"Você nos abandonou, Trump": iraquianos reagem a novas medidas dos EUA

Tim Arango*

  • Ahmed Jadallah/ Reuters

    Criança iraquiana que fugiu do Estado Islâmico em Mossul observa da cerca do campo de refugiados Khazer, no Iraque

    Criança iraquiana que fugiu do Estado Islâmico em Mossul observa da cerca do campo de refugiados Khazer, no Iraque

Escondidos em casas de todo o Iraque, há presentes e lembranças dados aos iraquianos por amigos americanos. Medalhas, certificados, brinquedos, armas, cartas, inúmeras fotografias.

"Uma de minhas melhores memórias era a de um oficial americano que se lembrava do aniversário de meus três filhos e lhes trazia presentes", disse Yasir Khaleel, que vive em Baquba, no leste do Iraque, e trabalhou como intérprete para as tropas americanas.

Mas ele também tem outra memória, igualmente pungente.

"Minha pior lembrança é a morte de meu sobrinho, que era uma criança, por um tiro de uma patrulha americana", lembrou Khaleel, citando as estreitas, mas dolorosas, relações que se desenvolveram durante o longo relacionamento entre os dois países.

Agora, com a posse do presidente Donald Trump, e especialmente depois de sua ordem para impedir que cidadãos iraquianos visitem os EUA, os iraquianos estão perguntando: o novo capítulo nesta longa história será de traições e insultos?

Durante mais de 25 anos, desde a primeira Guerra do Golfo, em 1991, os militares americanos estiveram envolvidos no Iraque. Dezenas de milhares de iraquianos se ofereceram para ajudar a causa americana, e a sua própria, trabalhando para alcançar a democracia e a estabilidade em um país que nunca havia experimentado nada disso.

Através dos tempos mais difíceis --quando a violência sectária destruía o país, quando surgiram revelações de tortura por americanos na prisão de Abu Ghraib--, sempre houve relacionamentos pessoais entre americanos e iraquianos, contra o pano de fundo da guerra.

No dia em que assumiu o governo, Trump tornou-se o quinto presidente consecutivo a bombardear o Iraque. Ele também sugeriu que aplicará mais recursos militares no país, onde as forças americanas trabalham estreitamente com tropas iraquianas na batalha para recuperar Mosul de militantes do grupo Estado Islâmico, para cumprir sua promessa de erradicar o grupo "da face da Terra".

Mas em seus primeiros dias ele também insultou os iraquianos, dizendo que os EUA deveriam ter tirado seu petróleo, e ainda poderão fazê-lo. E, talvez o mais doloroso, ele anunciou um novo conjunto de restrições que impediria os iraquianos de se estabelecerem nos EUA e até de visitá-lo, pelo menos durante algum tempo.

"No fundo, isso envia a mensagem de que os EUA consideram os iraquianos inconfiáveis", escreveu em um e-mail Kenneth Pollack, um antigo analista do Iraque no Instituto Brookings. "Que eles não são nossos parceiros. Isso reforça a ideia de Trump de tirar seu petróleo; que não os consideramos aliados, mas algo muito abaixo disso."

Trump explicou sua ordem executiva como uma maneira de manter os EUA a salvo do terrorismo, mas autoridades e analistas dizem que provavelmente prejudicará seus esforços para eliminar o EI, já que os EUA contam com os iraquianos para a maior parte da luta.

"Isso vai alienar todo o Iraque contra o homem, dizer a todos os iraquianos: 'Vocês não são bem-vindos em nosso país'", disse Mouwafak al Rubaie, um deputado e ex-assessor de segurança nacional do Iraque.

A questão também poderá se tornar um prejuízo político para o primeiro-ministro Haider al Abadi, que falou com otimismo sobre expandir a cooperação entre o Iraque e os EUA com Trump na luta contra o EI. Será difícil, disse Al Rubaie, que Al Abadi justifique ao público iraquiano um relacionamento próximo com os EUA quando o país está fechando a porta aos iraquianos.

"Isto será um enorme embaraço para o primeiro-ministro", disse Al Rubaie.

Na segunda-feira (30), o Parlamento iraquiano aprovou um pedido ao governo para reagir barrando a entrada de americanos no país. Não ficou claro se o governo o fará, e em um comunicado emitido na segunda-feira o Ministério das Relações Exteriores foi mais cauteloso, pedindo que os EUA reconsiderem essa política.

