Em inquérito sobre corrupção, o pior inimigo de Netanyahu pode ser ele mesmo

Isabel Kershner e Peter Baker

Em Jerusalém (Israel)

  • Gali Tibbon/AFP

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, domina a política israelense há anos, superando ou contornando todos os adversários, o sobrevivente máximo em um sistema que engoliu muitos de seus antecessores.

Mas depois de uma visita noturna de investigadores de polícia que leram seus direitos antes de lhe perguntar se ele era corrupto, Netanyahu agora enfrenta um novo tipo de desafio. O oponente que poderia afundá-lo é ninguém menos que o próprio Benjamin Netanyahu.

Abraham Diskin, um cientista político do Centro Acadêmico de Direito e Ciência, perto de Tel Aviv, que já assessorou Netanyahu, disse que "não está muito claro se Netanyahu escapará de algum tipo de acusação". E "quando houver uma acusação, ele terá de renunciar", acrescentou.

Os detalhes da investigação de corrupção continuam nebulosos --"a verdade é que não sabemos nada", disse Diskin--, mas as perguntas que ela levanta são claras: poderia o apetite por uma vida de alto padrão oferecida por executivos ricos ter solapado Netanyahu, como fez com tantos outros políticos israelenses e do mundo todo?

Antigos inquéritos que se estendem pelos mais de 20 anos de vida pública de Netanyahu examinaram as viagens de sua família e despesas domésticas, sem resultar em acusações. Mas aliados e inimigos, igualmente, já diziam que este caso pode ser diferente.

O interrogatório policial de três horas em sua residência oficial na noite de segunda-feira ocorreu em um momento de destaque para Netanyahu no cenário internacional.

Após anos de uma batalha acirrada, ele se envolveu em uma guerra de alto calibre com o presidente Barack Obama nas últimas semanas deste no governo. Ao mesmo tempo, Netanyahu foi calorosamente abraçado pelo presidente eleito dos EUA, Donald Trump, apresentando um alinhamento mais próximo do que qualquer outra dupla de presidente e primeiro-ministro em tempos modernos.

Um conservador com uma coalizão de governo estável, Netanyahu saiu do interrogatório policial com um discurso desafiador contra as elites de esquerda e a mídia por considerá-lo prematuramente fora do jogo. Apelando a apoiadores de direita, ele negou as acusações, insistindo que todas "darão em nada, porque não há nada".

Mas o procurador-geral de Israel, Avichai Mandelblit, que foi escolhido por Netanyahu para o cargo depois de um período como seu chefe de gabinete, tem sido um modelo de cautela, levando meses para transformar um inquérito preliminar em uma investigação criminal, algo que, segundo os comentaristas jurídicos e políticos do país, aumentou o peso das suspeitas.

"Mandelblit tentou fazer o possível para não chegar ao ponto de Netanyahu ser questionado como suspeito", disse o colunista Amir Oren no jornal "Haaretz". "Se depois de todas as suas contorções e reviravoltas o procurador-geral foi obrigado a ordenar uma investigação que ele esperava arquivar, a opção normal daqui em diante é um indiciamento."

Depois que os investigadores da polícia saíram da casa de Netanyahu, Mandelblit emitiu uma declaração explicando vagamente o caso. Ele disse que Netanyahu era suspeito de receber presentes e benefícios.

No dia seguinte, os israelenses discutiam como tudo isso poderia afetar Netanyahu, se os primeiros-ministros em exercício devem ser investigados e, nesse caso, em que ponto devem renunciar.

Os meses de inquéritos múltiplos se concentraram em questões envolvendo a "integridade moral" --termo que os especialistas em direito dizem que pode incluir suspeitas de quebra de confiança, conflito de interesses e suborno.

Grande parte da declaração de Mandelblit foi dedicada a casos anteriores que foram encerrados por falta de provas, incluindo um escândalo de despesas de viagem conhecido como Bibi Tours, usando o apelido de Netanyahu, e um sobre financiamento de campanha em 2009.

