Bangladesh quer transferir refugiados rohingyas para ilha que fica submersa maior parte do ano

Maher Sattar

Em Dacca (Bangladesh)

  • AP

    3.dez.2016 - Mulheres e crianças de etnia rohingya fazem fila para coletar água em campo de refugiado em Teknaf, em Bangladesh

    3.dez.2016 - Mulheres e crianças de etnia rohingya fazem fila para coletar água em campo de refugiado em Teknaf, em Bangladesh

O governo de Bangladesh está seguindo adiante com o plano de transferir os refugiados da etnia rohingya, atualmente em campos próximos das principais cidades turísticas do país, para uma ilha remota que fica submersa durante grande parte do ano.

Uma ordem do Gabinete na quinta-feira orienta as autoridades a transferirem os refugiados para Thengar Char, uma ilha na baía de Bengala, que enfrenta marés altas o ano todo e fica submersa durante a estação das monções. A sugestão de que sejam transferidos para um terreno pantanoso em grande parte inabitável, a várias horas de barco do continente, provocou críticas por todo o mundo.

O plano de relocação foi proposto inicialmente em 2015, mas o governo o suspendeu discretamente após críticas de grupos de ajuda humanitária internacionais e ativistas de direitos.

Sua readoção ocorre após a chegada de estimados 65 mil rohingyas de Miamar em outubro e novembro, após a repressão pelo exército de Mianmar e ataques às forças de segurança por insurgentes islâmicos.

A Organização das Nações Unidas considera os rohingyas, um grupo étnico muçulmano ao qual é negado cidadania em Mianmar, como a minoria mais perseguida no mundo.

John McKissick, chefe do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) na cidade bengalesa de Cox's Bazar, perto da fronteira mianmarense, disse em novembro que o governo de Mianmar estava tentando atingir "a meta de limpeza étnica da minoria muçulmana".

Desde 1992, cerca de 32 mil rohingyas registrados vivem em dois campos da ONU perto de Cox's Bazar, mas as estimativas de refugiados não registrados variam de 200 mil a 500 mil. Muitos deles vivem em dois vastos campos improvisados próximos dos campos oficiais, enquanto outros estão espalhados pelo sudeste de Bangladesh.

A conversa de transferência forçada preocupa os refugiados que vivem na área de Cox's Bazar há mais de duas décadas.

"Estamos aqui há muito tempo", disse um deles, Shafiul Mostafa, em uma entrevista por telefone na terça-feira de um dos campos.

"Nós conhecemos nossos vizinhos e sabemos falar o dialeto local, que é semelhante à nossa língua. Se formos levados para um local novo, será muito difícil para nós. Não conseguiremos nos comunicar com ninguém."

Sergey Ponomarev/The New York Times
Menina da etnia rohingya carrega água para a vila de Himchori, em Bangladesh


A agência de refugiados da ONU, que administra os dois campos, criticou a proposta de relocação em 2015, a chamando de "complexa e controversa" e dizendo que qualquer partida teria que ocorrer com consentimento dos imigrantes.

Agora, o retorno do plano pegou os grupos de ajuda de surpresa.

"O Acnur está preocupada com essa notícia e buscando detalhes junto às autoridades", disse Shinji Kubo, representante do Acnur em Bangladesh, por e-mail. "Qualquer transferência deve ser realizada por meio de um processo consultivo e voluntário, e a viabilidade do local proposto deve ser avaliada."

As organizações de direitos humanos Human Rights Watch e Anistia Internacional dizem que uma recente repressão em Mianmar tem visado de forma indiscriminada os rohingyas, citando imagens por satélite mostrando 1.500 lares rohingyas incendiados e muitos relatos de assassinatos em massa e estupros.

O Gabinete em Bangladesh orientou as autoridades a adotarem medidas para impedir a "entre ilegal de cidadãos de Mianmar" e impedir que os refugiados existentes "se misturem com a população local". Também ordena que as autoridades mantenham nas áreas designadas todos os imigrantes de Mianmar que entraram ilegalmente no país, e que os prendam e os conduzam de volta a essas áreas caso tentem sair.

A ordem, que foi postada no site do Gabinete, disse que a chegada dos rohingyas nos últimos meses aumentou as tensões, criando "riscos físicos" à população local e causando problemas econômicos e sociais na área de Cox's Bazar.

Os críticos do plano de relocação dizem que a ordem tem mais a ver com o desejo do país de desenvolver Cox's Bazar, que conta com aquela que o governo alega ser a praia mais longa do mundo, em um destino turístico próspero que poderia rivalizar destinos populares de outras partes da Ásia.

"No momento, as pessoas aqui estão construindo apenas hotéis e pousadas", disse Hayat Khan, um executivo do Ocean Paradise Hotel em Cox's Bazar.

"Você vai à praia por meia hora e então não há nada mais para fazer. É preciso bondes e parques temáticos, como o Janela para o Mundo em Shenzhen", ele acrescentou, referindo-se à cidade no sul da China. "Para isso, é preciso muito investimento e muitas terras."

Os refugiados rohingyas e seus líderes dizem que não foram consultados sobre o plano.

"Se o governo quiser algo, teremos que obedecê-lo", disse Mostafa, o refugiado. "No final, o que queremos ou não queremos não importa para ninguém."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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