação, distrito de Nova Jersey une alunos ricos e pobres na escolas

Kyle Spencer

Em Morristown, Nova Jersey (EUA)

  • Bryan Thomas/The New York Times

    Criado em 1971, distrito escolar de Morris há muito se dedica à diversidade

    Criado em 1971, distrito escolar de Morris há muito se dedica à diversidade

Quando começa o movimento matinal na Escola Elementar Alexander Hamilton, em Morristown, os estudantes com suas mochilas saem dos ônibus escolares que chegam, um após outro, durante 15 minutos. Quando isso termina, as crianças de alguns dos enclaves mais privilegiados da região, e algumas dos mais pobres, passam em fila pela porta da frente para começar o dia juntas.

O Distrito Escolar de Morris foi criado em 1971, depois de uma decisão judicial estadual que levou à fusão de duas comunidades do norte de Nova Jersey --os subúrbios principalmente brancos de Morris Township e o polo urbano racialmente misto de Morristown-- em um só distrito escolar, com o objetivo de manter o equilíbrio racial e econômico.

O distrito de 5.226 estudantes é um dos poucos nos EUA criados por meio dessa fusão como parte de uma iniciativa de integração determinada por um tribunal, e um dos muitos menos que sobrevivem. Enquanto comunidades do mundo todo vêm debatendo como abordar a segregação nas escolas, com algumas propostas de integração encontrando forte oposição, um novo relatório da Century Foundation, um grupo de pensadores de tendência esquerdista, diz que a Morris é um modelo de "diversidade e união".

O distrito de Morris é notável porque há muito se dedica à diversidade, mesmo quando a composição de seu corpo discente mudou. Enquanto isso, as escolas próximas e na cidade de Nova York continuaram profundamente segregadas.

Isso não quer dizer que a história do distrito tenha sido livre de lutas. Ao longo dos anos, partes de Morristown foram renovadas, empurrando para longe as famílias negras de média e baixa renda. Ao mesmo tempo, chegou uma onda de imigrantes hispânicos pobres da Colômbia, de Honduras e El Salvador. Nos últimos 15 anos, a população de estudantes afro-americanos do distrito caiu 33%. Em troca, sua população hispânica cresceu quase 87%; as crianças que estão aprendendo inglês perfazem 11% do corpo discente de Morris.

O distrito está contratando professores que falem espanhol. Ele indicou recentemente um diretor de contato em tempo parcial. E está acrescentando dezenas de salas de aula bilíngues, investindo em aparelhos de tradução simultânea e reuniões distritais, e criando um ramo de fala espanhola na associação de pais e mestres de certas escolas.

Muitos pais brancos do distrito, na maioria profissionais com instrução superior cujos filhos ainda representam a maioria do corpo discente, dizem estar comprometidos com esses esforços.

"Eu vim para cá porque adoro a diversidade", disse Liz Szporn, mãe de alunos da terceira e quinta séries na Alexander Hamilton.

Mas alguns pais --negros e brancos-- se queixam de que o distrito quer ajudar seus alunos que falam espanhol às custas de seus colegas falantes de inglês. Os contribuintes locais se queixaram de que seu dinheiro vai para estudantes que estão ilegalmente nos EUA. Um número desproporcional de famílias ricas do distrito está enviando seus filhos a escolas privadas.

"Estamos fazendo o melhor que podemos", disse Mackey Pendergrast, o superintendente de Morris. "Mas os desafios continuam surgindo."

A Alexander Hamilton educa 309 estudantes da terceira à quinta séries, como parte do sistema escolar elementar dividido de Nova Jersey.

A decisão judicial de 1971 que criou o distrito foi consequência de um processo movido por um grupo de moradores da área depois que Morris Township declarou que ia construir um colégio próprio, tirando seus estudantes da Morristown High, que os dois municípios compartilhavam até então com duas outras comunidades suburbanas de maioria branca. Isso teria criado distritos racialmente separados, pelo menos um rico e branco nos subúrbios e, muito provavelmente, um mais pobre de maioria negra em Morristown.

A Suprema Corte estadual decidiu que permitir a medida violaria a Constituição de Nova Jersey e uma decisão anterior que pedia que as comunidades tomassem "medidas razoavelmente factíveis" para criar equilíbrio racial nas escolas.

O comissário da educação estadual, Carl Marburger, foi encarregado de criar um plano para evitar a segregação. Um novo conselho escolar foi implantado para fundir as duas comunidades em um único distrito K-12 (escolas elementar e secundária).

Muitos pais resistiram. A inquietação racial na escola secundária levou a seu fechamento por uma semana. E quando chegou a hora de renomear o comissário estadual adversários no Senado estadual bloquearam sua recontratação, denunciando-o por seus esforços para apoiar a integração racial por meio dos ônibus. Essa reação, acredita-se, desencorajou a criação de distritos semelhantes, apesar da proteção constitucional do Estado contra a segregação.

Hoje Nova Jersey tem uma das leis mais fortes contra a segregação, mas ao mesmo tempo algumas das escolas mais segregadas do país, segundo Paul Tractenberg, professor emérito na faculdade de direito da Universidade Rutgers e presidente do Centro para Diversidade e Igualdade na Educação.

Inúmeros estudos mostraram que estudantes de alta e baixa renda gozam de extensos benefícios em consequência da integração econômica e racial.

Mas algumas famílias de estudantes com problemas de aprendizado, e as que acreditam que seus filhos se beneficiariam mais da atenção individual, queixam-se de que o distrito está concentrado demais nas crianças que ainda aprendem inglês. Holly L. Blumenstyk, uma especialista em aprendizado de Morristown e consultora de escolas privadas, disse que muitos desses pais estão recorrendo a escolas independentes porque querem que as necessidades escolares de seus filhos sejam encaradas "de maneira mais robusta".

Se algumas famílias decidem sair das escolas por causa da mistura racial é difícil dizer, mas dados sugerem que elas estão escolhendo escolas particulares em um índice mais alto do que seus homólogos no resto do Estado. Segundo a pesquisa comunitária dos EUA de 2014, mais de 14% dos estudantes secundários do distrito e pouco mais de 12% dos estudantes do K-8 (dos 5 aos 14 anos) frequentam escolas privadas, bem acima da média estadual de 11,4% para secundaristas e 10,6% para alunos de K-8.

Leonard Posey, que é presidente do conselho escolar e é negro, disse que o distrito trabalha ativamente para evitar a "fuga branca", oferecendo programas interessantes como aulas de Advanced Placement ["Colocação Avançada", um programa educacional do país que fornece créditos para estudantes utilizarem nas universidades].

Mas quem é encaminhado para essas vias ainda é uma questão.  Nile Birch, um jovem do primeiro ano secundário que é negro, disse que a maioria dos alunos em suas classes avançadas é branca. "Em geral, não são muito diferentes", disse ele sobre as classes de nível mais alto.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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