A luta para seguir em frente de um sobrevivente do voo da Chapecoense

Dom Phillips

Em São Paulo

  • Lalo de Almeida/The New York Times

    Jackson Follmann faz fisioterapia em São Paulo

    Jackson Follmann faz fisioterapia em São Paulo

Jakson Follmann segurou as balizas e deu passos lentos e doloridos, testando a prótese que hoje ocupa o lugar de sua perna direita. O dispositivo foi adaptado à estrutura física delgada de Follmann há apenas uma semana, e enquanto ele o experimentava seu pai, Paulo, e sua fisioterapeuta, Eliene Lima, o incentivavam em silêncio.

Quando Follmann, um ex-jogador de futebol com cabelo cortado a máquina e um sorriso fácil, seguiu até o final das barras, todos os que haviam se espremido na sala de exames de paredes brancas aplaudiram em comemoração. Lima abraçou Follmann e ele respondeu com uma piscada de olho e um sorriso.

Faz mais de dois meses que Follmann, 24, perdeu a parte inferior da perna direita --o mais sério de seus muitos ferimentos--, quando um voo fretado que levava seu time de futebol, a Associação Chapecoense de Futebol, caiu em uma montanha na Colômbia a caminho de um jogo. O desastre matou 71 pessoas --incluindo quase todos os jogadores e o treinador da Chapecoense, time do interior do Brasil que estava perto do fim de uma temporada de sonho.

Follmann, um goleiro da reserva, foi uma das sete pessoas encontradas vivas quando os socorristas galgaram a montanha à noite até os destroços (um dos sobreviventes morreu mais tarde no hospital). Agora, os terapeutas do Instituto de Prótese e Órtese disseram estar surpresos que ele já esteja caminhando. E Follmann está tranquilamente orgulhoso de seu progresso.

"Em uma semana de fisioterapia, de tratamento, eu consegui dar meus primeiros passos", disse ele. "Para mim foi realmente uma grande vitória."

A tragédia da Chapecoense repercutiu em todo o mundo. Poucos torcedores fora da América do Sul tinham ouvido falar no pequeno time do sul do Brasil antes do acidente em novembro, que ocorreu quando ele voava para sua primeira participação na Copa Sul-Americana (Conmebol), o segundo maior torneio da América do Sul. Mas quando a notícia do acidente circulou pelo mundo alguns dos maiores times de futebol fizeram minutos de silêncio antes de partidas, jogadores importantes como Lionel Messi prestaram homenagens e o hashtag #ForçaChape se tornou um símbolo de apoio global.

Agora o time e os sobreviventes como Follmann começam o longo percurso de volta. O clube já montou um time com jogadores emprestados, fora de contrato e juvenis, e no mês passado começou a disputar partidas novamente com um novo treinador, Vagner Mancini.

"Não vamos parar de lutar --essa é a mensagem que todos temos", disse José Constante, um goleiro conhecido por seu nome do meio, Nivaldo. Constante, 42, que não estava no avião, depois do acidente seguiu seus planos de se aposentar. Hoje ele trabalha como diretor de futebol do time.

A Chapecoense foi fundada em 1973 em Chapecó, uma pequena cidade industrial no Estado de Santa Catarina, com 210 mil habitantes, cercada por terras agrícolas. O time chegou à quarta divisão do Brasil em 2009, mas em 2014 tinha alcançado o andar superior, a Série A. Follmann entrou como goleiro reserva em maio, perto do início de um período extraordinário que deveria ser coroado pela final da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional da Colômbia.

Lalo de Almeida/The New York Times
Follmann durante fisioterapia em São Paulo

A Chapecoense não tinha jogadores famosos, disse Follmann, mas era bem organizada e tinha desenvolvido um senso de equipe incomumente forte.

"Éramos uma família", disse ele. "Não havia vaidade, nem estrelas. Como dizemos no futebol, não tinha um Pelé."

Follmann se encaixava bem. Tinha crescido em Alecrim, pequena cidade no Estado vizinho do Rio Grande do Sul. Quando criança, ele jogava futebol atrás da casa da família com seu pai, um sargento da polícia que está aposentado. Follmann brincava que se tornou goleiro porque não era bom em nenhuma outra posição.

Alto, rápido e acrobático, o jogador de 1,83 metro saiu de casa aos 13 anos para assinar com o Grêmio, o maior time do Estado, e mais tarde jogou em times menores no vasto interior brasileiro, antes de ser contratado pela Chapecoense.

