Chefe de polícia branco pede desculpas por linchamento no sul dos EUA em 1940

Alan Blinder e Richard Fausset

Em LaGrange, Geórgia (EUA)

  • Dustin Chambers/The New York Times

    O chefe de polícia de LaGrange, Louis Dekmar (esq), e Ernest Ward, presidente do Naacp do condado de Troup, no departamento de polícia de LaGrange, na Geórgia (EUA)

    O chefe de polícia de LaGrange, Louis Dekmar (esq), e Ernest Ward, presidente do Naacp do condado de Troup, no departamento de polícia de LaGrange, na Geórgia (EUA)

Algumas pessoas daqui nunca ouviram falar do linchamento de Austin Callaway, sobre como, há quase 77 anos, ele foi arrastado de sua cela na cadeia por um bando de homens brancos mascarados, depois baleado e abandonado para morrer.

Algumas pessoas nunca esqueceram.

Na noite de quinta-feira, as crueldades fatais infligidas a Callaway (há muito obscurecidas pelo tempo, medo, prevaricação e relutância em investigar os pecados do passado) foram reconhecidas nesta cidade de 31 mil habitantes, quando o chefe de polícia de LaGrange, Louis M. Dekmar, que é branco, emitiu um raro pedido de desculpas por um linchamento no Sul.

"Sinceramente lamento e condeno o papel exercido pelo nosso Departamento de Polícia no linchamento de Austin, tanto por meio de nossa ação quanto inação", disse Dekmar para um público em uma tradicional igreja afro-americana. "E por isso, lamento profundamente. É algo que nunca deveria ter ocorrido."

Ele também disse que todos os cidadãos têm o direito de esperar que seu departamento de polícia seja "honesto, decente, imparcial e ético".

"No caso de Austin, e em muitos como o dele, não foram esses os valores do Departamento de Polícia que ele experimentou", ele disse.

O pedido de desculpas pela morte em 8 de setembro de 1940 faz parte de um novo esforço por parte do Sul dos Estados Unidos em reconhecer a violência brutal cometida por grupos, que era usada para manter o sistema de segregação racial após a Reconstrução (o período após a Guerra Civil Americana): em um estudo de 2015, a Iniciativa Justiça Igual, uma organização sem fins lucrativos com sede em Montgomery, Alabama, documentou 4.075 atos do que chamou de "linchamentos raciais terroristas" de negros por grupos de pessoas brancas em 12 Estados sulistas, de 1877 a 1950.

A organização iniciou a construção de um memorial às vítimas de linchamento em Montgomery, que deverá ser inaugurado em março de 2018.

Para Dekmar, entretanto, o pedido de desculpas na cidade que chama de lar desde 1995 busca mais do que corrigir os erros da história. Também é um esforço, na era do movimento Vidas Negras Importam, de tratar de algumas das raízes mais profundas da desconfiança das minorias na polícia, e criar um melhor relacionamento de trabalho entre os policiais e a comunidade.

"Ficou claro que algo precisava ser feito para reconhecer que algumas coisas que fizemos no passado ainda são um fardo carregado pelos policiais atualmente", disse Dekmar em uma recente entrevista por telefone. "Instituições são feitas de pessoas e relacionamentos são desenvolvidos assim: antes que você confie em alguém, você precisa saber que elas reconhecem que lhe causaram mal, que se levantem e peçam desculpas por isso."

Dekmar, 61 anos, nascido em Nova Jersey e criado no Oregon, abraça a visão de uma força policial que vai além das metas estreitas de proteger os bons e trancafiar os maus.

Ele tende a falar sobre seu departamento como um órgão de um corpo social maior, apesar de um que talvez fique mais exposto que os outros aos seus males. Ele promove reuniões regulares de um "comitê de engajamento comunitário", nas quais ele compartilha com os líderes cívicos o que os policiais veem nas ruas (moradores de rua, delinquência juvenil, crianças com problema de aprendizado ou alfabetização) e buscam formas de várias entidades de cidades pequenas poderem trabalhar juntas para resolvê-los juntos. Ele também tem buscado tratar das questões de confiança: o departamento, ele disse, ordena o uso pelos policiais de câmeras no corpo nos últimos cinco anos.

Dustin Chambers/The New York Times
O representante John Lewis (democrata) fala a multidão no LaGrange College durante o dia Martin Luther King Jr, em LaGrande, Geórgia (EUA)


O chefe tomou conhecimento do linchamento de Callaway há apenas dois ou três anos, quando um de seus policiais ouviu duas mulheres afro-americanas mais velhas que estavam olhando para velhas fotos da polícia de LaGrange em exibição no prédio da polícia.

Uma mulher disse para a outra: "Eles matavam nosso povo".

Dekmar começou a pesquisar o episódio mas encontrou, ele disse, apenas "relatos incompletos". Não havia uma "investigação que eu pudesse encontrar, uma prisão, algum acompanhamento pela mídia".

De fato, os detalhes do crime foram deliberadamente obscurecidos pelos moradores de LaGrange de 1940. Então, em 2014, Jason M. McGraw, na época estudante da Escola de Direito da Universidade do Nordeste, em Boston, escreveu um trabalho de pesquisa sobre o linchamento.

Ele apontou que apesar de jornais de várias partes do país terem noticiado que um bando de brancos mascarados tinha levado Callaway, o jornal local, o "LaGrange Daily News", escreveu apenas que Callaway morreu "em consequência de balas disparadas por um pessoa ou grupo de indivíduos desconhecidos".

