Em tom bélico, "Igreja Militante" declara guerra a não religiosos nos EUA

Samuel G. Freedman

Em Minneapolis (Minnesota, EUA)

  • Brittany Greeson/The New York Times

    Michael Voris, que comanda o site do movimento "Igreja Militante" nos EUA

    Michael Voris, que comanda o site do movimento "Igreja Militante" nos EUA

Uma semana depois que Stephen K. Bannon ajudou a organizar a revolta populista que levou à eleição de Donald Trump, o site BuzzFeed descobriu uma gravação dele falando em uma conferência de católicos conservadores no Vaticano em 2014.

Em sua apresentação, Bannon, então diretor do site de extrema-direita Breitbart News e hoje principal estrategista de Trump, conclamava a "igreja militante" a travar uma guerra global contra uma "nova barbárie" de "fascismo islâmico" e elites financeiras internacionais, pondo em risco 2.500 anos de civilização ocidental.

Enquanto a maioria dos ouvintes provavelmente não deu importância à expressão "igreja militante", os católicos informados a terão reconhecido como um conceito profundamente inserido nos ensinamentos da igreja.

Além disso, terão percebido que Bannon tirou o termo de contexto, invocando-o em um apelo ao conflito cultural e militar, mais que sua antiga conotação de uma guerra espiritual, particularmente da alma individual.

Conforme o governo Trump se prepara para assumir o governo, o uso da teologia da Igreja Militante foi muito além de seu significado religioso e assumiu uma ressonância política. Para compreender totalmente o que significa "Igreja Militante" nessa atmosfera altamente politizada, é útil examinar o movimento mais amplo e o papel de um site tradicional católico chamado --como se poderia esperar-- ChurchMilitant.com.

As posições direitistas do site contra a globalização, a imigração, os programas de assistência social e o aborto, assim como sua representação de uma guerra existencial contra o islamismo radical, misturam-se a muitas das posições defendidas por Trump e seu círculo mais próximo. (Bannon não respondeu às perguntas enviadas ao escritório de transição de Trump.)

Michael Vortis, o principal produtor-executivo de ChurchMilitant.com, disse que as posições do site são uma defesa do patriotismo e da moral em nome das pessoas que acreditam que essas virtudes foram atacadas pelos liberais, os secularistas e as elites globais.

"Isso se resume a forças que acreditam em Deus e outras que não", disse ele, acrescentando: "De modo geral, eu diria que é uma guerra de religião versus não religião".

Brittany Greeson/The New York Times
Capela dentro da sede do movimento conservador "Igreja Militante", em Michigan

Para alguns estudiosos católicos e ativistas contra o ódio, a emergência da teologia da Igreja Militante de um modo politizado e altamente partidário é perturbadora.

"Esse é um grupo radical, e a questão é se o número está crescendo", disse o reverendo John T. Pawlikowski, professor de ética social na União Teológica Católica em Chicago, referindo-se a um movimento mais amplo que inclui a ChurchMilitant.com. "Se a eleição de Trump chamar essa coisa de um ensinamento católico mais autêntico, será um desastre."

A expressão tem origem nos primeiros séculos da Igreja Católica, quando a comunidade --vivos e mortos-- era vista como tendo três partes. Estas foram mais tarde chamadas de Igreja Triunfante (composta por aqueles que estão no céu), a Igreja Padecente ou Igreja Penitente (os do purgatório) e a Igreja Militante (os que estão na terra).

O ensinamento católico afirmava que os esforços espirituais da Igreja Militante acelerariam a ascensão aos céus das almas no purgatório. Mas como um conceito que se formou durante a perseguição romana aos primeiros cristãos e assumiu uma conotação marcial durante as cruzadas poderia ser compreendido em uma sociedade democrática, capitalista, poliglota e multimídia como os EUA modernos?

"Quando você ouvia a expressão 'Igreja Militante', não trazia à mente um chamado às armas ou algum tipo de ação mobilizada e militante do modo como entendemos o termo hoje", disse John C. Cavadini, um professor de teologia na Universidade de Notre Dame.

"Grande parte da luta da Igreja Militante é contra as tentações interiores que o levam à cobiça e a todo tipo de patologia espiritual. E tem a ver com envolver-se em atos de compaixão. Parte da vitória da Igreja Militante é a vitória do amor. Não tinha a conotação triunfalista e militarizada que lhe foi acrescentada hoje."

Enquanto o termo permanece no catecismo católico, que foi promulgado pelo Concílio de Trento em meados dos anos 1500, o catecismo oficial produzido sob o papa João Paulo 2º em 1992 substituiu "igreja militante" por "peregrinos na terra". O catecismo adulto então criado pelos bispos católicos nos EUA adotou essas palavras, e elas são majoritariamente a norma na prática católica nos EUA e no exterior.

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Patrick J. Buchanan, um dos precursores de Trump em disputar a Presidência sobre uma plataforma de populismo de direita, adotou a teologia da Igreja Militante em um ensaio de 2009 na revista conservadora "Human Events". Depois de delinear os conflitos entre líderes católicos e políticos democratas sobre questões como o aborto e a contracepção, Buchanan fez uma afirmação mais abrangente:

"O catolicismo é necessariamente uma fé e cultura adversária em uma América [os EUA] onde o secularismo triunfante capturou os cumes, de Hollywood à mídia, as artes e a academia, e aprecia nada mais que os insultos e a zombaria blasfema à igreja de Roma".

As palavras poderiam servir como declaração de missão para a ChurchMilitant.com de Voris. Um produtor de televisão que renunciou a sua vida pregressa como gay, Voris, 55, desenvolveu uma operação de mídia no estúdio da ChurchMilitant.com, em um subúrbio de Detroit, que produz livros, artigos online, vídeos no YouTube, podcasts e um programa de entrevistas diário. Estes atraem, ao todo, cerca de 1,5 milhão de espectadores por mês, segundo Voris.

Em uma versão anterior, a ChurchMilitant.com operou como Real Catholic TV, até que a Arquidiocese de Detroit a obrigou a parar de usar esse nome porque não tinha autorização. Enquanto algumas das questões chaves da ChurchMilitant.com são vitais para os católicos tradicionais --a missa em latim, por exemplo--, outras se enquadram nitidamente na paisagem política secular. E o fazem de forma estridente.

A ChurchMilitant.com, por exemplo, rejeita a mudança climática como um embuste. Ela comparou o movimento Black Lives Matter ["Vidas Negras Importam"] ao "novo fascismo". Hillary Clinton, que ela habitualmente chama de "Killary", era "o pano de chão de Satã para limpar até a última resistência a ele na América". Voris descreveu os programas de assistência social como um sistema em que "a metade da população dos EUA" não paga impostos e "recebe coisas de presente".

Ao contrário do apoio do Segundo Concílio Vaticano ao diálogo inter-religioso, Voris vê o islã como "totalmente diferente" do cristianismo e retrata o judaísmo em terminologia antiquada que especialistas em relações judaico-católicas consideram antissemita. (A campanha de Trump foi acusada algumas vezes de permitir e até disseminar retórica e imagens antijudaicas.)

Em uma declaração que ecoou outra feita por Bannon quando ainda estava na Breitbart, Voris afirmou que os bispos católicos americanos apoiavam a imigração somente para "conseguir um maior número de católicos" e reconstruir uma "igreja que encolhe e murcha" com as chegadas legais e ilegais de imigrantes do México.

De modo mais geral, Voris acusa o cardeal Joseph Bernardin, o arcebispo de Chicago que morreu em 1996, por sua teologia da "túnica inconsútil", que uniu posições como oposição ao aborto, eutanásia, armas nucleares e a pena de morte sob uma "ética de vida coerente". Para Voris, essa fórmula é "uma passagem a limpo do ensinamento social católico".

Nem todas as críticas de Vortis se dirigem aos católicos. Ele também destacou o filantropo liberal George Soros e o organizador comunitário Saul Alinsky, já morto, como alvos familiares para ativistas conservadores como Newt Gingrich e Glenn Beck. Voris, porém, dá um passo significativo além, ao identificar, de modo proeminente, Soros e Alinsky como judeus.

Por que sua religião é relevante, já que, especialmente, nenhum deles é praticante? Voris respondeu: "O combustível, por assim dizer, do Partido Democrata veio de uma mentalidade liberal judia".

Tal comentário poderia não parecer tão ofensivo se não fosse pelas visões gerais de Voris dos judeus, que contrariam a política católica desde o Segundo Concílio Vaticano. Em um episódio de 2010 do programa "The Vortex" [o vórtice] da ChurchMilitant.com, ele afirmou que a destruição pelos romanos do Segundo Templo encerrou o pacto de Deus com os judeus. O judaísmo subsequente, segundo ele, é meramente uma "religião feita pelo homem".

Perguntado sobre essas declarações, Voris disse: "Não sou absolutamente antissemita. Estou apenas falando em termos teológicos".

A explicação não impressionou Mark Weitzman, um especialista em grupos de ódio do Centro Simon Wiesenthal, que estudou a ChurchMilitant.com. "O que ele diz sobre os judeus é antissemitismo supersessionista clássico [ou teologia da substituição]", disse Weitzman, "e se ele não o repudiar é um problema."

O repúdio não parece provável para qualquer das posições extremistas da ChurchMilitant.com, especialmente agora que espíritos afins estão prestes a assumir o controle do Poder Executivo do governo americano.

"A eleição de Trump deu permissão a muita gente para dizer em público certas coisas que jamais diria", afirmou o reverendo Mark S. Massa, professor de história da igreja no Boston College. "E para aquelas que já as diziam o tempo todo, as repercussões serão mínimas." 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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