Presidência de Trump pode oferecer oportunidade aos autocratas do mundo

Rod Nordland

Em Beirute (Líbano)

  • KCNA via Xinhua

Kim Jong Un pode parecer um jogador improvável na corrida global para cair nas graças do novo presidente dos Estados Unidos, diante das ameaças implícitas do líder norte-coreano, como a feita recentemente no dia de Ano Novo, de lançar mísseis nucleares contra os Estados Unidos.

Mas Kim aparentemente vê no presidente Donald Trump "uma boa oportunidade para abertura de um tipo de acordo com o novo governo americano", disse o desertor do alto escalão norte-coreano, Thae Yong Ho, em uma entrevista para a "CNN" na semana passada.

O romance entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Trump é o exemplo mais proeminente de uma tendência que tomou o mundo, proporcionando nova esperança para homens fortes pró-Estados Unidos em países como Filipinas, Turquia e Egito, e entre nacionalistas em muitos outros lugares, que esperam seguir os passos de Trump e ganhar poder político.

Muitos parecem ver uma presidência de Trump como uma oportunidade de lidar com um líder de mentalidade semelhante que declara metas nacionalistas. Outros podem esperar um descanso das críticas por seu retrospecto de direitos humanos ou tendências autoritárias. Alguns, como Kim e Putin, podem ver uma oportunidade de avançar suas metas nacionais em uma nova ordem geopolítica.

O historiador Timothy Garton Ash, escrevendo para o jornal "The Guardian", chamou a presidência de Trump de uma "nova era de nacionalismo" na qual "os nacionalistas estão dando uns aos outros o sinal positivo trumpiano".

O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, que chamou de "filho da puta" o ex-presidente Barack Obama devido às críticas do governo Obama à campanha aprovada pelo governo de assassinato de traficantes de drogas no país, foi rápido em parabenizar Trump por sua vitória eleitoral. O presidente filipino disse na semana passada que Trump lhe enviou uma mensagem de apoio.

Duterte, que tem ameaçado romper as relações com os Estados Unidos, antigos aliados, e se voltar para a China, fez o anúncio durante uma aparição no concurso Miss Universo em Manila. (Assim como Trump, que foi dono do Miss Universo até 2015, Duterte há muito aprecia aparecer em público ao lado de misses.)

O presidente filipino pareceu indiferente diante da ordem de Trump na semana passada de impedir a entrada de refugiados nos Estados Unidos e reduzir a imigração de alguns países de maioria muçulmana, dizendo no domingo que "não vou erguer um dedo" para ajudar os filipinos que enfrentam deportação dos Estados Unidos, segundo o jornal "The Philippine Daily Inquirer".

Mesmo aqueles que zombavam de Trump, quando era um astro de reality show considerado com pouca chance de chegar à presidência, mudaram de tom.

Em junho, após Trump ter dito que proibiria a entrada de muçulmanos nos Estados Unidos, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, exigiu que o nome de Trump fosse retirado da Trump Towers Istanbul. Erdogan, um islamita, deteve ou demitiu 100 mil oponentes e prendeu outros 40 mil após um golpe militar malsucedido no ano passado.

Após a eleição de Trump, Erdogan mudou de posição.

"Acredito que chegaremos a um consenso com o sr. Trump, particularmente em assuntos regionais", disse Erdogan neste mês, durante uma reunião com diplomatas turcos. Mas algumas rachaduras aparentemente surgiram após a ordem de imigração de Trump na sexta-feira: Erdogan chamou a medida de "perturbadora". Mas disse que ainda assim se encontraria com Trump em uma data não especificada e levantaria a questão na ocasião.

E o nome da Trump Towers permanece inalterado.

No Egito, o presidente Abdel-Fattah el-Sissi, que sofria com as críticas americanas ao retrospecto de direitos humanos no país e ao golpe militar que o conduziu ao poder, parece estar apreciando a liderança de Trump. Em dezembro, após um telefonema de Trump, Sissi concordou em adiar uma votação no Conselho de Segurança da ONU sobre os assentamentos israelenses.

O silêncio de Sissi diante da ordem executiva sobre refugiados foi notável, apesar do sentimento por toda a região de que se trata de uma ordem antimuçulmana.

No Cazaquistão, o "presidente vitalício" do país, Nursultan A. Nazarbayev, cujo péssimo retrospecto de direitos humanos é bem documentado, disse que Trump lhe telefonou em dezembro para cumprimentá-lo pelo "milagre" que realizou em seu país ao longo de seus 25 anos de independência. Trump aparentemente não se referia à reeleição de Nazarbayev em 2015, que o líder cazaque venceu com 97,7% dos votos.

Trump também foi saudado por nacionalistas na Europa, onde suas mensagens anti-imigração repercutem em um continente que foi tomado por refugiados de guerras em países como a Síria e por imigrantes econômicos. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, parabenizou a vitória de Trump, assim como líderes da extrema-direita, como Marine Le Pen na França.

Parte do entusiasmo de líderes autoritários com a presidência de Trump parece associada à sua inclinação declarada de derrubar a ordem mundial. Isso pode incluir um repensar de alianças como a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) ou a forma de lidar com antigas questões, como a Coreia do Norte e seu programa de armas nucleares, agora supervisionado por Kim.

Na verdade, Kim ainda está longe de se tornar amigo de Trump, apesar das afirmações feitas na semana passada por Thae, o desertor norte-coreano.

As declarações antiamericanas de Kim foram beligerantes mesmo após a eleição de Trump, que respondeu a uma suposta ameaça norte-coreana de ataque com mísseis postando no Twitter: "Não vai acontecer!" Isso levou Jeffrey Lewis, um especialista em não-proliferação, a expressar sua preocupação na revista "Foreign Policy" de que "Donald Trump já está nos levando pelo Twitter a uma guerra com a Coreia do Norte".

Entretanto, Trump sugeriu no ano passado que se fosse eleito, poderia se encontrar com Kim. A oferte provocou um estremecimento no establishment de relações exteriores de que isso representaria, na visão de muitos, uma quebra de protocolo, essencialmente reconhecendo o líder de um Estado que os Estados Unidos não reconhecem.

"Eu falaria com ele. Não teria nenhum problema em falar com ele", disse Trump durante uma entrevista para a agência de notícias "Reuters", em maio.

Os líderes norte-coreano e americano podem encontrar outro ponto em comum. Quando Trump assinou uma ordem executiva declarando 20 de janeiro, o dia de sua posse, como sendo um "Dia Nacional da Devoção Patriótica", postagens nas redes sociais levantaram comparações com declarações do regime norte-coreano de ocasiões de nome semelhante.

Para líderes como Erdogan e Sissi, a presidência de Trump poderia fornecer uma pausa às críticas aos seus governos cada vez mais repressivos, e até mesmo validar suas táticas.

Como outros líderes autoritários, Erdogan tem sido um firme aliado dos Estados Unidos e um crítico irritadiço. A Turquia conta com bases militares americanas e é membro da Otan. Mas muitos dos apoiadores de Erdogan culpam os Estados Unidos pela tentativa de golpe militar e Erdogan se irrita com as críticas de direitos humanos feitas por Washington, após sua repressão aos oponentes e à mídia de notícias.

As autoridades turcas disseram estar esperançosas de que os militares americanos encerrarão sua cooperação com os combatentes curdos no leste da Turquia. O Pentágono considera os curdos como aliados valorosos, enquanto os turcos os veem como apoiadores terroristas dos rebeldes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) dentro da Turquia.

O governo turco tem motivos para se manter esperançoso. O conselheiro de segurança nacional de Trump, Michael T. Flynn, publicou comentários no dia da eleição pedindo por maior apoio ao governo turco. A empresa de consultoria de Flynn, Flynn Intel Group, mantinha um contrato na época com uma associação setorial turca levemente associada ao governo Erdogan.

Erdogan, que prendeu mais jornalistas do que qualquer outro líder no ano passado, ficou quase radiante depois que Trump gritou com o repórter Jim Acosta da "CNN", em uma coletiva de imprensa em janeiro, em resposta às reportagens da "CNN" e "BuzzFeed" sobre briefings de inteligência envolvendo alegações não confirmadas de esforços russos para chantagear Trump.

"Aqueles que antes fizeram esse jogo na Turquia agora o caluniaram de novo durante a coletiva de imprensa", disse Erdogan após o evento, referindo-se à "CNN". "E o sr. Trump colocou o repórter daquele grupo em seu devido lugar."

Mas apesar de todas as palavras amistosas, não se sabe se Trump e líderes irritadiços como Erdogan e Duterte conseguirão manter um bom relacionamento.

Em Manila, por exemplo, o apreço de Duterte pelo apoio de Trump é limitado. Ele disse que enviou uma resposta a Trump, por meio dos organizadores do Miss Universo, reclamando de sua aparente exclusão da posse do presidente americano.

"Eu lhe disse: 'Amigo, não fui à posse porque não fui convidado'."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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