Proibição de Trump prolonga a odisseia médica de uma garota síria

Raphael Minder

Em Barcelona (Espanha)

  • Samuel Aranda/The New York Times

    Sham Aldaher com sua mãe após procedimento médico no hospital em Barcelona, Espanha

    Sham Aldaher com sua mãe após procedimento médico no hospital em Barcelona, Espanha

A proibição do presidente Donald Trump atrapalhou os planos de centenas de pessoas do mundo todo, mas talvez nenhuma seja tão vulnerável quanto Sham Aldaher, uma garota síria refugiada, e sua família.

Sham nasceu sem um olho e com um rosto gravemente desfigurado. Após duas complexas cirurgias em um hospital de Barcelona, Sham deve receber uma prótese ocular na próxima quarta-feira. Sua família havia planejado se reassentar nos Estados Unidos.

Eles já haviam completado as entrevistas necessárias e feito todas as verificações de segurança quando seus planos foram interrompidos pela ordem executiva de Trump de barrar cidadãos da Síria e de outros seis países predominantemente muçulmanos, vistos como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos.

"Eles estavam prontos para viajar, e agora foram barrados", disse Jayne Fleming, chefe da equipe de direitos humanos do Reed Smith, um escritório de advocacia americano que tem ajudado Sham e sua família. Fleming e sua equipe estão agora correndo para ver se o Reino Unido, a Alemanha ou algum outro país poderia receber a família.

"Eles estão aflitos por não saberem o que o futuro reserva para eles", disse Fleming.

A história dos Aldaher é uma tragédia nômade, que revela o acúmulo de dificuldades que se empilharam sobre muitos refugiados sírios. Ela é também um exemplo pequeno, mas dramático, da crise mais ampla evidenciada em um relatório das Nações Unidas divulgado na terça-feira, mostrando que as crianças que mais precisam de uma assistência internacional de emergência vêm de cinco dos sete países cobertos pela ordem de Trump.

Os pais de Sham deixaram a Síria e seus empregos como professores em 2013. Eles viajaram com seus três filhos para o Líbano e depois para o Egito. Mas a chegada deles coincidiu com a instabilidade e o golpe militar que depôs Mohammed Mursi como presidente do Egito.

"Nós deixamos nossa casa em busca de segurança, mas no Egito havia bombardeios durante a noite e as crianças ficavam com muito medo", disse Ali Aldaher, pai de Sham.

Então a família fez as malas novamente para se juntar aos milhares de outros refugiados sírios na Jordânia. Sham nasceu ali em julho de 2015, no feriado muçulmano do Eid al-Fitr (fim do Ramadã). A coincidência foi vista como uma bênção por seus pais, mas ela complicou o nascimento de Sham, pois a maior parte das equipes hospitalares estava de férias e a família não conseguiu encontrar um médico.

Embora no final uma parteira tenha ajudado no parto, a mãe de Sham "não recebeu os cuidados médicos necessários e tenho certeza de que todo o estresse prejudicou", lembra Aldaher.

Quando Sham nasceu, seu pai tentou acalmar sua mulher dizendo que Sham estava fechando um olho, embora ele pudesse ver que ela não tinha pálpebra e que seu rosto estava desfigurado.

"Antes do nascimento de Sham, minhas preocupações eram como eu poderia sustentar minha família, sem qualquer trabalho na Jordânia e sem dinheiro", disse Aldaher. "Depois que ela nasceu, nós nos esquecemos de comida, de nossos problemas e de nós mesmos e até de nossos outros filhos para começar nossa nova jornada de sofrimento por Sham, para ver como poderíamos cuidar dessa criança."

Samuel Aranda/The New York Times
Sham Aldaher brinca com sua mãe no hospital Sant Joan de Deu, em Barcelona

A família de Sham recebeu ajuda de diferentes ONGs, inclusive da Médicos Sem Fronteiras. Advogados do Reed Smith começaram a procurar por um hospital que fosse capaz de realizar essa cirurgia tão avançada, ao mesmo tempo em que ajudavam a família a se candidatar ao reassentamento nos Estados Unidos.

Os advogados adiaram então a mudança para os Estados Unidos porque eles não conseguiam encontrar um hospital americano que estivesse disposto a tratar de Sham sem custos. Em vez disso, o hospital Sant Joan de Déu, em Barcelona, concordou em ajudar.

Contudo, entrar na Espanha também foi uma luta. Em junho passado, o governo espanhol concedeu permissão à família de Sham para viajar para Barcelona, logo depois que o "The New York Times" publicou um artigo sobre os apuros do bebê e a recusa da Espanha em conceder vistos para a família inteira.

Mesmo antes da ordem executiva de Trump para barrar a entrada de cidadãos de alguns países nos Estados Unidos alegando questões de segurança, muitos governos europeus estavam relutando em cumprir suas próprias promessas de receber mais refugiados seguindo um acordo da União Europeia firmado em setembro de 2015. Até o final de 2016, cerca de 900 refugiados haviam se reassentado na Espanha, da cota de 17.377 acordada pelo governo da Espanha.

Sham passou por duas grandes cirurgias faciais em Barcelona. Em agosto, médicos ajustaram seus ossos faciais, também para abrir espaço para uma órbita ocular. Em dezembro, eles fissuraram sua pele para formar uma pálpebra e implantaram gordura retirada das nádegas de Sham dentro da órbita artificial, que foi então recoberta por uma concha plástica curva. Sham deve receber sua prótese ocular na próxima quarta-feira.

O Dr. Joan Prat, chefe de oftalmologia no Sant Joan de Déu, disse ter usado uma técnica singular para "inventar uma cavidade do zero". A cirurgia do olho era não somente difícil como também urgente, pois o rosto de Sham logo atingiria um nível de desenvolvimento que tornaria a deformação permanente.

"Ou fazíamos alguma coisa agora ou não teria mais jeito", disse Prat. O distúrbio que Sham tem, conhecido como anoftalmia, ocorre "somente de tempos em tempos", ele acrescentou.

A cirurgia foi um sucesso, mas Prat disse que Sham deveria ser mantida sob um monitoramento próximo, não somente por causa de seu rosto, mas também por outras questões de saúde, inclusive sua dificuldade de ganhar peso. Outras cirurgias serão necessárias para corrigir assimetrias faciais à medida que ela for crescendo, e sua prótese ocular também precisará ser substituída.

Sham e sua família receberam permissão de residência na Espanha até o final de dezembro. Eles foram instalados em um apartamento de três quartos, muito próximo da Sagrada Familia, a emblemática basílica de Barcelona.

Fleming disse que a família queria viver nos Estados Unidos em grande parte porque Sham poderia conseguir um excelente acompanhamento médico ali. Ela reconheceu que a família agora estava preocupada com uma reação negativa contra os muçulmanos nos Estados Unidos e que "eles estão angustiados com o discurso que os estigmatiza como terroristas".

Em Barcelona, a família de Sham recebeu apoio da prefeitura, bem como da Caritas e de outras ONGs. Os irmãos de Sham passaram a frequentar uma escola local.

A família mantém em uma prateleira um pequeno Corão, que está entre os poucos itens que viajaram junto com eles a partir da Síria. Há também um tapete de oração pregado na parede, mas a família normalmente vai até uma mesquita de Barcelona para a oração de sexta-feira.

Quando a garota nasceu, sua mãe lhe deu um antigo nome da Síria, Sham. Ela disse que, onde quer que a família vá acabar morando, "um dia Sham vai me perguntar qual o significado de seu nome, e pelo menos poderei dizer que é o país dela, a Síria".

Tradutor: UOL

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