Achada 18 anos depois de ser sequestrada ao nascer, mulher experimenta nova identidade

Frances Robles

Em Miami (EUA)

  • Brett Flashnick/The New York Times)

    Alexis Manigo, 18, cujo nome verdadeiro é Kamiyah Mobley, foi roubada quando era recém-nascida de um hospital em Jacksonville, na Flórida (EUA)

    Alexis Manigo, 18, cujo nome verdadeiro é Kamiyah Mobley, foi roubada quando era recém-nascida de um hospital em Jacksonville, na Flórida (EUA)

Alexis Manigo fecha seus olhos para dormir e vê imagens de sua mãe.

Ela se recorda da mãe carinhosa que a levava aos zoológicos, aquários e ao Sea World, e se maravilha de como foi afortunada por ter tido alguém que a amava tão incondicionalmente.

Mas essas lembranças agora são complicadas por um drama extraordinário que tem se desenrolado ao longo da semana, desde que Alexis, 18 anos, descobriu que foi sequestrada na maternidade em Jacksonville, Flórida, e que seu nome real é Kamiyah Mobley, e que a mulher que ainda vê como sua mãe está sendo acusada por seu sequestro.

Ela ainda está tentando entender a situação. Ela se encontrou com seus pais biológicos, Craig Aiken e Shanara Mobley, no último fim de semana.

Mas em sua primeira entrevista para um jornal desde que o caso ganhou as manchetes na sexta-feira, ela disse que não tem nada negativo a dizer sobre Gloria Williams, a mulher agora acusada de ter espreitado por mais de doze horas uma maternidade em Jacksonville em julho de 1998, o dia em que Alexis nasceu, à procura de um recém-nascido para sequestrar.

"Sinto que fui abençoada", disse Alexis, em uma entrevista por telefone. "Nunca tive motivo para questionar uma bênção dessas, de ter alguém que me amasse tanto."

Alexis disse que nunca teve motivo para duvidar de sua mãe na comunidade rural da Carolina do Sul onde cresceu. Mas a polícia disse que alguém claramente tinha. Pelo menos dois telefonemas com informações foram recebidos pelo Gabinete do Xerife de Jacksonville no final do ano passado, a cerca de 320 quilômetros de distância, onde a polícia ainda mantinha aberto um caso de pessoa desaparecida.

"Uma mulher se passando como enfermeira abordou uma mãe jovem, na época com 16 anos, com uma recém-nascida, e partiu do então Centro Médico Universitário com um bebê e desapareceu", disse o xerife Mike Williams em uma coletiva de imprensa na sexta-feira.

A família chegou a um acordo legal com o hospital dois anos depois. E todo ano, a mãe do bebê embrulhava um pedaço de bolo de aniversário em papel alumínio e congelava. O caso também esfriou.

No final do ano passado, duas novas pistas chegaram e levaram os detetives responsáveis pelo caso a Walterboro, Carolina do Sul, uma cidade de apenas 5.000 habitantes a uma hora a oeste de Charleston. Lá, os investigadores encontraram uma mulher jovem nascida em 10 de julho de 1998, assim como Kamiyah, mas com um nome diferente. Os documentos dela eram falsos, disse Williams, e "entrevistas com pessoas" apoiaram a ideia de que as duas mulheres eram a mesma pessoa.

Os detetives pediram a Alexis uma amostra de DNA. "E, é claro, como alguém que entende seus direitos, ela disse: 'Do que se trata? Vocês têm um mandado?'" disse o advogado dela, Justin Bamberg.

Os investigadores voltaram com um. Alexis forneceu seu DNA e logo descobriu a verdade: ela era filha de outra pessoa.

Consciente do fato de que a mulher que conhecia como sua mãe agora será julgada por sequestro, Alexis não está disposta a discutir o caso, incluindo como sua vida se desfez. Ela não quer dizer que nome planeja usar no futuro e insistiu que nunca suspeitou, apesar de a polícia ter dito o contrário na coletiva de sexta-feira.

"Nunca tive um documento de identidade ou carteira de motorista, mas fora isso, tudo era completamente normal", ela disse. Ela reconheceu que ficou frustrada há poucos meses, quando se candidatou a uma vaga de trabalho no restaurante da rede Shoney's, mas não possuía o documento do Seguro Social que precisava para conseguir o emprego.

"Ela cuidava de tudo o que eu precisava", disse Alexis. "Eu nunca careci de nada. Sempre confiei nela."

Segundo ela, Gloria Williams não tinha problemas mentais e não era superprotetora. Williams trabalhava em um estaleiro da Marinha cuidando de prontuários médicos e receberia seu diploma de mestrado neste ano.

"Ela era uma mulher muito inteligente", disse Alexis.

Alexis conheceu seus pais biológicos no sábado, em um encontro cheio de lágrimas seguido por um passeio de mãe e filha ao shopping. Ela os chamou de pai e mãe, porque imaginou que eram as palavras que aguardaram por tempo demais para ouvir.

"Dá para dizer que ela também tem muito amor por mim", disse Alexis sobre sua mãe biológica, que não pode ser contatada para comentários. "Eles não parecem estranhos. A sensação é como se fossem uma família distante."

Ela disse que sentiu uma confiança natural em relação a eles.

O pai dela, Craig Aiken, disse para a "WJXT-TV" em Jacksonville que o encontro foi "lindo".

"É uma sensação que não dá para explicar", ele disse.

De alguma forma, Alexis tem lidado com tudo calmamente. E para ela, "mãe" ainda significa Williams, que está detida na cadeia de Jacksonville sem direito a fiança.

"Quando fecho meus olhos, vejo minha mãe", ela disse. "Gosto disso. Amo isso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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