Trump adota expressão associada a governos comunistas e intriga historiadores

Andrew Higgins

Em Moscou

  • Ivan Sekretarev/ AP

    Bandeira vermelha é refletida em retrato de Josef Stalin durante manifestação de simpatizantes do Partido Comunista Russo, em Moscou

    Bandeira vermelha é refletida em retrato de Josef Stalin durante manifestação de simpatizantes do Partido Comunista Russo, em Moscou

A expressão era perniciosa demais até mesmo para Nikita Kruschev, um comunista veterano endurecido pela guerra não exatamente conhecido por melindres. Enquanto líder da União Soviética, ele exigiu que não fosse mais usado o termo "inimigo do povo" porque "ele eliminava a possibilidade de qualquer tipo de luta ideológica".

"A expressão 'inimigo do povo'", Kruschev contou ao Partido Comunista Soviético em um discurso de 1956 que denunciava o culto à personalidade de Stalin, "foi introduzida especificamente com o intuito de aniquilar fisicamente tais indivíduos" que discordavam do líder supremo.

É difícil saber se o presidente Donald Trump tem ciência do significado histórico do termo, um rótulo que em geral é associado mais a governos comunistas despóticos do que a democracias. Mas sua decisão de usar a terminologia intrigou alguns historiadores. Por que o líder eleito de uma nação democrática adotaria um rótulo que, após a morte de Stalin, até a União Soviética considerava ser carregada demais de conotações sinistras?

Nina Khrushchova, a bisneta de Kruschev e professora de relações internacionais da New School de Nova York, disse que a frase era "chocante de se ouvir em um contexto não soviético, e ainda por cima não stalinista". Seu bisavô, ela disse, "certamente também usava slogans soviéticos e termos ideológicos, mas ainda assim tentava se manter distante de denúncias generalizantes de segmentos inteiros da população soviética".

No entanto, no caso de Trump, ele está rotulando como inimigos um segmento da população americana, mais especificamente representantes do que ele chama de imprensa de "notícias falsas", incluindo o "The New York Times".

Ele usou a expressão mais de uma vez, inclusive na sexta-feira, durante um ataque contra a imprensa em um encontro de conservadores no qual ele disse que alguns repórteres estavam inventando fontes anônimas para atacá-lo.

"Alguns dias atrás, disse que as notícias falsas eram o inimigo do povo porque eles não têm fontes, eles só as inventam", disse o presidente, acrescentando ainda que o rótulo se aplicava somente a repórteres e editores "desonestos". Horas depois, Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, barrou jornalistas de diversos veículos de imprensa, incluindo o "The New York Times", de participar de uma entrevista coletiva em seu gabinete.

Ao usar a expressão e colocar-se em companhia tão infame, pelo menos em sua escolha de vocabulário para atacar seus detratores, Trump demonstrou, segundo Khrushchova, que a linguagem da "autocracia, do nacionalismo de Estado é sempre a mesma, independentemente do país, e nenhuma nação está isenta disso". Ela acrescentou que, muito provavelmente, Trump não havia lido Lênin, Stalin ou Mao Tsé-Tung, mas as "expressões de insulto, humilhação, dominação, estigmatização, xingamentos e criação de inimigos eram sempre as mesmas".

A Casa Branca não respondeu a pedidos de comentários.

A expressão "inimigo do povo" entrou pela primeira vez no léxico político em 1789, com a Revolução Francesa. Os revolucionários a usaram inicialmente como um slogan que era proferido arbitrariamente a qualquer um que se opusesse a eles. Mas, à medida que a resistência à revolução aumentava, o termo adquiriu um significado bem mais letal e jurídico com a aprovação em 1794 de uma lei que criava um tribunal revolucionário "para punir inimigos do povo" e estabelecia a pena de morte para crimes políticos. Estes, por sua vez, incluíam "a disseminação de notícias falsas para dividir ou afligir o povo".

O conceito voltou sob uma forma mais benigna quase um século depois em "Um Inimigo do Povo", uma peça de 1882 do escritor Henrik Ibsen sobre um denunciante idealista de uma cidade pequena em conflito com autoridades e locais que, para proteger a economia, querem suprimir informações sobre a contaminação da água. A Revolução Bolchevique de 1917 devolveu o termo aos dramas encharcados de sangue da Revolução Francesa, com Lênin declarando ao "Pravda" que o terror jacobino contra os "inimigos do povo" era "instrutivo" e precisava ser reavivado, de forma a livrar o povo russo de "latifundiários e capitalistas como uma classe".

