Como a presidência modificou o modo de governar de Obama

Julie Hirschfeld Davis

  • Pablo Martinez Monsivais/AP

No princípio, havia esperança. Uma barreira racial derrubada. Um país ansioso, ávido para virar a página da guerra estrangeira e da dificuldade econômica. E os planos audaciosos de um novo presidente.

O presidente Barack Obama se posicionou na fachada oeste do Capitólio em 20 de janeiro de 2009 e chamou de "mentes estreitas" aqueles que questionavam suas ambições grandiosas.

"Eles esqueceram o que este país já fez", disse Obama, "o que homens e mulheres livres podem realizar quando a imaginação se une ao objetivo comum, e a necessidade à coragem."

Dias antes, Obama --um afro-americano, de pai nascido no Quênia e mãe nascida no Kansas-- havia estado no Salão Oval, em uma Casa Branca construída em parte por escravos, com quatro homens brancos que eram os outros únicos no planeta que compreendiam o peso do cargo que ele estava prestes a assumir.

Obama começou com medidas ousadas. Assinou ordens executivas para fechar o que restava das prisões secretas da CIA. Ordenou o fechamento da baía de Guantánamo.

Ele aprovou uma lei de estímulo econômico de US$ 787 bilhões e iniciou o trabalho para oferecer cobertura de saúde a 46 milhões de americanos.

Para os republicanos que esperavam modificar sua agenda, Obama tinha uma mensagem curta: "As eleições têm consequências", disse a Eric Cantor, da Virgínia, o líder republicano na Câmara dos Deputados.

Sua presidência poderia ser transformadora, acreditava Obama. Ele sabatinou historiadores sobre como antigos comandantes-chefe tinham controlado o Congresso para alcançar grandes coisas.

"Ele tinha uma mentalidade de fazer grandes coisas do modo como Lyndon Johnson foi capaz nos anos 1960, e de fazer parte do panteão de grandes presidentes progressistas", disse Douglas Brinkley, um historiador da presidência que falava regularmente com Obama. "Ele realmente acreditava que poderia unir o país."

Mas descobriu que o país estava tão dividido quanto sempre esteve.

"A sensação é ruim", disse ele em 2010, lambendo as feridas de uma derrota eleitoral em meio de mandato que chamou de "falta de concha".

O agente de mudança havia se tornado um símbolo da situação vigente que ele prometera modificar. Obama fez sua lei da saúde, mas a vitória custou muito caro.

"Isto é algo que eu acho que todo presidente tem de passar", disse ele a repórteres. "Na pressa da atividade, às vezes perdemos a noção, vocês sabem, de como nos conectamos com os eleitores que nos colocaram aqui, para começar."

Republicanos alimentados pelo Tea Party, energizados por sua oposição virulenta ao que chamaram com desprezo de "Obamacare", prometeram não deixar que a agenda de Obama avançasse.

E assim suas aspirações mudaram com a maré política.

"Acho que em meu segundo mandato farei muita política externa", disse ele como um lamento a um grupo de historiadores em um jantar na Casa Branca em 2011.

David Kennedy, da Universidade Stanford, estava lá.

"Ele simplesmente se sentia vigiado e bloqueado, e que não podia avançar mais", disse Kennedy. "Ele foi de um lugar onde estava simplesmente cheio de entusiasmo e esperança, expectativa e aspiração, para uma sensação real de decepção, de sentir-se impedido."

A coisa não melhorou. Diversas vezes Obama teve de reconfortar um país atônito diante de tiroteios por todo o país. Visitar as famílias que perderam filhos no massacre na escola elementar Sandy Hook em Newtown, Connecticut, em dezembro de 2012, foi "o dia mais difícil da minha Presidência", disse ele mais tarde. "E eu tive alguns dias difíceis."

A voz de Obama tremeu de raiva em 2013, depois que o Senado derrubou medidas para expandir as restrições às armas. Três anos depois, enquanto anunciava um conjunto de modestos atos executivos para conter a violência armada, ele derramou lágrimas na Sala Leste ao se lembrar das crianças de Newtown.

"Toda vez que penso naquelas crianças, fico louco", disse ele enquanto chorava abertamente.

