Ele é um dos pilares da cidade. Agora poderá ser deportado

Monica Davey

Em West Frankfort (Illinois, EUA)

  • Whitney Curtis/NYT

    Elizabeth Hernandez, mulher de Juan Carlos Hernandez, e seus filhos em West Frankfort

    Elizabeth Hernandez, mulher de Juan Carlos Hernandez, e seus filhos em West Frankfort

Pergunte aos moradores desta cidade de minas de carvão sobre a decisão do presidente Donald Trump de reprimir os imigrantes não autorizados e a maioria não protestará. Trump, que ganhou com facilidade neste condado do sul do Estado de Illinois, de maioria branca, está fazendo o que prometeu, dizem eles. Como disse Terry Chambers, um barbeiro que trabalha na Rua Principal, o presidente simplesmente quer "se livrar dos ovos estragados".

Mas então eles pegaram Carlos.

Juan Carlos Hernandez Pacheco - simplesmente Carlos para a população de West Frankfort - é o gerente do La Fiesta, um restaurante mexicano nesta cidade de 8.000 habitantes, há uma década.

Sim, ele sempre recebeu as pessoas calorosamente no restaurante com decoração alegre, conhecido pelos pratos de carne e fajitas de frango. Sim, ele conhece seus filhos pelo nome. Mas as pessoas aqui conhecem Carlos por bem mais que isso.

Como numa noite no último outono, quando o Departamento de Bombeiros combatia um incêndio nível 2, Hernandez de repente apareceu com refeições para os bombeiros. Como ele organizou um Dia de Agradecimento à Polícia no Estado no último verão, quando os policiais enfrentavam críticas em todo o país.

Como ele participou de praticamente todos os comitês ou iniciativas de caridade - o Rotary Club, o grupo de combate ao câncer, dias de faxina, até bolsas para os Redbirds, o time esportivo do colégio que é o orgulho da cidade.

"Acho que as pessoas precisam fazer as coisas certas, seguir as regras e obedecer às leis, acredito firmemente nisso", disse Lori Barron, dona de um salão de beleza. "Mas no caso de Carlos eu acho que ele pode ter feito mais pelas pessoas daqui do que este lugar lhe deu em troca. Acho absolutamente terrível que ele possa ser levado embora."

Em 9 de fevereiro, Hernandez, 38, foi detido por agentes federais de imigração perto de sua casa, não longe do La Fiesta, e levado a uma instalação de detenção no Missouri. As autoridades federais confirmaram que ele continua sob custódia, mas não quiseram comentar o motivo exato ou o momento de sua prisão.

As autoridades de imigração comentaram que Hernandez teve duas condenações por dirigir embriagado em 2007, circunstância que poderia fazer dele uma prioridade para deportação. Amigos dele disseram que entrou nos EUA vindo do México no final dos anos 1990 e começou mas não concluiu as medidas para legalizar sua situação.

Quando Victor Arana, advogado de Hernandez, começou a pressionar no tribunal para tentar libertá-lo sob fiança até que o caso fosse julgado, a comunidade se uniu em torno dele, escrevendo pedidos de clemência às autoridades que decidirão seu destino.

Tom Jordan, o prefeito de West Frankfort, escreveu que Hernandez é um "grande bem" da cidade, que "não pede nada em troca". O chefe dos bombeiros o descreveu como "um homem de grande caráter".

Arquivo pessoal/NYT
Elizabeth e Carlos

As cartas se acumularam - do promotor da cidade, do antigo chefe dos correios, do negociante de carros, do presidente do Rotary Club. Em seu pedido, Richard Glodich, diretor atlético do Colégio Secundário Comunitário de Frankfort, escreveu: "Como neto de imigrantes, sou a favor da reforma da imigração, mas desta vez vocês prenderam um HOMEM BOM que deveria servir de modelo para outros imigrantes".

Essa é uma posição desconfortável para um lugar como West Frankfort. Esse condado, Franklin, apoiou Trump com 70% dos votos, principalmente devido à esperança, segundo os moradores, de que ele desse um impulso na indústria de carvão, que recuou dolorosamente ao longo das décadas.

A imigração ilegal não era absolutamente a questão mais premente para esta área de grande maioria branca, dizem os moradores.