Stalin, que assumiu como líder soviético após a morte de Lênin em 1924, expandiu drasticamente o escopo daqueles estigmatizados como "inimigos do povo", marcando como alvos não somente os capitalistas, mas também comunistas dedicados que haviam trabalhado junto a Lênin durante anos, mas que Stalin via como rivais.

"Era essencialmente um rótulo que significava morte. Significava que você era subumano e totalmente descartável", disse Mitchell A. Orenstein, professor de Estudos da Rússia e do Leste Europeu na Universidade de Pennsylvania. "Essa é a conotação para qualquer um que tenha vivido na União Soviética ou que saiba qualquer coisa sobre a União Soviética, algo que Donald Trump obviamente não sabe, ou com a qual não se importa".

Ele disse que era difícil saber se Trump estava ciente do significado da expressão ou se simplesmente a usou porque "ele sabe que irrita pessoas que têm um certo grau de conhecimento".

"Ele só está as alienando, e elas são as pessoas que ele quer alienar, de qualquer forma", continuou Orenstein. "Sua base vê comparações com Stalin simplesmente como mais evidências de que a mídia convencional liberal está degringolando".

Além disso, ao usar um termo tão carregado de maneira tão descuidada, o presidente "está no processo de torná-lo sem sentido", disse Orenstein. "Torna-se somente um lero-lero", ele acrescentou, porque ninguém realmente acha que Trump trará a guilhotina de volta.

Philip Short, um autor britânico que escreveu biografias de Mao e do líder genocida do Camboja Pol Pot, disse que Trump se deleitava em "polemizar, e esse tipo de linguagem faz exatamente isso".

"Tentamos analisar do ponto de vista do establishment, mas isso não leva a lugar nenhum", ele acrescentou. "Não sei se algum dia Trump já leu Stalin, mas se o que ele quer é desestabilizar as pessoas, ele está fazendo isso perfeitamente".

William Taubman, autor de uma biografia de Khrushchov e professor emérito de ciências políticas na Amherst College, disse que era "chocante" o fato de Trump reavivar um termo que havia ganho uma má reputação na União Soviética após a morte de Stalin em 1953. "Era tão onipresente, carregado e devastador quando usado durante o governo de Stalin que ninguém queria tocá-lo", ele disse. "Eu nunca o vi sendo usado na Rússia, a não ser em piadas ou referências históricas".

Khrushchova disse que Trump "tem usado muito esse tipo de estigmatização política e ideológica" adotada por líderes revolucionários, empregando termos como "simpatizante de esquerda" e "linguagem sobre uma clima pessimista nos Estados Unidos que é muito mais negativa do que até mesmo aquela usada pelos russos".

Ele também foi um passo além dos comunistas chineses e do Khmer Vermelho no Camboja, que em geral preferiam insultos locais àqueles importados da União Soviética.

Short, o biógrafo de Mao e Pol Pot, disse que comunistas chineses e cambojanos, todos ferrenhamente nacionalistas, raramente ou quase nunca usavam o termo "inimigo do povo" em lutas políticas domésticas porque era uma importação do estrangeiro. Em vez disso, Pol Pot chamava os inimigos de "micróbios feios" que "apodreceriam a sociedade, apodreceriam o partido e apodreceriam o país por dentro", enquanto maoístas cunhavam insultos como "a fétida nona categoria" para atacar especialistas e intelectuais.

De acordo com Short, Mao "usava expressões chinesas e falava como um chinês, não um russo".

"Ele não usava muito o jargão soviético", disse Short. "Mas Trump usa, o que é extraordinário".

Mao ocasionalmente usava a expressão "inimigo do povo", mas ele a dirigia não a seus inimigos domésticos, mas sim aos Estados Unidos, declarando em 1964 que "o imperialismo americano é o inimigo mais feroz do mundo inteiro".

"Os políticos normalmente usam frases que têm significado para seu próprio povo", disse Short. "Mao e Pol Pot não regurgitavam simplesmente termos stalinistas. O que é extraordinário a respeito de Trump é o fato de ele ter adotado uma expressão stalinista que é inteiramente alheia à cultura política americana".

 

* Com reportagem de Julie Hirschfeld Davis (Washington)

Tradutor: UOL

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