Agricultor em julgamento defende contrabando de refugiados: "Eu sou francês"

Adam Nossiter

Em Nice (França)

  • Pierre Terdjman/The New York Times

    Cedric Herrou, produtor de azeitonas que ajudou imigrantes que cruzaram a fronteira ilegalmente da Itália para a França, em sua casa nas montanhas em Breil-sur-Roya, na França

    Cedric Herrou, produtor de azeitonas que ajudou imigrantes que cruzaram a fronteira ilegalmente da Itália para a França, em sua casa nas montanhas em Breil-sur-Roya, na França

Às vezes era difícil saber quem estava sendo julgado, o contrabandista ou o Estado.

O réu, Cédric Herrou, 37, um produtor de azeitonas de porte frágil, não negou que durante meses ele havia conduzido ilegalmente dezenas de migrantes pelo remoto vale nas montanhas onde vive. E faria tudo de novo, conforme sugeriu.

Em vez disso, quando perguntado por um juiz "Por que você faz tudo isso?", Herrou virou a mesa e questionou a humanidade da prática francesa de deter e devolver os africanos que entram ilegalmente, vindos da Itália, em busca de trabalho e de uma vida melhor. Era "ignóbil", segundo ele.

"Há pessoas morrendo ao lado da estrada", retrucou Herrou. "Não está certo. Há crianças que não têm segurança. É revoltante ver crianças às 2h da manhã, completamente desidratadas. Eu sou francês", declarou Herrou.

O julgamento, que começou na quarta-feira (4), não é comum. Ele teve cobertura substancial da mídia francesa por seu rico simbolismo e pelo modo como resume claramente a ambiguidade da política da França em relação ao incessante fluxo de migrantes para a Europa e os problemas que representam.

A França, mais que qualquer outro país, orgulha-se de seu humanitarismo esclarecido, fraternidade e solidariedade. No entanto, talvez também à frente de todos, está lutando para reconciliar esses valores com as realidades prementes de um mundo menor, mais globalizado, incluindo o medo do terrorismo.

As contradições estão aparecendo nos tribunais, na política e nos campos agrícolas, nas calçadas de Paris e nas estações de trens da Côte d'Azur ao porto de Calais, onde o governo demoliu um acampamento gigantesco de imigrantes no outono.

Por um lado, os políticos nas eleições presidenciais deste ano estão disputando para ver quem consegue adotar a linha mais dura sobre a segurança das fronteiras francesas. A maioria promete uma repressão aos migrantes, com a admissão reservada aos casos muito claros de perseguição política. Os atentados terroristas, incluindo o do último verão em Nice que matou 85 pessoas, exacerbaram o sentimento anti-imigrantes.

Mas nesses vales remotos nas montanhas, onde os judeus que fugiam do nazismo e dos colaboradores de Vichy encontraram refúgio durante a Segunda Guerra Mundial, Herrou tornou-se uma espécie de herói ao liderar uma espécie de ferrovia subterrânea para levar imigrantes ao norte, muitos com destino ao Reino Unido ou à Alemanha. Seu trabalho lhe conquistou admiração por sua resistência ao Estado e sua posição de que é simplesmente certo ajudar os semelhantes.

Outros nessa região parecem concordar. Na praça diante do tribunal, centenas de simpatizantes se reuniram e gritaram "Somos todos filhos de imigrantes!"

Herrou teve uma recepção de herói quando desceu as escadas do edifício tarde da noite, acompanhado por câmeras de televisão.

Lá dentro, nem mesmo o promotor, Jean-Michel Prêtre, parecia querer prendê-lo e elogiou sua causa como "nobre". Ele pediu uma pena de oito meses, mas rapidamente emendou ao tribunal que ela deveria ser suspensa, "é claro".

Mas a lei é a lei.

Pierre Terdjman/The New York Times

"Ele demonstrou uma intenção manifesta de violar a lei", disse Prêtre ao tribunal. "Podemos criticá-la, mas tem de ser aplicada."

O veredicto, que será dado pelo painel de três juízes que ouviram o caso nesta semana --não havia júri--, deverá ser anunciado em 10 de fevereiro.

A ideia de que Herrou está tentando manter o que ele considera valores franceses básicos, em vez de violar a lei, é grande parte do motivo pelo qual ele parece gozar de uma medida considerável de apoio popular. O argumento formou a essência da estratégia de defesa de seu advogado.

Lembrem da última palavra do lema da Revolução Francesa: "Liberté, Egalité, Fraternité", disse ao tribunal seu advogado, Zia Oloumi.

"Eles estão dizendo que Herrou põe em risco a República", disse Oloumi aos juízes. "Pelo contrário, acho que ele está defendendo seus valores.

"Você veem, temos esse valor, a fraternidade, e o dicionário é muito claro", disse Oloumi. "Pensem no impacto de sua decisão sobre a aplicação prática da ideia de fraternidade."

Herrou não estava defendendo uma opinião política, insistiu Oloumi. Estava apenas reagindo a uma crise humanitária em seu próprio quintal: o vale do Roya havia se tornado uma estação para migrantes.

Os juízes não responderam. Mas a leveza da sentença pedida por Prêtre sugeriu que os conceitos invocados por Oloumi repercutiram.

Os acusadores de Herrou pareciam os mais afetados por sua insistência. Nem todo imigrante que Herrou recolhe está ao lado da estrada. Ele encontra muitos diante do campo de migrantes do outro lado da fronteira italiana, em Ventimiglia, procurando especialmente mulheres e crianças.

A juíza que presidiu o processo, Laurie Duca, lembrou-lhe que ele foi preso pela primeira vez em agosto, perto de sua casa na montanha em Breil-sur-Roya, com uma van cheia de migrantes.

Na época, a promotoria o libertou, sugerindo que os motivos humanitários de Herrou o absolviam. A primeira prisão foi evidentemente apenas uma advertência.

"Depois de agosto, o senhor disse que sabia que era ilegal", salientou Duca no tribunal. Não importa. Herrou persistiu, descrevendo seu trabalho de contrabando de imigrantes a jornalistas no último outono e até ocupando um acampamento de verão não utilizado, de propriedade da ferrovia estatal, quando sua modesta residência ficou lotada.

Naquela altura --em meados de outubro--, as autoridades decidiram que estavam cansadas dele.

"O senhor estava lá e foi extremamente ativo", disse a juíza. "Por que tanta imprensa?"

Herrou respondeu: "É certo que a sociedade deve saber sobre tudo isto".

A juíza e o promotor sugeriram que desta vez Herrou não terá o tratamento humanitário que teve antes. O establishment político local está furioso com ele.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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