Brasil está entre os cinco países que mais perdem milionários no mundo

Robert Frank*

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Apesar do debate sobre imigração nos EUA e na Europa, um grupo de imigrantes está tendo recepção com tapete vermelho em todo o mundo: os milionários.

No ano passado, um recorde de 82 mil milionários se mudou para outro país, segundo um novo estudo. Enquanto seus números são uma pequena fração da população migrante do mundo, e dos milionários globais, as pessoas ricas estão sendo paparicadas pelos países anfitriões como nunca antes.

O crescente contraste entre migrantes pobres e ricos revela uma forma menos noticiada de desigualdade global, assim como a aceleração de uma nova cultura de ricos sem raízes e sem fronteiras.

"Os ricos hoje não têm país", disse Reaz H. Jafri, sócio da Withers Worldwide em Nova York, firma de advocacia que ajuda os clientes ricos a se mudar e reinstalar em qualquer lugar do mundo. "Eles não veem seu sucesso como relacionado ou dependente de um país, mas de suas próprias estratégias empresariais. É incrível o número de muito ricos que estão se tornando totalmente móveis."

Os ricos sempre foram uma classe inquieta, é claro, movendo-se conforme as estações ou o circuito social. Mas a atual onda de migrações milionárias parece ter alcançado um novo nível, com famílias ricas mudando de cidadania, enviando seus filhos ao estrangeiro ou transferindo-se permanentemente para seu país preferido.

Mais que fugir da ruína econômica ou do conflito, os migrantes milionários procuram pelo mundo as melhores escolas, segurança financeira e estilo de vida. A tecnologia, juntamente com a ascensão dos mercados e investidores globais, deu origem a milionários multinacionais que cada vez mais não têm uma nação.

Segundo a firma de pesquisas de mercado New World Wealth, de Johanesburgo, na África do Sul, o número de milionários que se mudam para outro país saltou 28% em 2016, em relação ao ano anterior, atingindo o nível mais alto que a firma já encontrou em seus quatro anos de análises. A migração milionária cresceu 60% desde 2013, segundo as conclusões da firma, e não há sinais de que isso esteja diminuindo.

Andrew Amoils, diretor de pesquisa na empresa, disse esperar que o número de milionários em mudança supere 100 mil nos próximos dois ou três anos.

Isso ainda é uma pequena fatia dos estimados 13,6 milhões de milionários em todo o mundo, definidos como os que têm pelo menos US$ 1 milhão em ativos (menos dívidas), sem incluir sua residência principal.

Os dados da New World Wealth incluem apenas os milionários que se mudaram fisicamente para outro país por um período de pelo menos seis meses. Ela usa em suas estimativas estudos, dados imobiliários e pesquisas com firmas de relocação e outros especialistas.

Acrescente a estes os ricos que mudaram de cidadania ou ganharam uma nova, os que passam parte do tempo ou possuem residências em vários países, e os números crescem muito.

"Examinamos as pessoas que realmente se mudaram", disse Amoils. "Mas o universo da riqueza multinacional é obviamente muito maior."

O mapa da migração também está se modificando rapidamente. A Austrália é o principal destino para milionários, superando os EUA pelo segundo ano consecutivo, segundo a firma de pesquisas citada. Estima-se que 11 mil milionários se mudaram para a Austrália em 2016, comparados com os 10.000 que foram para os EUA.

O Canadá ficou em terceiro lugar, com 8.000, seguido dos Emirados Árabes Unidos e da Nova Zelândia.

Quanto aos países de onde os milionários estão fugindo, a França encabeça a lista, com 12 mil saindo durante 2016. A China ficou em segundo lugar, com 9.000, seguida do Brasil, da Índia e da Turquia.

Amoils disse que a Austrália foi especialmente interessante para os milionários chineses, por sua relativa proximidade, a ampla opção de escolas privadas, o meio ambiente limpo e a estabilidade política e econômica. A Austrália, como muitos países, também criou programas de vistos em troca de dinheiro para facilitar a mudança de imigrantes ricos e sua transformação em cidadãos.

Em 2012, o país adotou o programa de vistos para investidores "Bilhete Dourado", que acelera e facilita a exigência de residência para se obter um visto permanente. Os milionários precisam investir 5 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 12,2 milhões) para se qualificar para o programa, oficialmente chamado de Visto de Investidor Especial. Desde sua criação, mais de 1.300 estrangeiros, quase 90% deles da China, usaram o programa, segundo estatísticas do governo.

O governo australiano também tem um programa de vistos pra investidores que permite que as pessoas invistam 1 milhão de dólares australianos (R$ 2,4 milhões). Essa opção tem mais restrições e demora mais para se conseguir do que um visto permanente.

Os outros dois principais destinos, o Canadá e os EUA, também têm programas de vistos generosos para os abastados. O programa EB-5 dos EUA exige um investimento de US$ 550 mil (cerca de R$ 1,76 milhão), mas há propostas no Congresso para elevar esse número --que não muda há 27 anos-- para mais de US$ 1 milhão.

O Canadá eliminou um de seus maiores programas de investidores em 2014, mas há outros disponíveis para estrangeiros ricos. O número de vistos para dez anos emitidos para visitantes chineses mais que quadruplicou entre 2012 e 2015, chegando a 337 mil.

Amoils disse que o principal motivo pelo qual os milionários estão deixando a China é educar seus filhos em escolas ocidentais ou australianas, que lhes darão uma educação melhor e conexões para suas carreiras profissionais.

É claro que viver em um país onde os bilionários literalmente desaparecem em meio à repressão do governo à corrupção também impele os ricos e suas fortunas para o exterior. Um relatório de 2014 da firma de pesquisas Hurun, em Xangai, que acompanha os ricos, descobriu que 64% dos milionários chineses estavam considerando ou já no processo de mudança, com a educação sendo o principal motivo.

Jafri, da Withers Worldwide, disse que a segurança pessoal acompanha a educação para muitos milionários do mundo quando consideram mudar-se de país. Muitos de seus clientes são latino-americanos que buscam um alívio dos sequestros e crimes. "Meus clientes dizem: 'Em Nova York, posso andar com minha filha até a Brearley, enquanto em Buenos Aires temos de usar carros blindados'", disse Jafri.

A fuga de ricos franceses é impelida por preocupações diferentes. Segundo Amoils, os milionários que deixam a França citam as tensões religiosas e a segurança pessoal como principais motivos. Enquanto os altos impostos da França sobre os ricos são um fator, ele e outros disseram que as forças sociais e políticas são mais importantes.

"Para eles, muitas vezes trata-se das mudanças culturais na França", disse Amoils.

Especialistas em imigração dizem que a maior mudança em longo prazo nos motivos que levam milionários a migrar é a crescente importância dos impostos. Durante décadas, os ricos procuraram paraísos fiscais como Mônaco, Suíça ou as ilhas Caimã para maximizar sua riqueza. Hoje eles buscam países estáveis com sistemas financeiros capazes de proteger suas fortunas, mesmo que o imposto de renda seja alto.

E enquanto as políticas de imigração do presidente Donald Trump tiveram pequeno impacto sobre os imigrantes ricos até agora, Jafri teme que elas possam afastar futuros empreendedores e talentos.

"Estamos deixando entrar os milionários de hoje", disse Jafri. "Mas e os de amanhã?"

*Robert Frank é editor de economia da CNBC e autor de "Richistan"

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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