Outros líderes, incluindo o religioso xiita Muqtada al Sadr e o porta-voz das unidades paramilitares iraquianas que têm lutado contra o EI, disseram que os americanos devem ser barrados no Iraque.

O porta-voz de Al Abadi adotou uma posição mais comedida, dizendo que a ordem executiva não deve afetar a cooperação de segurança entre os países.

Henri Barkey, diretor do programa de Oriente Médio no Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson, disse que impedir a entrada de iraquianos nos EUA funcionaria contra os esforços americanos para estabilizar o Iraque quando o EI for derrotado.

"Quando você está tentando reconstruir o Iraque, é importante levar iraquianos para estudar nos EUA, para ser treinados", disse Barkey.

Ele deu o exemplo da Universidade Americana no Iraque, Sulaimani, no Curdistão iraquiano, que recebe verbas dos EUA e de cujo conselho ele participa. "Os acadêmicos curdo-iraquianos terão muita dificuldade para visitar os EUA, o que derruba o objetivo de se criar essas instituições", afirmou Barkey.

As novas restrições de Trump foram especialmente duras para os milhares de iraquianos que trabalharam em proximidade com os soldados americanos e fizeram muitos amigos entre eles. Não havia garantia, mas apresentar-se para se somar à causa americana encerrava uma promessa implícita: a possibilidade de uma nova vida nos EUA, por meio de um programa especial de imigração que Trump parece decidido a encerrar.

"Você nos abandonou, Trump, e arrasou todas as nossas esperanças e futuro", disse Ali Salam, um ex-intérprete militar. Ele disse que antes pensava nos EUA como "a terra dos sonhos".

Dois iraquianos, inclusive um que trabalhou como intérprete para o Exército americano, foram detidos no sábado no Aeroporto Internacional Kennedy em Nova York. Com a intervenção de advogados, o ex-intérprete foi libertado no sábado à tarde e o outro iraquiano foi libertado à noite.

Anas Nasir, que trabalhou para a empreiteira de segurança americana em Bagdá, disse que as novas restrições despedaçaram suas esperanças. Seu trabalho lhe deu um salário constante, mas, enfrentando muitas ameaças de morte, ele saiu e pediu asilo nos EUA. Seu sonho era simples: abrir um restaurante de comida iraquiana em Los Angeles.

"Mas agora Trump veio destruir esse último sonho", disse Nasir, 30. "Sempre sonhei em criar meu filho longe de carros-bombas e tensões sectárias, e a América era o lugar ideal."

Enfrentando longas esperas por uma resposta a seus pedidos, os iraquianos passaram horas aprendendo inglês e estudando a vida nos EUA.

"Eu esperava o dia em que deixaria o Iraque e recomeçaria uma nova vida, livre de problemas, medo e tristeza, e onde eu pudesse proteger a vida de minha mulher e minhas filhas", disse Haider al Kadhimi, que trabalhou para um canal de notícias americano e pediu reassentamento nos EUA há cinco anos, depois de ser ameaçado por uma milícia. Ele disse que esperava mudar-se para Utah, Estado sobre o qual se informou na internet.

"Infelizmente, Trump decidiu não nos receber e nos deixou como uma presa fácil para os que consideram os EUA um inimigo e ocupante no Iraque", acrescentou.

Os rígidos procedimentos de imigração nos EUA já dividiram muitas famílias iraquianas, pois alguns membros foram aprovados para entrar, enquanto outros foram deixados à espera ou rejeitados. Durante muito tempo os iraquianos esperavam que a separação fosse temporária, mas hoje muitos temem que seja permanente.

Namo Abdulla, um jornalista curdo que se mudou para os EUA há alguns anos, mas recentemente voltou para se casar, teme que sua nova mulher, que esperava há meses um visto para os EUA, será impedida de unir-se a ele.

Abdulla escreveu em sua página no Facebook: "Obrigado, Trump, por fechar as fronteiras de seu país às pessoas mais vulneráveis. Minha mulher esperava há meses a emissão de seu visto. Por favor, não diga que isso vai afetar minha mulher. Por favor, não diga que isso vai destruir minha vida."

* David Zucchino, Falih Hassan e Omar al-Jawoshy contribuíram com reportagem em Bagdá.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos