Amor em tempos de Trump: proibição de viagens separa casais

Jack Healy, de Aurora, e Anemona Hartocollis

Em Nova York (EUA)

  • Damon Winter/The New York Times

    Jehan Mouhsen conversa com seu marido, Khaled Almilaji, por videoconferência. Ela está em Nova York e ele está retido na Turquia

    Jehan Mouhsen conversa com seu marido, Khaled Almilaji, por videoconferência. Ela está em Nova York e ele está retido na Turquia

Foram 11 dias ligando para advogados, implorando a autoridades de imigração e tentando reservar passagens de avião só de ida, mas na terça-feira (7) Osman Nasreldin conseguiu ter de volta o amor de sua vida.

Sua noiva, Sahar Fadul, havia sido detida no final do mês passado ao desembarcar no Aeroporto Internacional Dulles, em Washington, vinda da casa de seus pais no Sudão, e colocada em um avião de volta para a África, com o visto que havia levado um ano para conseguir carimbado com "CANCELADO" em tinta vermelha.

Eles se reuniram em uma tarde de temperatura agradável no Colorado, juntando-se a uma enxurrada de outros viajantes que aproveitavam a suspensão temporária da ordem de imigração do presidente Donald Trump, que restringiu a entrada de refugiados e de viajantes de sete países de maioria muçulmana, do Oriente Médio e da África. Outros casais em todo o mundo continuavam no limbo.

"De que adianta você viver no paraíso e não ter a pessoa que você ama?", perguntou Nasreldin, um higienista dental nascido no Sudão que vive em Aurora, no Colorado.

Para casais de diversas nacionalidades que tentam navegar pelo sistema de imigração dos EUA, o decreto presidencial e a rebelião jurídica que ele causou atiraram relacionamentos e casamentos em um turbilhão.

Americanos que têm parceiros sírios e sudaneses fora dos EUA estão ficando acordados bem depois da meia-noite para comprar passagens só de ida e planejar reencontros tumultuados enquanto a ordem continua suspensa. Deixando de lado os desafios legais, os casais de origem mista iraniana e americana estão repensando seus planos de viver juntos em um país onde um dos dois não se sente mais bem-vindo. Festas de casamento no exterior foram canceladas, um vestido de noiva foi devolvido.

Laura McDermott/The New York Times
Olivia Cross é casada com o iraniano Yahya Abed

Nasreldin e Fadul estavam entre os que correram para se reunir, esperando ficar juntos apesar do resultado dos casos na Justiça federal que contestam a legalidade da proibição temporária de Trump.

Muitos dos casais afetados pela ordem executiva estão habituados a viver separados. Eles se conheceram pela internet, em viagens de negócios ou em visitas a países que um ou ambos haviam deixado anos antes. O que mudou, segundo eles, foi sua certeza de que venceriam o processo de aprovação de imigrantes e um dia viveriam juntos nos EUA.

"Está tudo no ar", disse Guy Croteau, um psicoterapeuta de Boston que conheceu seu noivo, um iraniano, pelo Facebook e se comprometeram depois de alguns encontros rápidos em Istambul e na Malásia.

O noivo --Croteau refere-se publicamente a ele como "M", porque teme pela segurança do outro como um homem gay que vive no Irã-- recebeu um visto de noivo K-1 com validade até julho, um dos 30 mil a 40 mil desses vistos concedidos por ano. Mas o casal não tem certeza se o visto continuará válido depois que terminar a suspensão da imigração pelo governo, em 90 dias. Eles esperam separados.

"Não sabemos", disse Croteau. "Haverá mais verificações? Não sabemos."

Enquanto isso, os casais tentam superar a divisão de forma digital. Olivia Cross conversa por vídeo com seu marido, Yahya Abedi, um iraniano, enquanto caminha entre as classes na Universidade de Michigan. Abedi colou fotos do casamento na parede de seu apartamento em Bandar Abbas, no Irã, para que Cross, que é cidadã americana, possa vê-las quando telefona.

Ryan David Brown/The New York Times
Osman Nasreldin, cuja noiva, Sahar Fadul, é sudanesa

Depois de se conhecerem online, eles se casaram em fevereiro em Tiblisi, na Geórgia (Europa Central), e vinham percorrendo o processo de visto quando Trump assinou o decreto. O Irã retaliou, dizendo que proibiria a entrada de cidadãos dos EUA. E lá se foram os planos do casal de se encontrar no Irã em maio.

