Washington DC aguarda a mudança de Trump para a Casa Branca com apreensão

Sheryl Gay Stolberg

Em Washington (EUA)

  • Al Drago/The New York Times

No subúrbio de McLean, na Virgínia, onde um restaurante local é o ponto de café da manhã dos funcionários da CIA (Agência Central de Inteligência), o general Michael V. Hayden, que dirigia a agência para George W. Bush, atualmente está exercendo a função de consultor de carreira. Com o presidente eleito Donald Trump atacando a comunidade de inteligência, o general diz que sua "velha tribo" está sentindo uma "ansiedade especial".

Em Takoma Park, Maryland, de espírito livre e uma cidade declarada "zona livre de energia nuclear" desde 1983, um movimento de resistência de esquerda está tomando forma. Nadine Bloch, uma ativista e artista, está realizando um ensaio de protesto não-violento antes da posse, com policiais de mentira empunhando cassetetes feitos de jornal enrolado.

E aqui no Distrito de Colúmbia, onde 91% dos eleitores votaram em Hillary Clinton, há "pânico total", disse John Feehery, um estrategista republicano e fã de Trump. Leslie Harris, uma advogada democrata liberal, usa uma imagem de guerra: "A sensação é como se minha cidade estivesse prestes a ser invadida".

Washington sempre foi uma cidade camaleônica, acostumada a se refazer quando a Casa Branca muda de mãos. Mas à medida que a posse de Trump se aproxima, em uma nação tão dividida a ponto de o centro político parecer ter desaparecido completamente, talvez nenhum outro local nos Estados Unidos pareça tão instável e tenso quanto a capital, que Trump chama de "o pântano".

Com suas postagens no Twitter às 6h da manhã e estilo semeador de caos, além de uma série de nomeados conservadores para o gabinete que parecem ávidos em reverter todas as políticas do presidente Barack Obama, Trump virou do avesso os ritmos da cidade e abalou seus nervos. O corpo de imprensa da Casa Branca está lutando para manter seu espaço de trabalho na Ala Oeste. Funcionários públicos, muitos deles afro-americanos e de classe trabalhadora, dizem que ele não sabe nada sobre administração da burocracia.

"Não sabemos o que esperar de Trump, exceto que ele é combativo", disse Robert Dallek, um biógrafo presidencial, que vive aqui há 20 anos. Além disso, disse Dallek, "é ofensivo ser chamado de pântano".

A população de Washington e seus subúrbios próximos é composta de pessoas que vivem e respiram política, ou trabalham na vasta burocracia federal. A região é "uma das maiores e mais ricas economias do mundo", segundo um recente relatório do Instituto Brookings, um motivo para grande parte do país, que sofreu enormemente durante a recessão, se ressentir com as pessoas da capital.

Mas como o restante dos Estados Unidos, Washington também é um local real, com pessoas reais, que moram aqui há décadas. Os ocupantes permanentes do "pântano" veem presidentes chegarem e partirem. E independentemente de qual seja o lado político deles, as pessoas concordam com Feehery de que esta transição "parece diferente" de qualquer outra na memória recente.

Harris é uma moradora típica do noroeste. Descrevendo-se como uma "nerd de políticas", ela cresceu em Atlanta e tomou gosto pela política quando era estudante. Quando Jimmy Carter foi eleito presidente, ela estava na posição incomum de ter 26 anos e conhecer muitas pessoas poderosas aqui.

Ela cursou Direito em Georgetown, se casou com um médico e criou duas filhas. Agora semiaposentada, ela costumava dirigir o Centro para Democracia e Tecnologia, que defende a liberdade na internet. Ela trabalhou com frequência com republicanos; eles são seus amigos.

Mas quando Trump foi eleito, de repente as divisões nos Estados Unidos chegaram em casa. Quando Mike Pence, o vice-presidente eleito, alugou uma casa nas proximidades, seus vizinhos decoraram suas casas com bandeiras de arco-íris do orgulho gay. Quando um grupo supremacista branco realizou um jantar em um restaurante italiano próximo, o Maggiano's, protestos ocorreram do lado de fora.

Então a Comet pingpong, uma pizzaria onde Harris costuma levar seus netos, foi alvo de notícias falsas envolvendo Hillary Clinton. Harris, conhecedora de mídia, organizou um apoio comunitário. Logo depois, um homem armado apareceu no restaurante e fez disparos em seu interior.

"Foi além da minha imaginação", ela disse.

Cruzando a divisa de Maryland, Takoma Park é uma "cidade santuário", que se recusa a processar imigrantes ilegais. Trump não gosta disso. Dias após a eleição, Bloch, 55, a organizadora, ajudou a formar a Mobilização de Takoma Park, um novo grupo popular que visa "proteger nossos vizinhos", ela disse. Mais de 500 pessoas compareceram à primeira reunião.

