Um rico apresentador de "O Aprendiz" na política? Mas Doria diz que não é Trump

Simon Romero*

Em São Paulo

  • Maurcio Lima/ The New York Times

    O prefeito João Doria (PSDB) posa para foto com crianças durante evento na Vila Carrão

    O prefeito João Doria (PSDB) posa para foto com crianças durante evento na Vila Carrão

Antes que João Doria saltasse para a política brasileira, publicou uma revista chamada "Caviar Lifestyle", juntou uma fortuna organizando retiros corporativos elegantes e escreveu livros de autoajuda como "Lições para Vencer".

E Doria, que de repente atrai a atenção da mídia de todo o Brasil como o novo prefeito despachado de São Paulo, foi o apresentador da versão brasileira do programa de TV "O Aprendiz", atraindo inevitáveis comparações com outro apresentador, o presidente dos EUA, Donald Trump.

"Eu não preciso estar na política", disse Doria, 59, em uma entrevista. "Tenho meu avião, meu helicóptero, meu carro, minha casa", referindo-se às posses como seu jato privativo Embraer Legacy, seu helicóptero Bell e sua propriedade no Jardim Europa, bairro onde reside a elite da cidade em mansões cercadas de muros.

"Mas eu gosto do meu país", disse ele. "Gosto do Brasil."

A tática de Doria para chamar atenção desde que assumiu o cargo, em janeiro, projetando-se como um rico forasteiro preparado para sacudir a cena política do Brasil, o está situando entre as principais novas vozes em um país que se inclina à direita antes das eleições presidencial em 2018.

Nestas poucas semanas, Doria trocou algumas vezes sua vestimenta normal --paletós sob medida, suéteres de cachemira e calçados Prada-- por uniformes de coletor de lixo, jardineiro e técnico antigrafite, e brevemente realizou esses serviços--, mas sempre diante das câmeras, transformando as aparições públicas em espetáculos de mídia bem orquestrados.

Os críticos de Doria denunciaram essas medidas como táticas populistas concebidas para distrair a atenção de problemas estruturais prementes nesta megacidade com uma população metropolitana de 20 milhões. Mas os esforços do novo prefeito tiveram repercussão entre alguns eleitores.

"Ele começou bem", disse Marco Faiock, 73, um dono de café que votou em Doria. "Veja como ele acorda às 7h, limpa as ruas ou pinta algum grafite. Esse é um homem que sabe trabalhar duro."

Alguns observadores começaram a comparar Doria a Jânio Quadros, o político instável que durante sua breve Presidência, na década de 1960, fez da vassoura um símbolo de campanha para "varrer a corrupção" e criou um uniforme inspirado em safáris para os servidores públicos.

Quando Quadros se tornou prefeito de São Paulo, nos anos 1980, ganhou notoriedade mais uma vez por algumas de suas medidas mais populistas, como multar pessoalmente os motoristas por infrações de trânsito e proibir os biquínis "fio dental" nos parques da cidade.

Maurcio Lima / The New York Times
O prefeito João Doria (PSDB) lança uma bola de basquete durante evento na Vila Carrão

Mas Doria disse que não está se inspirando em Quadros ou mesmo em Trump, que ele conheceu em 1988, quando o entrevistou para o jornal "Folha de S.Paulo", salpicando Trump com perguntas como quanto ele tinha pago por seu relógio (resposta: US$ 29 milhões).

"Veja, eu não tenho nada contra Donald Trump, mas não me identifico nem um pouco com ele", disse Doria sobre os paralelos entre sua incursão na política e a de Trump, dizendo que preferia como modelo Michael Bloomberg, o empresário americano e ex-prefeito de Nova York.

De qualquer modo, a ascensão de Doria ao poder na maior cidade do Brasil, onde ele ganhou no primeiro turno de votação, em outubro, está desencadeando um acirrado debate sobre suas estratégias políticas e conceitos variados sobre congestionamentos, vandalismo e liberdade de expressão nas ruas de São Paulo.

Doria manteve algumas políticas de seu antecessor de esquerda na Prefeitura, Fernando Haddad, como abrir a Avenida Paulista, a mais importante via pública local, aos pedestres, músicos de rua e ciclistas nos fins de semana.