Por mais que ele tentasse não definir sua presidência pelo prisma da raça, era sempre um subtexto poderoso, e às vezes um potente ponto de luz.

Sua vitória foi anunciada como a aurora de uma América pós-racial, mas o primeiro presidente afro-americano nunca viu a coisa realmente dessa forma.

"Na posse, acho que havia um orgulho justificado de parte do país de que tínhamos dado um passo para superarmos alguns dos terríveis legados da discriminação racial neste país", disse Obama várias semanas depois de assumir o cargo. "Mas isso durou mais ou menos um dia."

Há mais trabalho a ser feito, ele sempre disse.

"Simplesmente precisamos abrir os olhos e ouvidos e nossos corações para saber que a história racial deste país ainda projeta sua longa sombra sobre nós", disse ele quando caminhou sobre a Ponte Edmund Pettus em Selma, Alabama, para comemorar o 50º aniversário da Lei de Direito ao Voto --e o "Domingo Sangrento", quando ativistas pelos direitos civis dos negros foram brutalmente espancados por policiais estaduais.

As mortes de Trayvon Martin, Eric Garner, Michael Brown e de nove paroquianos negros na Carolina do Sul obrigaram Obama a se pronunciar, mas tentando equilibrar os dois lados.

"Talvez agora percebamos o modo como o preconceito racial nos infecta mesmo quando não o percebemos", disse Obama no enterro da reverendo Clementa Pinckney, vítima da chacina na Igreja Metodista Africana Emanuel, em Charleston, na Carolina do Sul. "De modo a nos protegermos não só de declarações raciais, mas também do impulso sutil de chamar Johnny para uma entrevista de emprego, mas não Jamal."

Mas quando ele abriu a Casa Branca aos ativistas do Vidas Negras Importam, que lhe disseram que suas vozes não estavam sendo ouvidas, ele os advertiu: "Vocês estão no Salão Oval, falando com o presidente dos EUA".

Sua política externa foi contraditória. Nove dias após anunciar que enviaria mais 30 mil soldados americanos ao Afeganistão, Obama aceitou o Prêmio Nobel da Paz em Oslo, na Noruega. Nem ele acreditava que o tivesse ganho.

Seis anos depois, Obama teve de admitir que a guerra no Afeganistão não terminaria antes que ele deixasse o cargo.

Mas ele ganhou adulação internacional por outros avanços: um amplo acordo sobre a mudança climática, o mais significativo da história, forjado em Paris; um acordo nuclear com o Irã; uma abertura surpreendente com Cuba.

"Eu não cometi nenhum grande erro", disse o ganhador do Prêmio Nobel a historiadores em 2014 sobre seu legado em política externa. Isso foi antes que o grupo Estado Islâmico começasse uma brutal ofensiva no Iraque, um novo adversário impiedoso em ascensão.

Afinal, as vitórias foram duramente conquistadas.

"Sim, nós podemos" foi o mantra inspirador de sua campanha em 2008, mas em 2016, viajando pelo país para promover sua antiga rival e agora aliada Hillary Clinton, muitas vezes ele recorreu a "Vamos nessa, cara!".

Ele viu com incredulidade os eleitores o substituírem por um homem que devia sua ascensão política a uma falsa teoria da conspiração de que Obama havia nascido no Quênia.

Ele sorriu duro para as câmeras depois da eleição, apertou a mão do presidente eleito no Salão Oval poucos dias depois de dizer aos americanos que Donald Trump jamais seria confiável com os códigos das armas nucleares.

"Você não precisa de esperança quando as coisas vão bem", disse ele a jovens assessores desiludidos. "Você precisa dela quando as coisas não vão bem."

Sempre racional e contido, ele insistiu em uma transmissão de poder ordenada. Foi decepcionante para assessores que queriam ver o Obama fogoso da campanha de 2008.

Mas ele, e o país, tinham mudado. A esperança fora temperada pela política volátil, a arte do possível e a lentidão das sociedades ao evoluir.

"A América não é uma coisa frágil", disse Obama em um discurso de despedida em Chicago. "Mas os ganhos de nossa longa jornada para a liberdade não estão garantidos."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos