Atentados e divisão levam parte dos turcos a abrir mão de liberdades civis

Tim Arango e Rick Gladstone

Em Istambul (Turquia)

  • Murat Ergin/Ihlas News Agency/Reuters

    1.jan.2017 - Mulher ferida é levada em ambulância após ataque em boate em Istambul

    1.jan.2017 - Mulher ferida é levada em ambulância após ataque em boate em Istambul

Um discípulo do Estado Islâmico mata 39 pessoas em uma festa de Ano Novo em uma boate em Istambul. Um homem armado e com distintivo policial assassina o embaixador da Rússia em uma recepção em Ancara. Separatistas curdos matam 14 soldados com bombas em um ônibus na região central da Turquia e dezenas de policiais em uma partida de futebol em Istambul. 

Esses ataques ocorreram apenas nas últimas poucas semanas, o que fez o ataque com carro-bomba na quinta-feira (5), na cidade de Izmir, onde pelo menos dois civis morreram, parecer relativamente pequeno. 

Os 75 milhões de habitantes da Turquia, um país membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) e aspirante à União Europeia, que fica entre a Europa e a Ásia e já foi visto como uma democracia estável, estão enfrentando uma onda violenta de ataques terroristas diferente de qualquer coisa vista no Ocidente. 

Some-se a isso o tumulto dos cerca de 3 milhões de refugiados de guerra sírios, uma insurreição curda ressurgente e uma tentativa fracassada de golpe militar, tudo isso ligado, aos olhos de muitos turcos, à negligência, malícia ou ambos por parte dos Estados Unidos. 

O presidente Recep Tayyip Erdogan respondeu com uma repressão furiosa contra uma série de supostos inimigos, incluindo a imprnesa, além de atacar o que considera como cumplicidade do Ocidente. 

Enquanto os críticos de Erdogan condenam o que consideram como uma usurpação do poder que subverteu a democracia e polarizou o país, muitos turcos, assustados e tomados pela incerteza, não estão se queixando. Eles veem seu autoritarismo como tranquilizador e rejeitam furiosamente os comentários de fora que falam em paranoia e teorias de conspiração. 

Alguns estão até mesmo abraçando o advento do presidente eleito Donald Trump, apesar de suas declarações contra muçulmanos, o vendo como um homem-forte decidido e solidário com Erdogan, um islamita com pouca tolerância com aqueles que discordam dele. 

De certa forma, dizem historiadores políticos e acadêmicos, o que está acontecendo na Turquia é semelhante ao que aconteceu após os ataques terroristas de 2001 nos Estados Unidos, aos ataques de 2015 na França e, mais recentemente, a resposta aos ataques na Alemanha. 

Em todos eles, muitos cidadãos estavam dispostos a ignorar ou abrir mão das liberdades civis, os poderes do governo aumentaram, grupos à margem ganharam força e passaram a disseminar intolerância, e discordância é tratada com suspeita. 

"Acho que há muitas tendências semelhantes e isso leva, em um caso extremo, ao que estamos vendo na Turquia", disse Steven A. Cook, um membro sênior para Oriente Médio e Estudos Africanos do Conselho de Relações Exteriores, em Washington. 

Mesmo assim, disse Cook, "não é um salto tão grande ir para o extremo. Consegue imaginar se os ataques na Turquia tivessem acontecido nos Estados Unidos?" 

Na sexta-feira, Hilal Kaplan, uma colunista do "Daily Sabah", um jornal com laço estreito com o governo, atacou a cobertura da mídia no Ocidente, incluindo um artigo no "New York Times", que enfatizava as teorias de conspiração que corriam pela sociedade turca, como a de que os Estados Unidos estavam por trás do terrorismo na Turquia. 

Murad Sezer/Reuters
Erdogan diz que a imprensa do Ocidente é desfavorável em relação aos turcos

Descrevendo o artigo como "uma tentativa de mostrar ar de superioridade e afrontar, em vez de refletir um esforço para entender a Turquia", Kaplan disse que os turcos têm bom motivo para nutrir suspeitas em relação aos Estados Unidos. 