"Eu simplesmente sinto que qualquer coisa que tente fazer, por mais que eu tente me virar, tudo está bloqueado", disse Cross. "Nós apenas queremos poder viver nossa vida juntos."

Quando Michelle Brady conversa por vídeo com seu marido, um profissional de assistência nascido no Sudão que se recupera na Polônia de uma cirurgia cardíaca, seu filho de 1 ano e 9 meses, Jad, reconhece o rosto pixelado do pai na tela. Quando eles desconectam, Jad tenta encontrar o pai no computador.

"Ele chora e fica nervoso porque seu pai não está aqui", disse Brady, que hoje não tem certeza de quando o marido poderá reencontrá-los em sua casa na área de Washington.

Mesmo os que não estão separados dizem que o decreto perturbou seus planos de noivado e casamento. Parentes do Irã ou da Síria não têm certeza se poderão participar de casamentos no verão nos EUA. Os casais com pais imigrantes dizem estar hesitantes sobre viajar para suas terras natais para comemorar.

O doutor Arash Afshinnik, que dirige uma unidade de tratamento intensivo neurológico em Fresno, na Califórnia, casou-se há três semanas na Califórnia e pretendia ir para o Irã com sua mulher, Sandra Shahinpour, para uma segunda cerimônia com a família dela. Ele está nos EUA desde os 3 meses de idade, mas ela passou parte da juventude no Irã e tem amigos e primos com os quais desejava comemorar.

"Nós descartamos os planos", disse Afshinnik, 40. Sua mulher devolveu o vestido que tinha comprado para a cerimônia. "Enquanto tudo está sendo decidido, o que não mudou é a incerteza. Por que pôr o dedo na água? Tudo parece quente demais."

Durante a maior parte de seu namoro de 21 meses, Jehan Mouhsen e Khaled Almilaji viveram separados. Ela estudava medicina em Montenegro (Europa Central). Almilaji, 35, um médico sírio conhecido entre os profissionais de ajuda humanitária, estava na Turquia, salvando vidas, segundo ele, dando apoio a médicos na zona de conflito síria. Ele é um romântico que enviou "baldes de rosas" a Mouhsen, 26, e a surpreendeu com visitas a Montenegro.

Eles se casaram em julho, e em agosto se estabeleceram em Rhode Island (EUA), onde Almilaji havia recebido uma bolsa para o mestrado em saúde pública na Universidade Brown, com um visto de estudante. Ele estava entusiasmado por aguçar sua perícia para ajudar a reconstruir seu país. Ela estava animada porque parecia que seus dias de separação haviam terminado.

Agora Almilaji está empacado em Gaziantep, na Turquia, perto da fronteira síria, depois do que deveria ser uma visita de uma semana para cuidar de assuntos pessoais e profissionais. Seu visto de retorno original não foi validado. Ele foi ao consulado dos EUA em Istambul em 20 de janeiro para conseguir um novo visto, mas não teve resposta.

Mouhsen fugiu da solidão de seu apartamento em Providence, em Rhode Island, para ficar com amigos em Nova York, onde estuda para os exames finais de medicina e luta com os enjoos matinais. Ela está grávida.

"Ele me diz para comer frutas e legumes, cuidar de mim e do bebê", disse ela.

Embora Mouhsen tenha origens em Montenegro, ambos cresceram em Aleppo, na Síria, e pretendem voltar para lá um dia. Em 2013, o sistema de detecção precoce de Almilaji descobriu que a poliomielite estava voltando à Síria devastada pela guerra, e ele coordenou uma campanha em 2014 que vacinou mais de 1 milhão de crianças. Seu trabalho foi apoiado por organizações poderosas como a Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA, a Unicef, a Organização Mundial de Saúde e a Fundação Bill e Melinda Gates, mas elas pouco podem fazer para ajudá-lo agora.

No início da guerra civil, Almilaji foi preso, torturado e encarcerado durante seis meses pelo regime Assad. Mas ele diz que se sente ainda mais impotente agora, que sua mulher sofre uma separação abrupta causada pelo ato do governo americano.

"Eu fui preso, torturado e tudo o mais", disse ele em uma conversa por telefone, da Turquia. "Mas minha mulher não precisa sofrer isso."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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