Mas a hora de jogar demorava a chegar. O goleiro principal da Chapecoense, Marcos Padilha, conhecido como Danilo, desfrutava uma temporada de sonho quando Follmann chegou, e este só apareceu em um jogo competitivo, uma partida da Copa Sul-Americana que a Chapecoense perdeu por 1 a 0.

Luiz Chinagll, agente de Follmann, disse que isso estava prestes a mudar; Padilha, 31, deveria ser transferido no final da temporada, abrindo caminho para Follmann. Mas isso não importa agora. Padilha sobreviveu ao acidente, mas morreu no hospital, e os ferimentos de Follmann interromperam sua carreira no esporte.

Hoje ele e sua família veem sua sobrevivência como um milagre.

Quando a noiva de Follmann, Andressa Perkovski, 24, telefonou para a família dele nas primeiras horas de 29 de novembro para dar a notícia do acidente, Paulo Follmann entrou em choque e teve de ser hospitalizado. Mas a mãe de Jakson, Marisa, confiou na fé católica da família e manteve a crença em que ele sobreviveria.

"Eu senti que Deus me dizia que ele estava vivo", disse ela, "e foi o que aconteceu."

O time voava de Santa Cruz, na Bolívia, para Medellín, na Colômbia, em uma pequena companhia de fretes da Bolívia, LaMia, que já tinha usado antes. Investigações das autoridades bolivianas e colombianas revelaram que o avião ficou sem combustível minutos antes do pouso em Medellín. Os bolivianos culparam a LaMia e o piloto, um dos sócios da empresa, que estava entre os mortos no acidente.

Follmann disse que ele e dois outros jogadores que sobreviveram,Hélio Zampier Neto e Alan Ruschel, estavam sentados perto das asas quando os motores do avião pararam. Percebendo que havia uma crise, ele torceu suas mãos de medo, segundo disse. Follmann contou que desmaiou quando o avião atingiu a encosta, e acordou no escuro, no chão, onde um socorrista o encontrou gritando. Depois de desmaiar de novo, ele acordou três dias depois em um hospital, com a família ao seu lado.

Lá ele ficou sabendo da morte de seus companheiros e dos técnicos.

"Chorei muito", disse. "Mas nas poucas vezes em que penso no acidente eu tento mudar meu pensamento. Tento pensar na felicidade de todos, e isso é bom para mim porque só penso coisas boas sobre os que se foram. E isso me dá forças."

E acrescentou: "Estou muito grato por não ter visto ninguém morto, morrendo ao meu lado. Por isso a imagem que fica comigo é do sorriso de todo mundo".

Ele disse que não sente raiva dos responsáveis pelo acidente --"não cabe a mim julgar; só quero me concentrar na minha recuperação e comemorar minha vida"-- e prefere se concentrar em sua fé e seu futuro.

"Não cabe a mim ficar em um canto triste e lamentando por minha perna ou perguntando a Deus por que a perdi", disse ele. "Deus me deu a vida de novo. Eu nasci de novo."

Ele sofreu diversas fraturas, porém, incluindo uma lesão numa vértebra cervical que foi reparada em uma operação em São Paulo. Um ferimento profundo na cabeça precisou de 39 pontos. Seu pé esquerdo sofreu um grande corte e o osso astrágalo, que faz o giro do tornozelo, foi removido. Foi inserido um talo de 15 cm como estabilizador.

Esse ferimento ainda causa dores e está coberto por uma bota de proteção. Em sua visita à clínica, Follmann piscou quando a fisioterapeuta Patricia Galvão lentamente dobrou seu pé para a frente e para trás. Seu passado como atleta ajudou na recuperação, disse ela. "É mais fácil reabilitar uma pessoa acostumada a exercícios duros", explicou.

Follmann disse que ficará em Chapecó enquanto continua sua recuperação e planeja um futuro muito diferente do que esperava para si mesmo. Ele fez amizade com Renato Leite, 34, um membro da equipe de vôlei paralímpica do Brasil, que também usa uma prótese de perna. Leite o incentivou a considerar uma segunda carreira atlética, dizendo: "Ele tem tudo para se tornar um atleta paralímpico".

Follmann disse que não descarta essa ideia. Não pode descartar.

"Sou um esportista", disse, "e sempre serei um esportista."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos