Austrália revisa casos em que gangues matavam gays por diversão

Michelle Innis

Em Sydney (Austrália)

  • Matthew Abbott/The New York Times

    Steve Johnson no alto da falésia onde o corpo de seu irmão Scott foi encontrado em 1988, em Sydney

    Steve Johnson no alto da falésia onde o corpo de seu irmão Scott foi encontrado em 1988, em Sydney

Em um dia de dezembro de 1988, um adolescente praticando pesca submarina encontrou um corpo na base de uma das falésias de arenito cor de mel que margeiam o Porto de Sydney.

Nu, com cortes e hematomas causados pelas rochas, o morto era um promissor matemático americano, Scott Johnson. Suas roupas foram encontradas no alto da falésia, em um pilha bem feita, juntamente com seu relógio digital, uma identidade de estudante e uma nota de US$ 10, dobrada dentro de invólucro plástico. Mas não havia nenhuma carteira e nenhum bilhete.

A polícia concluiu que Johnson, 27 anos, tinha cometido suicídio, e um perito concordou. Saltos fatais das falésias em Sydney ao mar bravo abaixo não eram incomuns, tanto naquela época quanto agora.

Mas 28 anos depois, teve início uma nova investigação sobre a morte de Johnson. Seu irmão, um rico empreendedor do setor de tecnologia de Boston, pressionou por anos as autoridades australianas a reabrirem o caso, argumentando que Johnson foi assassinado por ser gay e que a polícia tinha fracassado em perceber isso.

Se foi o caso, aparentemente Johnson pode não ter sido o único.

Durante os anos 80 e 90, dizem agora as autoridades australianas, gangues de adolescentes em Sydney caçavam homens gays por diversão, às vezes os forçando a saltar das falésias para a morte. Mas a polícia, que tinha reputação de hostilidade em relação aos gays, com frequência realizava investigações de modo negligente que ignoravam a possibilidade de homicídio, dizem ex-autoridades e policiais.

Agora, a polícia em Nova Gales do Sul, o Estado que inclui Sydney, está revendo as mortes de 88 homens entre 1976 e 2000 para determinar se devem ser classificadas como crimes de ódio antigay.

Cerca de 30 casos permanecem não solucionados e a polícia não disse quantas das mortes foram associadas às gangues. Cerca de uma dúzia das vítimas foi encontrada morta na base das falésias ou no mar, disse a polícia.

A reabertura da investigação da morte de Johnson traz à tona um capítulo chocante da história de Sydney, um que algumas pessoas dizem que ainda precisa ser plenamente revelado.

"Agora podemos ver que predadores estavam atacando homens gays", disse Ted Pickering, que foi o ministro da polícia de Nova Gales do Sul no final dos anos 80. "E o faziam com a quase certeza de que a polícia não os perseguiria. Essa era a cultura da polícia na época."

Nenhuma nova prisão ocorreu ligada aos assassinatos desde que a revisão dos casos teve início em 2013, e a polícia se recusou a discutir as investigações em andamento. Em muitos dos casos, disse a polícia, evidências relevantes não foram colhidas na época ou já se perderam.

"Apesar da revisão dos casos ser uma tarefa difícil porque não podemos reescrever a história, nós sabemos que é importante fazermos todo o possível para assegurar os melhores resultados no futuro", disse Tony Crandell, um comissário assistente em exercício da Força Policial de Nova Gales do Sul.

Mas outros sugerem que a revisão, que visa determinar quais casos podem envolver preconceito, mas não solucioná-los, não é resposta suficiente.

"Pode ser tentador para a polícia se concentrar em apenas mudar o rótulo dos crimes, em vez de realizar um novo trabalho de detetive para solucioná-los", disse Stephen Tomsen, um criminologista da Universidade de Western Sydney.

Sydney é uma cidade mais tolerante do que era décadas atrás, e os críticos dizem que a postura da polícia mudou consideravelmente. Policiais uniformizados agora marcham na parada gay anual de Sydney, que atraiu um quarto de milhão de espectadores no ano passado e contou pela primeira vez com a presença de um primeiro-ministro, Malcolm Turnbull.

Mas se as leis estavam mudando lentamente nos anos 80 (Nova Gales do Sul descriminalizou o sexo entre homens apenas em 1984), isso ocorreu de modo ainda mais lento na sociedade, incluindo a polícia.

"A cultura da polícia na Austrália até o início dos anos 90 era de hostilidade em relação aos gays", escreveu por e-mail Michael Kirby, um ministro aposentado da Suprema Corte que serviu naquele período. "Eles eram basicamente considerados pequenos criminosos antissociais, escória que fazia coisas nojentas, de modo que não causava surpresa acabarem se ferindo ou até mesmo sendo mortos."

Kirby, que é gay, acrescentou: "Não acredito que isso chegue a uma conspiração geral para recuar de investigações profissionais de homicídio", mas sim de que se tratava de uma "postura de complacência e indiferença. Certamente não havia a mesma motivação para procurar pelos assassinos."

Pesquisadores que estudaram o assunto disseram que as gangues eram alianças livres de garotos jovens, adolescentes e às vezes garotas, que procuravam por vítimas para molestar e atacar os chamados pontos gays de Sydney, locais onde era de conhecimento que homens gays se encontravam, incluindo pontos isolados nas falésias. Os membros das gangues chamavam isso de "poofter bashing" (algo como "espancar 'viados'").

"Havia muitas gangues", disse Stephen Page, um ex-detetive de Nova Gales do Sul que reabriu alguns dos casos anos depois. "Eles não atacavam apenas um ponto. Eles conheciam todos eles."

Algumas poucas vítimas procuraram a polícia, disse Tomsen. A maioria dos gays não era assumida e muitos temiam ser agredidos pela própria polícia. Após a primeira parada gay da cidade ter sido dispersada pela polícia em 1978, alguns dos participantes foram agredidos em suas celas.