A manchete do jornal em 9 de setembro de 1940 declarava: "Negro sucumbe a ferimentos a bala".

Acredita-se que Callaway tinha entre 16 e 18 anos em 7 de setembro, o dia em que foi preso e acusado de tentar atacar uma mulher branca. Segundo a pesquisa de McGraw, seis homens brancos chegaram à cadeia naquela noite com pelo menos uma arma, forçaram o carcereiro a abrir a cela e forçaram Callaway a entrar em um carro. Ele foi levado a um ponto a 13 km de distância e baleado na cabeça e braços.

Ele foi encontrado à beira da estrada e levado a um hospital, onde morreu.

McGraw notou que a investigação da morte de Callaway cabia ao chefe de polícia da cidade, J.E. Matthews, e ao xerife do Condado de Troup, E.V. Hillyer, mas que o relatório da investigação nunca se tornou público.

Dekmar soube que gerações de afro-americanos estavam cientes do que tinha acontecido.

"Há parentes aqui e pessoa que ainda se lembram", ele disse. "Mesmo se essas pessoas já tivessem falecido, a lembrança permaneceria viva, passada por gerações. Esse é o fardo que os policiais carregam."

À medida que Dekmar tomava mais conhecimento do caso, ele decidiu que algo precisava ser feito para reconhecê-lo. A cidade que ele jurou proteger fica a menos de 110 km ao sudoeste de Atlanta. Antes da Guerra Civil, LaGrange era um centro rico do território de algodão da Geórgia: o Condado de Troup, do qual LaGrange faz parte, tinha o quinto maior número de escravos do Estado.

Hoje, segundo números recentes do censo, a cidade é cerca de 48% negra e 45% branca. Uma fábrica da Kia, na próxima West Point, sugere um futuro econômico para a área além da indústria têxtil que antes a sustentava. Mas quase 1 entre 3 moradores de LaGrange vive na pobreza.

Os moradores dizem que as relações raciais aqui, assim como em muitas comunidades multiculturais americanas, variam de amistosas a desgastadas, dependendo do dia e da questão. Quando a Faculdade LaGrange, uma escola particular de artes liberais da cidade, anunciou que convidaria o deputado John Lewis, democrata da Geórgia, para falar em um evento do dia Martin Luther King Jr. marcado para quinta-feira, ocorreram protestos, em parte por Lewis ter questionado a legitimidade da presidência de Donald Trump.

Na quinta-feira, alguns estabelecimentos na cidade exibiam cartazes promovendo a presença de Lewis, enquanto algumas casas exibiam cartazes declarando apoio à polícia.

Ao longo dos últimos dois anos, os moradores da cidade e do condado, incluindo Dekmar, estão engajados em um programa de reconciliação racial e desenvolvimento de confiança racial.

Em uma reunião mensal ocorrida em meados do ano passado, Dekmar abordou o presidente da divisão local da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (Naacp, na sigla em inglês) , Ernest Ward, e perguntou se ele poderia ajudar na preparação do pedido de desculpas público pelo linchamento.

Ward serviu na polícia por quase duas décadas, a partir de meados dos anos 80. Ele reconheceu que alguns moradores negros nutrem um sentimento de nós contra eles em relação à polícia.

"Eu perdi muitos amigos quando me tornei policial", ele disse, "porque para eles era como se eu tivesse me vendido".

Foi perguntado a Ward o quanto o pedido de desculpas ajudaria no trabalho cotidiano da polícia.

"Acredito que seja um começo", ele disse. "E me ajudou a ter um maior respeito pelo chefe Dekmar."

"Historicamente, certas pessoas brancas não gostam de comentar o passado quando não coloca seus antepassados sob boa luz", prosseguiu. "Assim, elas preferem manter as coisas escondidas."

Dekmar apresentou seu pedido de desculpas aos parentes de Callaway na noite de quinta-feira, no Templo Warren da Igreja Metodista Unida daqui.

Um mês após a morte, McGraw notou, um pastor chamado L.W. Strickland escreveu a Thurgood Marshall, o futuro ministro da Suprema Corte que era na época advogado da Naacp, lhe contando que a divisão local do grupo de direitos tinha pedido às autoridades para investigarem o caso, mas que "nada está sendo feito, nem mesmo um reconhecimento de nossos pedidos".

Alguns moradores brancos de LaGrange disseram na quinta-feira estarem profundamente céticos sobre se o pedido de desculpas teria algum efeito prático. Eles notaram que o crime ocorreu antes de a maioria das pessoas daqui terem nascido.

"Não me importa se estão pedindo desculpas ou não", disse Jessie East, 74 anos, que trabalha em uma loja de móveis e eletrodomésticos. "Não vai mudar algo que aconteceu há 77 anos."

Mas para outros, incluindo um dos parentes de Callaway, o pedido de desculpas é um passo para a cura.

"Eu falo em seu nome, Austin Callaway, e peço a Deus pelo perdão às pessoas que fizeram essa coisa inumana com você", disse Deborah Tatum, uma descendente de Calloway, para a congregação. "Alguns podem questionar, 'perdão'? Mas digo a vocês que eu acredito em Deus quando ele nos diz que há poder e liberdade no perdão."

Reportagem de Alan Blinder, em LaGrange, e de Richard Fausset, em Atlanta

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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