O outro lado do acordo: Cuba receberá refugiados que cometeram crime nos EUA

Frances Robles

Em Miami (EUA)*

  • Stephen Crowley/The New York Times

Eles foram algumas das pessoas mais temidas na Flórida, homens que se tornaram inspiração para filmes e, muito antes de Donald Trump ter pronunciado a expressão "bad hombres" ["homens maus", em inglês e espanhol misturados], que realmente deram má fama a alguns imigrantes.

Durante quase 40 anos, eles também foram peões na guerra fria entre o governo dos EUA e Fidel Castro: criminosos atuais e futuros que se uniram a uma enorme flotilha de refugiados que deixaram o porto de Mariel e chegaram às praias da Flórida, depois aterrorizaram Miami e outras cidades americanas que os acolheram.

Os EUA não os queriam, nem Cuba, que se recusou a aceitá-los de volta.

Na quinta-feira (12), o presidente Barack Obama anunciou o fim imediato da política do "pé molhado, pé seco", que permitia que os migrantes cubanos ficassem nos EUA se alcançassem suas praias, um tratamento especial que atraiu a ira do governo cubano. O outro lado do acordo chamou muito menos atenção, mas efetivamente encerrou um capítulo da torturada relação entre os dois países: Cuba concordou em receber até 500 criminosos refugiados de Mariel.

Eles chegaram jovens, muitas vezes atrevidos. Hoje são homens de meia idade ou mais, possivelmente a vários anos de seus últimos crimes. As autoridades que antes os perseguiam, porém, não se lembram deles com saudade.

"Eram jovens rebeldes, com más intenções", disse Jim Shedd, um ex-agente do Departamento de Repressão a Drogas (DEA na sigla em inglês) em Miami. "Com duas semanas lá, alguns já trabalhavam para traficantes, trazendo cargas e fazendo trapaças."

O êxodo cubano começou em 1980, quando Castro abriu o porto de Mariel para as pessoas que quisessem partir, e durante um período de meses 125 mil cubanos o fizeram. A maioria deles eram cidadãos honestos, mas o líder cubano também abriu as portas de prisões e instituições para doentes mentais, e em poucos anos quase 3.000 dos refugiados estavam em cadeias nos EUA por terem cometido novos crimes.

As autoridades municipais frenéticas de todo o país montaram forças-tarefas e comitês para estudar os "marielitos". O termo passou a ser associado a criminosos por algum tempo, o que estigmatizou outros que vieram nos botes, situação que foi agravada pelo filme "Scarface", em que Al Pacino faz um refugiado de Mariel que se torna um traficante sanguinolento em Miami.

Las Vegas determinou que 550 de seus 2.000 refugiados eram criminosos profissionais, e Los Angeles disse que dois terços de seus imigrantes de Mariel tinham sido presos poucos anos depois de chegarem. Em Miami, que as guerras da cocaína e do turfe tinham transformado em um dos lugares mais perigosos dos EUA, as autoridades judiciais descobriram que a metade das pessoas consideradas incompetentes para ser julgadas por causa de doenças mentais eram refugiados de Mariel.

O governo cubano acabou concordando em aceitar de volta 2.746 dos refugiados criminosos de Mariel. Mas as deportações foram lentas e em alguns anos não ocorreram. A certa altura, os prisioneiros que aguardavam deportação havia anos fizeram rebeliões em várias cidades.

Em 2005, a Suprema Corte decidiu que o governo não podia deter indefinidamente refugiados de Mariel que cometeram crimes, mas que Cuba se recusava a receber. Desde então, muitos foram libertados ao final de suas sentenças de prisão.

Quase 250 deles morreram, e em junho 478 dos 2.746 originais a ser deportados continuavam nos EUA, segundo o Departamento de Imigração e Alfândega.

Esses, porém, não são necessariamente os que serão deportados sob o acordo do governo Obama com Cuba. Alguns estão muito idosos ou doentes, e o governo americano perdeu o interesse em deportá-los, segundo uma autoridade do Departamento de Segurança Interna que falou sob a condição do anonimato para respeitar a política do departamento.

Em seu lugar, Cuba concordou em aceitar outros refugiados de Mariel que foram condenados por crimes nos EUA, mas não fazem parte do grupo original que seria deportado.

A autoridade disse que o governo americano ainda não começou a fazer a lista de quem mandará de volta; também não estava claro como eles vão capturar os que vivem em liberdade há anos.

Pat Diaz, um ex-detetive de homicídios do condado de Miami-Dade, disse acreditar que as autoridades terão dificuldades para localizar pessoas que cometeram crimes há tanto tempo, mas comentou que alguns dos mais sérios continuam presos.

Também não está claro o destino de dezenas de milhares de cubanos que receberam ordens de deportação, mas não chegaram na onda dos marielitos. O acordo anunciado na quinta-feira (12) disse que Cuba consideraria sua aceitação julgando individualmente cada caso.

Siro del Castillo, um ativista de direitos humanos em Miami que ajudou os refugiados de Mariel quando estavam em detenção, disse que muitos deles que receberam ordem de deportação não eram especialmente perigosos; apenas tiveram a infelicidade de estar sob custódia policial na época em que a lista original foi feita. Mas "algumas dessas pessoas podem ter-se tornado criminosos radicais", disse ele.

"Tenho certeza de que há pessoas que estavam na lista que estão terminando sentenças de 30, 35 anos e agora podem ser deportadas", afirmou.

Diaz lembrou o caso de um refugiado de Mariel de 20 anos que em 1981 matou um motorista de táxi, atirou em outro e o roubou e atirou em um amigo no olho durante uma discussão. Diaz lembra dele como um dos assaltantes mais violentos com que já lidou em 25 anos, e ainda tem em sua casa uma foto de jornal da prisão do bandido.

O homem tem 45 hoje e é casado. Depois de cumprir 20 anos da pena de prisão perpétua, ele está sob condicional e vive em Illinois, segundo o Departamento de Correcionais da Flórida. Não ficou claro na sexta-feira (13) se havia uma ordem de deportação ativa contra ele, que também não respondeu a mensagens.

Mas se Diaz pudesse decidir o homem estaria a caminho de Cuba logo.  "Ele era doentio", disse Diaz. "Era confusão pura, deveriam mandá-lo de volta."

* Lizette Alvarez colaborou na reportagem 

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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