"Qualquer gay que tivesse sido atacado seria considerado como um tolo correndo um risco temerário caso denunciasse a agressão à polícia", disse Tomsen.

Mesmo assim, ocorreram algumas prisões e processos. Em 1990, um homem tailandês foi atacado com um martelo no alto da falésia e caiu para a morte. Três adolescentes foram presos e condenados por homicídio.

Matthew Abbott/The New York Times
A falésia em Fairy Bower, Sydney

Segundo um relatório por Sue Thompson, que serviu como contato nomeado pelo Estado entre a polícia de Nova Gales do Sul e os gays, um dos agressores disse à polícia: "O mais fácil na falésia é apenas conduzi-los para além da beira".

A ideia de que as mortes faziam parte de um padrão não foi seriamente considerada até anos depois. Em 2000, Page, incitada por cartas de uma mãe enlutada, reabriu o caso de Ross Warren, um âncora de noticiário de televisão de 25 anos que desapareceu em 1989.

O corpo de Warren nunca foi encontrado, apesar das chaves de seu carro terem sido encontradas na beira de uma falésia. A polícia concluiu que ele tinha caído acidentalmente. Mas Page descobriu que a investigação original foi superficial, na melhor das hipóteses.

"Não havia cena de crime, não havia evidência e nenhuma testemunha no desaparecimento de Ross Warren", ele disse.

Page começou a investigar casos semelhantes. Em 2005, uma investigação concluiu que Warren foi assassinado, outro homem foi empurrado ou atirado da falésia, e havia uma forte possibilidade de que um terceiro também.

"Foi uma investigação grosseiramente inadequada e vergonhosa", disse Jacqueline Milledge, uma vice-médica legista do Estado, sobre a forma como a polícia lidou com o caso da morte de Warren.

Em todos os três casos, ela disse, a polícia não levantou a possibilidade de homicídio, apesar de homens atacados na mesma área que procuraram a polícia terem contado sobre "ouvirem seus agressores ameaçarem jogá-los do alto da falésia". Os três casos permanecem não solucionados.

Quando Steve Johnson soube que os casos estavam sendo revistos em Sydney, ele sentiu que finalmente tinha uma possível explicação para a morte de seu irmão mais novo. Johnson cuidou de Scott desde a infância, quando seus pais se divorciaram, e considerava o suicídio impossível.

Steve Johnson via The New York Times
Scott Johnson em foto de 1987

"Era meu irmão, a pessoa de quem eu era mais próximo, minha alma gêmea", disse Johnson, 57 anos, em dezembro, do lado de fora do tribunal em Sydney onde o inquérito começou.

Scott Johnson tinha se mudado para a Austrália para ficar com seu parceiro e estava buscando um doutorado na Universidade Nacional da Austrália, em Canberra. Ele era um matemático "virtuoso", "brilhante, mas notavelmente gentil e modesto", segundo Richard Zeckhauser, um economista de Harvard que escreveu um artigo com ele.

Scott Johnson tinha entrado com pedido de residência permanente e suas perspectivas profissionais eram boas.

"Ele teria sido um dos primeiros selecionados em qualquer universidade em qualquer parte do mundo", disse seu irmão. "Ele não tinha motivo para estar estressado ou infeliz."

No dia em que desapareceu, Scott Johnson disse ao seu supervisor de Ph.D., Ross Street, da Universidade Macquarie, em Sydney, que tinha solucionado um problema irritante que era crucial para sua dissertação.

"Soava como se ele tivesse a coisa toda em sua cabeça", disse Street no inquérito em dezembro. "Ele estava feliz com o andamento. Eu estava feliz com o andamento."

Hoje, evidências sobre o que aconteceu com Johnson, assim como em muitos casos semelhantes, é escassa. Ele foi encontrado abaixo de um ponto de encontro gay, mas o policial local que respondeu à chamada testemunhou que não tinha conhecimento disso na época.

A polícia não encontrou sinais de luta no alto da falésia, mas ocorreu uma tempestade que poderia ter lavado as evidências. O site nunca foi isolado como cena de crime.

Nos anos que se seguiram à morte de Johnson, seu irmão se tornou rico no boom de tecnologia dos anos 90, vendendo para a AOL uma empresa que desenvolvia tecnologia de compressão para transmissão de áudio e vídeo pela internet.

Após tomar conhecimento da investigação em 2005 das mortes nas falésias de Sydney, Steve Johnson passou a dedicar parte de seus recursos para descobrir o que aconteceu com seu irmão. Ele contratou um jornalista investigativo, Daniel Glick, para que fosse à Austrália para pesquisar autos processuais e outros documentos. E contratou vários advogados de peso, uma equipe legal que inclui a ex-secretária de Justiça de Massachusetts, Martha Coakley, que disse que sua firma aceitou o caso pro bono, para defesa da reabertura do caso.

Em 2012, um novo inquérito derrubou a conclusão original de suicídio. Mas o médico legista não chegou a nenhuma conclusão sobre como Johnson morreu, dizendo que apesar de violência antigay ser uma possibilidade, uma queda acidental também era.

Quando a atual investigação for retomada em junho, ela contará com novas evidências, disse o instituto médico-legal.

Seja qual for o resultado, Steve Johnson e outros esperam que leve a novas investigações desses casos.

"Há claramente um padrão nessas mortes", disse Margaret Sheil, cujo irmão, Peter, foi encontrado morto na base de uma falésia em 1983. "Hoje, é extraordinário pensar que não houve uma discussão aberta sobre o que aconteceu. E caso tivesse ocorrido, poderia ter impedido que acontecesse a outras pessoas."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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