Mas Doria também está atraindo eleitores que criticavam os esforços de Haddad ao contestar a supremacia do automóvel como modo de transporte nesta cidade sufocada pelo trânsito. Por exemplo, uma das primeiras medidas de Doria foi aumentar os limites de velocidade em algumas vias expressas.

Assim, Doria está surgindo como um dos astros do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que teve origem na oposição à ditadura militar do Brasil antes de evoluir para um grupo mais conservador que ancora a coalizão do presidente Michel Temer.

Doria também atacou o grafite, atraindo críticas depois que usou técnicos para pintar de cinza os murais feitos por artistas apenas dois anos atrás. Algumas pessoas aqui afirmam que Doria não soube distinguir entre a arte urbana, que anima uma cidade, e a pichação, rabiscos crípticos que envolvem prédios de São Paulo.

"Alguns grafites nesta cidade são arte, pura e simples, e Doria não parece captar essa diferença", disse Sônia Rocha, 51, uma ex-funcionária pública desempregada. "Ele poderia ser um ótimo administrador em seu campo, o marketing, mas administrar uma cidade com milhões de nuances, milhões de problemas, é diferente."

Rocha chamou as aparições públicas do prefeito vestido de lixeiro de uma estratégia "cômica", destinada a atenuar sua imagem como um empresário conhecido por seu amor ao luxo. "A próxima coisa que você verá será ele vestido de Carmen Miranda para o Carnaval", disse ela.

Reagindo a essas críticas, Doria disse que seu caminho pessoal à riqueza e ao poder político envolveu desafios importantes.

Ele nasceu privilegiado, filho de um executivo da publicidade que criou a versão brasileira do Dia dos Namorados, comemorado todo ano em 12 de junho.

Seu pai também entrou na política, mas foi afastado de seu lugar no Congresso e obrigado a exilar-se na França por se opor ao golpe de 1964 que instituiu uma ditadura militar. A família viveu em Paris vendendo suas posses, como obras de arte do pintor modernista Emiliano di Cavalcanti.

Quando o dinheiro acabou, Doria voltou com sua mãe para São Paulo. Foram morar em um pequeno apartamento e o jovem frequentou a escola pública. A mãe foi rejeitada pela família, que reprovava a política de seu marido, e ganhou a vida com um pequeno negócio de venda de fraldas.

A mãe de Doria morreu aos 36 anos, meses antes de seu pai voltar de uma década no exílio. Doria ainda estava no colégio. A causa oficial da morte foi pneumonia, "mas na verdade ela morreu de tristeza", disse Doria, citando sua luta na época com a solidão, a rejeição e a depressão.

Doria trabalhou para terminar o colégio, a faculdade de publicidade e jornalismo, antes de embarcar em uma carreira de apresentador de programas de entrevistas na televisão e organizador de conferências em que líderes empresariais se misturavam com políticos.

Apesar de suas afirmações de que São Paulo e o resto do Brasil precisam de uma injeção de práticas de mercado na política, Doria e sua mulher, a escultora Bia Doria, enfrentaram críticas por contar com benefícios do governo para expandir sua riqueza.

Ele sofreu escrutínio por obter cerca de US$ 500 mil em receitas de publicidade para sua revista "Caviar Lifestyle" do governo do Estado de São Paulo, enquanto Bia Doria utilizou uma medida que permite que as empresas descontem impostos em troca de investimentos em projetos culturais, no caso dela uma exposição de sua obra em Miami e um livro requintado sobre sua carreira.

Por enquanto, Doria conseguiu de modo geral desviar o foco dessas revelações, e hoje muitas vezes se vê indagado sobre se pretende se candidatar a presidente. Ele insistiu que vai apoiar o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, na candidatura à Presidência.

Até então, Doria faz planos para continuar sob os refletores. Ele diz que só dorme quatro horas por noite, doa seu salário para instituições de caridade e não tentará a reeleição daqui a quatro anos. "Meu projeto é para aqui e agora", disse. "E vou entregar resultados."

* Paula Moura colaborou na reportagem.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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