Vida no campo atrai franceses cansados da vida urbana competitiva

Benoît Morenne

Em Saulx-les-Chartreux (França)

  • Dmitry Kostyukov/The New York Times

    Vicent Martin (dir), que ganhava a vida vendendo passes para academias em Paris até largar o emprego há cinco anos, trabalha em uma fazenda em Saint-Augustin, na França

    Vicent Martin (dir), que ganhava a vida vendendo passes para academias em Paris até largar o emprego há cinco anos, trabalha em uma fazenda em Saint-Augustin, na França

Há dois anos, Elisabeth Lavarde decidiu abandonar seu emprego em um escritório em Paris e iniciar uma nova vida em Saulx-les-Chartreux, uma cidade pequena com dois açougueiros e um padeiro, ao sul da capital.

Lavarde, 39 anos, agora é uma aprendiz de fazendeira em uma fazenda de 10 hectares que cultiva hortifrútis orgânicos, vendidos diretamente aos consumidores locais. Novos fazendeiros como Lavarde ganham um salário que consideram decente, de cerca de 1.500 euros, ou cerca de R$ 5.150, por mês, ligeiramente acima do salário mínimo francês.

"Eu queria um trabalho com mais significado", ela disse. "Eu sentia como se estivesse lutando contra moinhos de vento."

Ao lado de um fazendeiro experiente ao qual foi associada como parte de um programa de treinamento montado por uma associação que estimula agricultores de pequena escala, Lavarde cultiva certa de 40 variedades diferentes de produtos orgânicos, incluindo tomate, batata, couve-flor e cenoura.

Enquanto o sol estava prestes a se pôr atrás dos pés de couve-flor em uma tarde recente, Lavarde olhava para a terra que cultiva. A poucos metros de distância, um grande abrigo de lona balançava com o vento.

Lavarde e seu tutor, Guilain Vergé, 31 anos, usam o abrigo para fazer a contabilidade e controlar suas plantações em uma lousa, enquanto aguardam pela autorização do governo local para construção de um celeiro decente.

O trabalho é árduo, ela reconhece. Mas, ela diz, "ver o céu todo dia, esteja azul ou cinzento, é incrível".

Dmitry Kostyukov/The New York Times
Guilain Verge (esq) e Elisabeth Lavarde trabalham em uma fazenda orgânica em Saulx-les-Chartreux, ao sul de Paris


Mais pessoas mais jovens como Lavarde estão ganhando a vida como agricultores de pequena escala na França, atraídos em alguns casos por noções idealísticas de arar a terra e escapar da competição estressante das cidades. Elas costumam deixar para trás empregos bem-remunerados, assim como vidas relativamente confortáveis que, mesmo assim, consideram insatisfatórias.

Alimentando esse impulso à agricultura de pequena escala está um crescente mercado por alimentos orgânicos, que movimentou quase 7 bilhões de euros na França em 2016, segundo a Agence Bio, que monitora o setor no país. Esse impulso também é alimentado pela crescente conscientização dos benefícios ambientais e de saúde do consumo de produtos locais.

Mas antes de poderem iniciar a atividade, os novatos precisam superar uma série de obstáculos, incluindo navegar por uma labiríntica burocracia que supervisiona as licenças para construção e distribuição de terras.

O duque de Sully, um ministro do rei Henrique 4º da França no início do século 17, já descreveu o "arado e o pasto" como o sangue da economia francesa, e a agricultura há muito é romantizada em um país que valoriza tesouros gastronômicos como os queijos Camembert e os vinhos Bordeaux.

Mas a realidade é muito mais triste para a maioria dos fazendeiros, que dizem que se sentem restritos pelas regulações da União Europeia e que foram atingidos pela concorrência global, margens de lucro cada vez menores e por colheitas ruins dos últimos anos. Os subsídios agrícolas generosos beneficiam principalmente as grandes fazendas.

Dmitry Kostyukov/The New York Times
Anna Carol (esq) trabalha em sua fazenda em Saint-Augustin


Na França, um agricultor comete suicídio quase dia sim, dia não, uma taxa 20% maior do que a média nacional, segundo um relatório de 2016 da agência nacional de saúde pública.

Mas essa perspectiva não impede pessoas como Lavarde de buscarem a agricultura, mesmo com agricultores estabelecidos vendo os esforços delas com ceticismo.

Ao lado de um campo congelado de trigo perto da fazenda de Lavarde, Bruno Gilles, 47 anos, um fazendeiro de terceira geração que cultiva couve-flor, tomate e outros hortifrútis, estava cético a respeito das chances de sucesso de Lavarde, citando as margens pequenas de lucro e a concorrência de outras fazendas que produzem hortifrútis o ano todo.

"Será muito difícil", disse Gilles, com seus braços cruzados sobre um suéter militar.

O primeiro teste para os novatos pode ser o mais difícil: encontrar terras.

"Eu me considero extremamente sortuda", disse Lavarde. "Quando vejo outras pessoas ao meu redor, o acesso a terras é realmente um obstáculo para elas."

Desde os anos 1960, esse acesso é rigidamente regulado por agências regionais que agem como intermediárias entre os interessados por terras e aqueles que estão vendendo ou arrendando.

Parte do problema com a alocação de terras é a falta de fazendas no mercado, disse François Purseigle, um sociólogo da INP-Ensat, uma faculdade de engenharia agronômica em Toulouse, no sul da França.

"Temos pessoas nos campos que pensam: 'Vou manter minha fazenda. Meus filhos são professores ou médicos, de modo que não vão assumi-las. Eu tenho uma pensão miserável. Então vou manter a propriedade porque, nunca se sabe, ela pode valorizar'", disse Purseigle em uma entrevista por telefone.

Vincent Martin protegeu seus olhos do sol em uma manhã recente em uma fazenda perto do vilarejo de Saint-Augustin, a cerca de duas horas de carro ao leste de Saulx-les-Chartreux. Ele disse que grande parte de seu futuro como agricultor dependia de encontrar terra arável.

Dmitry Kostyukov/The New York Times
Philippe Caron trabalha em sua fazenda em Saint-Augustin


"Terra é fundamental", disse Martin, 36 anos, um agricultor solteiro que ganhava a vida vendendo adesões a academias de ginástica em Paris, até deixar seu emprego há cerca de cinco anos, posteriormente optando pela agricultura.

Para encontrar terras na área, ele contou com o boca-a-boca em vez das agências regionais, apesar de ter preenchido pilhas de requerimentos.

Mesmo quando encontram terras e distribuição, alguns neoagricultores ainda se veem tendo que se deslocar até suas terras, enquanto fazendeiros mais velhos com frequência vivem à beira de seus campos. Os recém-chegados com frequência não têm dinheiro para comprar as edificações em suas fazendas, quando há alguma.

Alguns compram trailers velhos para permanecerem perto de suas fazendas ou dormem em seus carros.

Martin disse que às vezes precisava de duas horas para chegar até a fazenda. Ele começa a trabalhar ao amanhecer arando, semeando ou colhendo, dependendo da estação.

"Vale a pena", disse Martin, "por ora".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos