Racismo eleva tensão entre participantes de marcha das mulheres nos EUA

Farah Stockman

  • Todd Heisler/The New York Times

    Tamika Mallory, Linda Sarsour, Bob Bland e Carmen Perez, organizadoras da marcha

    Tamika Mallory, Linda Sarsour, Bob Bland e Carmen Perez, organizadoras da marcha

A expectativa é de que milhares de mulheres sigam para a capital do país para a Marcha das Mulheres a Washington um dia após a posse de Donald Trump. Jennifer Willis não mais planeja ser uma delas. 

Willis, uma juíza de paz de 50 anos da Carolina do Sul, aguardava ansiosamente por levar suas filhas à marcha. Então ela leu uma postagem na página da marcha no Facebook que a fez se sentir indesejada, por ser branca. 

A postagem, escrita por uma ativista negra do Brooklyn que é uma voluntária da marcha, aconselhava "aliadas brancas" a ouvirem mais e falarem menos. E também censurava aquelas que, segundo a postagem, só acordaram para o racismo por causa da eleição. "Você só está se juntando agora porque também está com medo", dizia a postagem. "Eu nasci com medo." 

Incomodada com o tom, Willis cancelou sua viagem. "Trata-se da marcha das mulheres", ela disse. "Deveríamos ser aliadas em salários iguais, casamento, adoção. Por que agora trata-se de 'mulheres brancas não entendem as mulheres negras'?" 

Se tudo ocorrer como planejado, a marcha de 21 de janeiro será uma exibição momentosa de unidade em protesto a um presidente cujo tratamento às mulheres passou a dominar as últimas semanas de campanha. Mas muito antes dos primeiros ônibus seguirem para Washington e manifestações associadas ocorrerem em outras cidades, conversas contenciosas sobre raça ocorreram quase todo dia entre as participantes, animando algumas e alienando outras. 

No Tennessee, as emoções se inflamaram quando as organizadoras mudaram o nome da marcha local de "Marcha das Mulheres a Washington-Nashville" para "Poder Juntas Tennessee, em solidariedade à Marcha das Mulheres a Washington". Apesar de muitas terem aplaudido a mudança de nome, que visava sinalizar o início de um novo movimento de justiça social em Nashville, algumas se queixaram de que o evento foi transformado de uma marcha por todas as mulheres em uma marcha pelas mulheres negras. 

Na Louisiana, a primeira coordenadora estadual desistiu de seu papel voluntário em parte porque não havia mulheres das minorias em posições de liderança àquela altura. 

"Eu recebi muitas críticas quando renunciei, de mulheres brancas que diziam que estou alienando muitas mulheres brancas", disse Candice Huber, uma dona de livraria em Nova Orleans, que é branca. "Elas disseram: 'Por que você tinha que ser tão divisora?'" 

De certo modo, a discordância é proposital. Apesar de estarem trabalhando para assegurar uma marcha unida, os organizadores nacionais disseram que tomaram a decisão deliberada de acentuar o apuro das mulheres de minorias e imigrantes ilegais, assim como provocar discussões desconfortáveis sobre raça. 

"Foi uma oportunidade de levar a conversa a lugares profundos", disse Linda Sarsour, uma muçulmana que chefia a Associação Árabe-Americana de Nova York e é uma dos quatro copresidentes da marcha nacional. "Às vezes você incomodará as pessoas." 

Scott Eisen/Getty Images/AFP
Eleição de Trump provocou prostestos em todos os EUA nas últimas semanas de 2016

A postagem que ofendeu Willis fazia parte desse esforço. Assim como a citação postada na página da marcha no Facebook, de autoria de Bell Hooks, uma feminista negra, sobre forjar uma irmandade mais forte ao "confrontar as formas com que as mulheres, por meio de sexo, classe e raça, dominam e exploram outras mulheres". 

Em resposta, uma mulher de Nova Jersey escreveu: "Estou começando a me sentir um tanto indesejada neste empreendimento". 

Um debate então se seguiu sobre se mulheres brancas agora estavam experimentando o que as mulheres das minorias experimentam diariamente, ou se estavam tendo dificuldade para abrir mão do controle. Uma mulher branca jovem de Baltimore escreveu com amargura que as mulheres brancas que podem ser vítimas de estupro ou abuso devem "checar seu privilégio", uma frase que significa as pessoas reconhecerem suas vantagens, mas que até mesmo algumas mulheres liberais consideram excessivamente conflituosa. 

Ninguém envolvido na marcha teme que o rancor diminuirá o comparecimento. Até mesmo muitas daquelas que expressaram desalento com o tom da discussão disseram que ainda pretendem participar daquela que, certamente, será a maior manifestação realizada até o momento contra a presidência de Trump. 