Netanyahu, que está servindo seu terceiro mandato consecutivo desde aquela eleição e o quarto no total, denunciou essas investigações em uma postagem no Facebook.

"Bibi Tours --nada! Denúncia de financiamento eleitoral proibido --nada!", escreveu ele, citando reportagens na mídia israelense ao longo dos anos como "perseguição diária a mim e minha família" e "absurdos completos".

A lei israelense exige que um primeiro-ministro renuncie se for condenado por crimes sérios. Mas em uma decisão presidencial de 1993, a Suprema Corte israelense determinou que um ministro de governo, Aryeh Deri, renunciasse imediatamente depois que o procurador-geral apresentou um indiciamento contra ele por corrupção.

"Se todo mundo que enfrentar uma investigação tiver de renunciar, isso poderia se transformar em uma ferramenta usada para destruir os outros politicamente", disse a ministra da Justiça, Ayelet Shaked, à Rádio Israel. "É por isso que a ideia de a renúncia vir somente depois do indiciamento é a correta", acrescentou ela.

Esta não foi a primeira vez que Netanyahu foi questionado como suspeito de crime no exercício do cargo. Em seu primeiro mandato, no final dos anos 1990, ele foi questionado em um caso que envolvia a nomeação de um procurador-geral como parte do que, segundo a polícia, foi um acordo político envolvendo Deri. Netanyahu não foi acusado nesse caso, nem em vários outros pelos quais foi investigado quando não estava no governo.

Outros primeiros-ministros israelenses também foram submetidos a investigação policial por acusações de irregularidades em campanha e corrupção. Ehud Barak e Ariel Sharon foram interrogados. O antecessor de Netanyahu, Ehud Olmert, foi obrigado a deixar o cargo em 2008, antes que fossem feitas acusações contra ele, e tornou-se o primeiro ex-primeiro-ministro israelense a ingressar na prisão. Ele está servindo uma pena de 19 meses por suborno e obstrução de justiça.

Moshe Katsav, um ex-presidente, foi recentemente libertado da prisão após cumprir cinco anos de uma pena de sete por estupro.

Alguns dos seguidores de Olmert sentiram que ele foi vítima de um promotor exageradamente zeloso, embora muitos israelenses se orgulhem do fato de ninguém ser imune à lei.

Mas com os seguidores de Netanyahu afirmando que ele é vítima de uma caça às bruxas política, alguns legisladores de direita estão tentando promover uma lei que proibiria as investigações criminais de primeiros-ministros no cargo. (Tal legislação provavelmente viria tarde demais para poupar Netanyahu.)

Os críticos da lei afirmam que tal proibição seria problemática em um país pequeno como Israel, e com um sistema político que não tem limite de mandatos para o primeiro-ministro.
"Se os primeiros-ministros soubessem que haveria uma investigação só depois que seu mandato terminasse, eles transformariam o cargo em um porto seguro e usariam os poderes e recursos do Estado para prolongar sua estada no cargo e evitar o processo judicial", disse Yohanan Plesner, presidente do Instituto da Democracia de Israel, um centro de pesquisas apartidário em Jerusalém.

Plesner, um ex-deputado, acrescentou que as suspeitas ainda surgiriam na mídia e se não fossem investigadas formalmente a confiança pública nas instituições políticas poderia se desgastar.

Quando Olmert foi investigado, Barak, então seu ministro da Defesa --embora de um partido diferente-- o forçou a deixar o cargo.

Os governos de coalizão de Israel têm uma fraqueza inerente, em que os partidos que participam da coalizão são muitas vezes adversários políticos competindo por votos na próxima eleição.

Até agora, parece que o partido de Netanyahu e seus parceiros na coalizão o estão apoiando, ou manifestando apoio ou mantendo silêncio.

Mas a investigação poderá durar meses, ou mais, e isso poderia criar tensão política.

Por enquanto, disse Plesner, "os críticos de Netanyahu usarão isso para continuar sendo críticos, e seus apoiadores encontrarão maneiras de interpretá-lo".

 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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