Ainda assim, muitos dizem que concordam em princípio com o desejo de Trump de ser mais agressivo para bloquear os que tentam se esgueirar pela fronteira. As coisas ficaram mais complicadas quando esse princípio se encontrou com a realidade particular de Frankfort, na forma de Carlos.

Muitas pessoas disseram que não sabiam que Hernandez não tinha situação legal até que surgiu a notícia de sua prisão.

"Eu sabia que ele era mexicano, mas está aqui há tanto tempo que é um de nós", disse Debra Johnson, uma moradora. Ela explicou que vê a diferença entre "pessoas que chegam e usam o sistema e as pessoas que realmente vêm para ajudar".

Whitney Curtis/NYT
Restaurante mexicano La Fiesta, onde Carlos Hernandez trabalhava como gerente

Nem todo mundo acha que Hernandez deveria ser tratado de modo diferente dos outros estrangeiros sem permissão. Enquanto amigos reuniam palavras de apoio a ele por meio de um endereço de e-mail - istandwithcarlos@gmail.com -, outras mensagens também chegaram lá. 

"Carlos é provavelmente um bom homem, mas infringiu a lei do país", dizia um e-mail. Alguns críticos salientam os casos de condução embriagado. Seus amigos dizem que ele parou de beber depois disso.

Indagado sobre Hernandez, um porta-voz do Departamento de Imigração e Alfândega divulgou uma declaração que dizia, em parte: "Todo dia, como parte das operações de rotina, autoridades do órgão detêm estrangeiros criminosos e outros indivíduos que violam as leis de imigrantes de nosso país".

Depois que uma reportagem sobre sua detenção apareceu em um jornal local, "The Southern Illinoisian", alguns comentários foram diretos: "Nenhum cidadão americano está acima da lei dos EUA!"

E: "Entendo que esse homem está aqui há anos e contribuiu para a sociedade, mas ele não é LEGAL, portanto os EUA têm todo o direito de expulsá-lo".

E: "Alguns milhares já foram, faltam milhões".

Na área de West Frankfort, alguns ficam em silêncio quando perguntadas se certas pessoas não autorizadas deveriam ser alvo de exceção.

"Com tudo o que aconteceu - tivemos anos de taxas de desemprego que estão disparando -, eu gostaria de ver algumas pessoas que conheço voltarem a trabalhar antes de me preocupar com pessoas de outros países que vêm para cá conquistar uma vida melhor", disse Audrey Loftus, 38, uma atendente no bar do posto local dos Veteranos das Guerras Internacionais.

Mas Hernandez, segundo Loftus, deixou-a "em cima do muro" sobre o que deve acontecer agora; "detesto usar a palavra 'caipiras', mas isto é o sul de Illinois", disse ela. "Essa é a definição de um clube de velhos rapazes, e você não tem muita gente de diferentes etnias nesta área."

"Depois há o Carlos", continuou. "Você não vai encontrar uma única pessoa que tenha algo de ruim para dizer sobre ele."

O advogado de Hernandez disse que deverá haver uma audiência sobre seu caso na quarta-feira (1) e que ele espera que seu cliente seja libertado sob fiança enquanto uma ação legal prossegue.

Sua mulher, Elizabeth Hernandez, que obteve a cidadania americana no final do ano passado, segundo Arana, disse que não consegue dormir desde que seu marido foi preso. O casal tem três filhos, o mais novo com 2 anos.

"O que realmente me preocupa", disse ela em uma entrevista por telefone, "é o que vou dizer a meus filhos se ele não puder ficar aqui."

Tim Grigsby, que é dono de uma gráfica local e considera Hernandez um de seus melhores amigos, vem ajudando nos esforços para trazer Hernandez de volta a West Frankfort. Ele disse que sempre soube que Hernandez fez muito pela cidade. Mas ele disse que mesmo que não entendia o alcance do fato até que as cartas começaram a chegar.

Havia o pastor que descreveu Hernandez ajudando em um funeral, a família que lembrava dele angariando centenas de dólares para o aparelho auditivo de seu filho, o empresário que disse que era uma pessoa muito retraída, mas que Hernandez é uma das poucas pessoas que ele convida para jantar.

Grigsby disse que ainda votará em Trump. Nunca se concorda com tudo o que um político faz, "mas talvez isto tudo deva ser tratado em uma base de caso a caso", disse ele. "É difícil ser definitivo sobre o assunto, porque pode haver pessoas como Carlos."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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