"Eu marcharei", escreveu uma mulher na página da marcha no Facebook, "na esperança de que algum dia um senso de unidade ocorrerá antes que seja tarde demais". 

Mas esses debates sobre raça também refletem questões mais profundas sobre o futuro do progressismo na era de Trump. A marcha deve acentuar o que divide as mulheres ou o que as une? Há espaço para mulheres que nunca ouviram sobre "privilégio branco"? 

E em um momento em que um candidato presidencial concorreu contra a correção política e venceu (com metade da eleitoras brancas o apoiando), este é um momento para baixar ou subir o tom da conversa sobre raça? 

"Se sua meta de curto prazo é levar o máximo de pessoas possível à marcha, talvez você não queira alienar pessoas", disse Anne Valk, autora de "Radical Sisters" (Irmãs radicais, em tradução livre, não lançado no Brasil), um livro sobre diferenças raciais e de classe no movimento das mulheres. 

"Mas se sua meta de longo prazo é usar a marcha como catalisador para mudança social e política progressista, então é preciso incluir o pensamento sobre raça e privilégio de classe." 

O desacordo também reflete a variedade de direitos das mulheres e causas liberais sendo representada na marcha, assim como uma divisão de gerações. 

Muitas mulheres brancas mais velhas passaram suas vidas lutando por direitos como proteções no local de trabalho, que as mulheres mais jovens agora consideram comuns. Muitas ativistas jovens passaram anos protestando contra táticas policiais e políticas da justiça criminal, questões que elas sentem que muitas liberais brancas ignoraram. 

"Sim, salário igual é uma questão", disse Sarsour. "Mas veja o quanto as mulheres brancas recebem em comparação às mulheres negras e latinas." 

Por tempo demais, disseram os organizadores da marcha, o movimento dos direitos da mulher se concentrou em questões que eram importantes para as mulheres brancas abastadas, como poderem trabalhar fora e ocupar os mesmos cargos de poder que os homens. Mas as mulheres das minorias, elas disseram, tinham prioridades diferentes.

Mulheres negras que trabalharam a vida toda como empregadas se preocupavam mais com salário mínimo ou brutalidade policial do que em ver uma mulher na Casa Branca. As mulheres imigrantes ilegais podem se importar com direitos de aborto, elas disseram, mas não tanto quanto o medo de serem deportadas. 

Esse estilo de feminismo, frequentemente chamado de "interseccionalidade", pede às mulheres brancas que reconheçam que a vida é mais fácil para elas. Ele fala francamente sobre a história do racismo, mesmo dentro do próprio movimento feminista. As organizadoras da marcha do sufrágio de 1913 a Washington pediram às mulheres negras que marchassem no fundo da parada. 

A questão da raça segue a marcha desde seu início. Um dia após a eleição, Bob Bland, um estilista de moda de Nova York, lançou no Facebook a ideia de uma marcha a Washington. Em questão de horas, 3.000 pessoas disseram que participariam. Então um amigo ligou para dizer a Bland que uma mulher no Havaí, com uma página semelhante, tinha atraído 12 mil interessados. 

"Eu pensei: 'Uau, vamos nos unir'", lembrou Bland. 

À medida que o esforço crescia, vários comentários no Facebook imploraram a Bland, que é branco, para que incluísse mulheres de minorias na equipe de liderança. Bland sentiu fortemente que era a coisa certa a ser feita. Passados três dias da eleição, Carmen Perez, uma ativista latina que trabalha na Justiça da infância e juventude, e Tamika D. Mallory, uma ativista de controle de armas que é negra, se juntaram a Bland. 

Gloria Steinem, copresidente honorária da marcha juntamente com Harry Belafonte, aplaudiram a abordagem. "O sexismo sempre é piorado pelo racismo e vice-versa", ela disse por e-mail. 

Willis, a juíza de paz da Carolina do Sul, aguardava por se unir a pessoas que compartilham seus valores, uma raridade em seu Estado natal, onde ela disse ser insultada por casar casais gays. Mas então ela leu uma postagem de ShiShi Rose, 27 anos, uma blogueira do Brooklyn. 

"Agora é hora de vocês ouvirem mais e falarem menos", escreveu Rose. "Vocês deveriam ler nossos livros e entender as raízes do racismo e da supremacia branca. Ouvir nossos discursos. Vocês deveriam mergulhar na nossa poesia." 

Rose disse em uma entrevista que a intenção da postagem não era alienar pessoas, mas sim fazê-las entender que tinham muito a aprender. "Eu preciso que entendam que não devem vir para a marcha sem checarem seu privilégio constantemente", ela disse. 

Essa frase, cheque seu privilégio, irrita Willis. Ela perguntou à repórter: "Você pode, por favor, me dizer o que isso significa?"

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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