Ela apontou que Fethullah Gulen, o clérigo e ex-aliado de Erdogan que muitos turcos acreditam estar por trás da tentativa de golpe, vive na Pensilvânia  e que uma ex-autoridade da CIA (a agência de espionagem americana) atestou a favor do pedido de visto permanente para Gulen. 

Além disso, ela chamou a atenção para algo mais: os Estados Unidos fornecem apoio militar à milícia curda síria que combate os extremistas do Estado Islâmico, uma milícia que a Turquia considera aliada do PKK, a organização separatista curda fora da lei considerada como terrorista. 

Em sua coluna de sexta-feira, com o título de "Turquia espera ansiosamente pelo governo Trump", ela acrescentou:  "Eles realmente precisam de detalhes quando o único desejo deles é retratar o povo turco como paranoico e Erdogan como vilão?" 

Em outro paralelo com a América pós-11/09, o governo turco explorou agressivamente eventos trágicos para incitar sentimentos patrióticos e emoldurar a luta maior dentro do país como uma luta para proteger a democracia, mesmo com as práticas democráticas sendo minadas. 

A comparação não passou despercebida pelos acadêmicos turcos, mesmo os críticos de Erdogan, que estavam nos Estados Unidos quando o World Trade Center e o Pentágono foram atacados. 

"Mal pude acreditar na extensão do aumento do nacionalismo, mesmo entre acadêmicos", disse Kemal Kirisci, um membro sênior e diretor do Projeto Turquia da Instituição Brookings, apresentando suas próprias recordações. "Eu me sentia intimidado intelectualmente, quase censurado." 

Erdogan e seus aliados consideram dois pesos e duas medidas a reação do Ocidente à Turquia e dizem que algumas das mesmas medidas que a Turquia está adotando para combater o terrorismo, como recorrer ao estado de emergência, foram adotadas no Ocidente, particularmente na França. 

É essa desconexão, entre como a Turquia percebe sua própria experiência e a reação do Ocidente aos eventos na Turquia, que contribui para que o país se afaste de seus aliados na Otan e se aproxime da Rússia. 

"Na França, há um estado de emergência há três meses, depois renovado por mais três meses, e depois por seis meses, totalizando um ano", disse Erdogan em setembro. "Há alguém no mundo perguntando: 'Por que declarou estado de emergência por um ano?'" 

Os apoiadores de Erdogan dizem estar especialmente irritados com a forma como o Ocidente reagiu à resposta da Turquia ao terrorismo, dizendo que esperavam solidariedade, não críticas. 

"Há um desrespeito óbvio, muito sério e problemático contra o direito da Turquia de se defender contra o terror", disse Mustafa Yeneroglu,  um membro do Parlamento pelo islâmico Partido Justiça e Desenvolvimento de Erdogan. 

Yeneroglu, o chefe do comitê de direitos humanos do Parlamento, disse que a Turquia enfrenta o mesmo dilema enfrentado por qualquer país traumatizado por atos terroristas. 

"Se não há segurança, não há espaço para desfrutar das liberdades", ele disse. "Essa situação leva à priorização da segurança e perguntas como 'segurança ou liberdade?' Isso vale não apenas para a Turquia, mas para todas as democracias liberais." 

Os liberais turcos dizem entender a necessidade por medidas extraordinárias, mas apresentam dois contra-argumentos. Um é que a ampla repressão na Turquia, com a colocação de tantos jornalistas e intelectuais na prisão, foi longe demais e aparentemente não tem nada a ver com o combate ao terrorismo. Outro é que, mesmo com o estado de emergência, o país se tornou menos seguro. 

"Pelo contrário, estamos sofrendo mais ataques, mais terror", disse Yaman Akdeniz, um advogado e professor da Universidade de Bilgi, em Istambul, que representa muitos jornalistas presos. 

Ele prosseguiu: "Há um estado de emergência na França, mas não há nenhum outro país limitando direitos fundamentais e liberdades nessa escala".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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