Eles já se dividiram em comitês e subcomitês, com títulos como "Imigração", "Mulheres" e "Direitos Civis", e realizam reuniões uma noite por semana no quartel do corpo de bombeiros e na sede da sociedade histórica, vizinha da Bikram Yoga e descendo a rua da cooperativa de alimentos. A seguir: sessões voltadas aos funcionários de liberdades civis que estão agonizando sobre se pedem ou não demissão.

"Talvez seja melhor para nós que essas pessoas permaneçam", disse Bloch, "e encontrarmos uma forma de resistir dentro do sistema".

Em transições anteriores, Washington era tomada por conversas de festas em Georgetown e sobre o vestido de baile da primeira-dama, e sobre como a cultura da cidade poderia mudar.

Quando Carter partiu, a capital trocou um produtor de amendoim da Geórgia e engenheiro nuclear treinado pela Marinha por um ator que virou político da Califórnia, Ronald Reagan. Bill Clinton trouxe um toque do Arkansas. George W. Bush trouxe a bravata do Texas e botas de caubói, e fez de McLean, o bairro onde Hayden vive, o bairro descolado da elite republicana daquela era.

O casal Obama homenageou Stevie Wonder na Casa Branca, além de trazer arte e cultura afroamericanas. Eles transformaram a cidade, onde os negros agora correspondem a 49% da população (uma queda em comparação a 60% em 2000, um declínio que reflete a gentrificação), em sua própria. Nos bairros negros, a ausência de Michele Obama será sentida, talvez mais do que a de seu marido. (Eles não se mudarão para longe. Eles alugaram uma casa opulenta em Kalorama, um setor exclusivo da cidade onde a filha de Trump, Ivanka, e seu marido, Jared Kushner, também morarão.)

Mas com sua mulher, Melania, e o filho Barron mantendo sua residência principal na Trump Tower pelo menos até o final do ano letivo, Trump não deverá passar muito tempo aqui. É preferível assim para Mark Salter, um ex-assessor do senador John McCain, republicano do Arizona, que é um adversário de Trump no Capitólio.

"Quanto menos ele estiver aqui, melhor, no que me concerne", disse Salter.

Os movimentos conservadores, entretanto, estão extáticos. Após oito anos de políticas inóspitas, os acadêmicos da Fundação Heritage, uma organização de políticas, estão ajudando a guiar o novo governo Trump em ideias e pessoal. "As pessoas ficaram muito felizes", disse Wesley Denton, um porta-voz da Heritage, quando Trump lhes parabenizou durante sua recente coletiva de imprensa.

Mas nos círculos de políticas democratas, há pouca leveza desta vez. Neera Tanden, uma ex-conselheira e forte aliada de Hillary Clinton, tem pouca paciência com perguntas a respeito do humor da cidade. Ela atualmente lidera o Centro para o Progresso Americano, um dos principais centros de estudos progressistas, um cargo que a torna uma líder de fato da resistência democrata.

"Ele vai deportar os imigrantes ilegais", ela escreveu em um e-mail. "A forma como Washington responde está na parte inferior do totem de problemas com este governo."

O desconforto é especialmente profundo entre aqueles que Hayden chama de "republicanos internacionalistas", que defendem um maior engajamento com outros países, mas mantêm uma suspeita linha-dura em relação às intenções da China e da Rússia. Após ter descrito Trump como "idiota útil" na página de opinião do jornal "The Washington Post", o general de 71 anos, nunca seria chamado para um cargo. Mas com Trump questionando abertamente o parecer da CIA sobre o hackeamento russo, ele tem recebido um fluxo constante de visitantes cautelosos em fazer parte do novo governo.

"Eu digo: 'Sim, se o presidente eleito lhe pedir para servir, considere seriamente'", ele disse. "Mas não pense nisso como um compromisso vitalício; continue sendo um agente livre."

Se há um paralelo histórico para este momento, pode ser Reagan, disse Kenneth M. Duberstein, um ex-chefe de gabinete de Reagan. Ele se recorda de como os críticos liberais de Reagan bufavam: "Como podemos confiar em um ator com seu dedo no gatilho nuclear?" esquecendo convenientemente que ele tinha sido governador da Califórnia por dois mandatos. (Trump, por sua vez, nunca ocupou um cargo público.)

E se os cidadãos do pântano parecem estar um tanto na defensiva, diz Duberstein, talvez haja um bom motivo para isso: "Donald está dizendo que há um novo xerife na cidade".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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