Em cartas, Jackie Kennedy revela amor pelo homem com quem ela não se casou

Steven Erlanger

Em Londres

  • Andrew Testa/The New York Times

    Carta que Jacqueline Kennedy escreveu para David Ormsby Gore

    Carta que Jacqueline Kennedy escreveu para David Ormsby Gore

Em novembro de 1967, quatro anos depois do assassinato de seu marido, Jacqueline Kennedy viajou para os templos de Angkor Wat, no Camboja, em uma viagem amplamente coberta pela mídia com David Ormsby Gore, um amigo de seu marido e ele mesmo recém-enviuvado.

Houve muita especulação sobre uma ligação romântica entre eles. Alguns meses depois, Ormsby Gore, um ex-embaixador britânico para os Estados Unidos, a pediu em casamento. Ela recusou.

Em uma carta escrita à mão, repleta de angústia e um toque de crueldade, ela explicou sua decisão de se casar com Aristóteles Onassis.

"Se algum dia eu conseguir encontrar alguma cura e conforto, terá de ser com alguém que não seja parte do meu mundo de passado e dor", ela escreveu. "Eu poderei encontrar isso agora, se o mundo nos permitir".

A carta faz parte de uma série de papéis encontrados em estojos de couro vermelho trancados, descobertos somente no mês passado em Gales, na casa da família de Ormsby Gore, que morreu em 1985. Eles serão leiloados em Londres no mês que vem por seu neto, para ajudar a reformar a casa.

As cartas apontam para a profundidade de sentimentos por trás da máscara pública de uma das mulheres mais celebradas de sua época.

Entre elas está a carta para Ormsby Gore, também conhecido como Lorde Harlech, datada de 13 de novembro de 1968, um mês depois de seu casamento com Onassis e cinco meses depois do assassinato de Robert F. Kennedy.

Nela, ela fala sobre o amor que sentia por Ormsby Gore, cuja mulher havia morrido em um acidente de carro em maio de 1967. "Nós conhecemos tanto & dividimos & perdemos tanto juntos --mesmo que não seja da forma como você deseja agora-- espero que esse vínculo de amor e dor nunca seja rompido".

Escrevendo a partir do iate de Onassis na Grécia, em papel de carta timbrado com o brasão da embarcação --uma mensagem clara, ainda que fria-- Kennedy disse a Ormsby Gore: "Você é como um adorado irmão e mentor, e o único espírito original que eu conheço, assim como você foi para o Jack".

Ormsby Gore havia expressado incredulidade em relação ao fato de ela ter escolhido Onassis, e ela tentou responder.

"Por favor saiba --você, de todas as pessoas, deve saber-- que nós nunca conseguimos realmente entender o coração do outro", ela escreveu. "Você me conhece. E você precisa saber que o homem sobre o qual você escreve em sua carta não é um homem com o qual eu poderia me casar".

Onassis, ela escreveu, é "solitário e quer me proteger da solidão. E ele é sábio e bondoso. Só eu posso decidir se ele pode, e eu decidi".

"Eu sei que é uma surpresa para muitas pessoas", ela continuou. "Mas elas veem coisas para mim que eu nunca quis para mim mesma".

Ormsby Gore era um velho amigo de John F. Kennedy, cuja irmã mais nova, Kathleen, ou Kick, se casou com um primo de Ormsby Gore. Depois que John F. Kennedy foi eleito em 1960, o primeiro-ministro Harold Macmillan enviou Ormsby Gore para Washington como embaixador do Reino Unido.

Os dois homens, que tinham um ano de diferença de idade, eram extremamente próximos, e o presidente o consultava sobre todas as questões importantes de política externa, especialmente durante a crise dos mísseis de Cuba de 1962, e em discussões sobre o Vietnã e o desarmamento nuclear.

Robert Kennedy disse que Ormsby Gore era "quase uma parte do governo", acrescentando que o presidente "preferia ter a opinião dele à de qualquer outra pessoa".

Entre as cartas está uma na qual o presidente elogiava o embaixador: "Como você sabe, aprecio sua opinião em todas essas questões críticas, que descobri ser uniformemente boa e verdadeira".

Ormsby Gore herdou o título de seu pai, Lorde Harlech, quando ele morreu em 1964. Seu neto Jasset, que herdou o título um ano atrás, é o que está vendendo os papeis, juntamente com suas outras posses, na Bonhams, Londres, em um leilão agendado para 29 de março.

Algumas de suas cartas estarão expostas no dia 2 de março no showroom da Bonhams em Nova York.

No total, há 18 cartas escritas à mão e uma carta batida à máquina de Jacqueline Kennedy para Ormsby Gore, bem como outros papeis. Estes incluem um passe que lhe permitia a entrada na Casa Branca em 23 de novembro de 1963, um dia após o assassinato, uma carta jocosa de 1963 escrita por Robert Kennedy, assinada "Bobby", e instruções para os que carregariam o caixão de Robert Kennedy em seu funeral.

Os papéis incluem uma carta que Jacqueline Kennedy escreveu para Ormsby Gore depois da morte de sua mulher, Sylvia, conhecida como Sissie, que parecia prenunciar seu desejo de se casar com ela.

"Sua última carta foi um apelo sincero de solidão --eu faria qualquer coisa para tirar essa angústia de você", ela escreveu. "Você quer remendar as feridas & juntar os pares soltos --mas você não pode, porque sua vida não vai se sair desse jeito".

Um dos documentos mais emocionantes é o esboço de uma carta que Ormsby Gore escreveu para Jacqueline Kennedy depois que ela recusou sua proposta.

"Todos os planos patéticos que eu havia trazido comigo de visitas à Cirenaica, de férias perto um do outro e toda uma variedade de soluções para nossos problemas de casamento, incluindo um casamento secreto este verão --planos que eu via discutindo com você entusiasmadamente, tranquilamente e com total franqueza, como fizemos em Cape e no Camboja por dez maravilhosos dias-- todos eles haviam se tornado um lixo irrelevante a ser jogado fora horas depois de eu chegar a Nova York", ele escreveu.

"Quanto à sua foto, eu choro quando olho para ela. Por que coisas tão agonizantes precisam acontecer? Qual a necessidade disso?"

Os Kennedys e os Ormsby Gores socializavam com frequência, até mesmo gerando ressentimento entre outros diplomatas e membros do governo. Eles faziam pequenos jantares na Casa Branca e saíam de férias juntos.

Uma "carta incoerente como se tivesse sido escrita sob efeito de um Martini" de oito páginas, escrita por Jacqueline Kennedy na primavera de 1962, discute uma viagem de férias que eles fariam em breve para as regatas do America's Cup. Outras cartas mencionam o amor que ela tinha pela dança.

Matthew Haley, chefe do setor de livros raros e manuscritos da Bonhams, disse que "nunca se viu tanto sobre a vida de pessoal de Jackie e nesse nível de intimidade".

Ormsby Gore era o grande amigo de seu marido, mas "o fato de que eles haviam criado uma amizade tão íntima em tão curto espaço de tempo é importante", ele disse, ainda que construída sobre uma tristeza em comum.

Contatado a respeito das cartas na sexta-feira, um representante da família Kennedy disse que membros da família haviam decidido não comentar.

Barbara Leaming, que escreveu biografias dos Kennedys, disse que Ormsby Gore era "a relação crucial que Jack tinha na presidência", um homem em quem ele confiava quase tanto quanto em Robert Kennedy. "Jackie amava em Jack o homem que ele queria ser, e David era o homem que, na visão dela, estava ajudando Jack a ser o homem que ele queria ser", ela disse.

O sofrimento que se seguiu ao assassinato de Robert Kennedy em junho de 1968 foi um dos motivos pelos quais ela procurou a segurança de Onassis, de acordo com Leaming. "Foi o segundo grande trauma para ela", disse Leaming. "Ela deixou muito claro que não estava se casando por amor, como ela disse para Joe Alsop em uma carta. Ela estava buscando segurança".

Quanto a Ormsby Gore, "é claro que ele se apaixonou por ela, pois ela o entendia tão bem", disse Leaming. "Mas não faço ideia se foi consumado ou não".

Ormsby Gore chegou a se casar de novo, em dezembro de 1969, com Pamela Colin, uma americana que lembrava mais do que de leve Jacqueline Onassis. Ele morreu aos 66 anos de idade, em um acidente de carro. Jacqueline Onassis compareceu a seu funeral.

Tradutor: UOL

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